A polícia do estado de São Paulo, o estado mais populoso e rico do Brasil, prendeu 580 abusadores sexistas na terça-feira em uma mega operação contra a violência de gênero. Quatro mulheres brasileiras morrem todos os dias por feminicídio; Este ano, segundo dados oficiais, até novembro eram 1.331 pessoas. A dramática mobilização policial, destinada a executar 1.400 mandados de prisão pendentes para estupradores, ocorre dias depois de uma vítima de um caso que chocou o país ter morrido na véspera de Natal. Tainara Souza Santos, 31 anos, morreu após quase um mês internada no hospital depois que seu ex-namorado a agrediu e a arrastou com seu carro por um quilômetro por uma via expressa em São Paulo. O seu caso e outros incidentes brutais semelhantes levantaram preocupações sociais e políticas desconhecidas sobre a violência contra as mulheres nas últimas semanas.
Uma operação policial chamada Ano novo, vida nova, “Esta é uma resposta aos agressores que pensavam que poderiam ficar impunes”, afirmou em nota oficial a comissária Christiane Braga, coordenadora das esquadras dedicadas à protecção da mulher. No entanto, mais de metade dos agressores que tentaram prender não foram detectados, apesar do envio simultâneo de 1.700 agentes e milhares de carros de patrulha numa área onde metade da população espanhola é de 46 milhões de pessoas.
Em 2025, 233 mulheres brasileiras foram mortas no estado de São Paulo simplesmente por serem mulheres. Tanto a nível nacional como estadual, os dados dos últimos anos indicam um aumento nos homicídios sexistas, apesar de um declínio geral nas mortes violentas.
“A prisão dos agressores é uma medida fundamental para salvar vidas, garantir a dignidade (das vítimas) e demonstrar que o Estado está a agir de forma firme e coordenada contra a violência doméstica”, afirmou o ministro da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves. A operação policial foi realizada com apoio da Secretaria de Políticas para as Mulheres.
Os sinais de que as percepções sociais e políticas da violência sexista no Brasil estão mudando são numerosos e claros. O que anteriormente recebia menos atenção ou até passava despercebido – um fenómeno arraigado que significa que quatro mulheres por dia são mortas pelos seus maridos, namorados ou ex-parceiros e outras dez que sobrevivem a tentativas de matá-las todos os dias – tornou-se urgente.
Um exemplo é a operação megapolicial realizada pelo governo de São Paulo em pleno Natal. Outra razão é a maior cobertura mediática dos ataques às mulheres, sejam eles tão brutais como o ataque a Souza Santos, que teve de amputar as duas pernas e não conseguiu salvar a vida, ou casos menos extremos. Os viajantes que passarem pelos aeroportos neste período de festas serão recebidos pela campanha do governo federal contra o assédio sexual e o feminicídio. E um dos grafiteiros mais prolíficos de São Paulo acrescentou mensagens aos muros da metrópole: Justiça para eles, Mulheres vivas ou tomar cuidado.
Normas como a Lei Maria da Penha, que leva o nome do sobrevivente, são celebradas em todo o mundo, mas a sua aplicação ainda é incompleta, como a própria Maria da Penha muitas vezes nos lembra. A lei que criminaliza o feminicídio no Brasil acaba de completar 10 anos. Mas as questões que dizem respeito às mulheres são muitas vezes ignoradas na política brasileira, que continua altamente masculinizada anos depois de Dilma Rousseff ter quebrado o teto de vidro para se tornar presidente.
Um fato revelador: o Brasil tem menos mulheres parlamentares do que a Arábia Saudita. Sendo o primeiro país da América Latina a aprovar uma lei sobre quotas de género para partidos em 1997, ficou muito para trás porque não conseguiu traduzir isso em progresso real. A representação das mulheres no Congresso nacional aumentou, mas a um ritmo ridículo em comparação com os países vizinhos ou mesmo com as ditaduras do Médio Oriente.
Diário Folha de São Paulo Recorde-se esta quarta-feira que embora o número de deputadas tenha duplicado em duas décadas, o seu país está atrás da América do Sul. E na parte inferior da tabela em relação ao resto do planeta. O Brasil ocupa a 133ª posição no mundo, com 18% de mulheres deputadas, enquanto a Arábia Saudita ocupa a 125ª posição, com 19,9%. No próximo mês de outubro, o eleitor brasileiro terá a oportunidade de alterar esses números, pois será chamado a votar para renovar a composição das duas câmaras, eleger governadores e o presidente da república.