A nossa época resmunga de admiração porque prefere difamar, às vezes sob o pretexto de humor. É justamente isso que defende o filósofo Robert Redeker, citado por Rafael Atienza em seu livro Herdar Mérito. Acontece que a admiração é de alguma forma o culto à desigualdade, um culto que nos é proibido, uma proibição que inclui também a profanação ou o insulto que implicaria outra desigualdade. Apenas ler atentamente a avalanche de comentários divulgados repentinamente por qualquer coluna postada em mídia digital ou qualquer material que tenha circulado nas redes sociais seria suficiente para fornecer evidências irrefutáveis preferência por insultos e desqualificações em vez do menor reconhecimento ou expressar a menor admiração.
Podem os leitores destas linhas imaginar por um momento que ouviram os balanços do passado 2025 compilados durante os feriados de Natal, Ano Novo e Epifania pelos líderes políticos e regionais, em que medida e sob que sinal um panorama de intensa polarização em que estamos atolados há muitos anos Se em algum momento destes discursos a pessoa que fala aos seus adversários tivesse dado pelo menos algum sinal de atenção e até de honra, sem com isso abandonar a dureza do confronto que os divide? Mas foi apenas a mensagem de Sua Majestade o Rei Filipe VI na véspera de Natal que nos chamou à restauração da harmonia que aqui desejávamos. O resto preferiu medidas extremas. desqualificar um oponente fechando todas as portas, exceto aquela que leva à morte e o torna repreensível, chame-o de Vox com razão pimenta ou EHBildu para Sanchismo.
O filósofo francês, na citação que encabeça esta coluna, generaliza incorretamente ao atribuir aos “nossos tempos” preferência por profanar em vez de admirar, Assim, no “nosso tempo” tanto estas preferências como o oposto podem ser encontradas entre os nossos contemporâneos, e que se a diferença característica do “nosso tempo” fosse estabelecida, consistiria apenas na suposta predominância da contaminação. Porque os meritocratas que hoje dominam o elevador social acreditam que merecem o sucesso que os acompanha neste momento, sem considerar que isso deveria implicar quaisquer obrigações para com a sociedade em que vivem, dado que a meritocracia, ao contrário da nobreza, não obriga.
Os meritocratas acreditam que merecem o sucesso que os acompanha, sem acreditar que isso deva implicar quaisquer obrigações para com a sociedade em que vivem.
José Ortega y Gasset já nos avisou no seu livro “Espanha dos Invertebrados” que está em seleção de elite não resolvida pelos visigodos – que chegou a este extremo da Europa, tropeçando e embriagado pelo catolicismo, – onde vive a razão do nosso declínio assim foi incansavelmente procurado, enquanto foi o sucesso do sistema pelo qual as elites dos francos do outro lado dos Pirenéus foram libertadas que fez deles um povo apto para o progresso. Porque sem elites bem formadas estaremos em Ascensão das massas. É por isso que Ortega conclui que É o ódio ao melhor e a falta dele que é a verdadeira raiz do grande fracasso latino-americano. e que as elites geram uma força de atração psíquica, uma espécie de lei de gravidade espiritual, que leva os obedientes na busca do modelo. Por esta razão, a sociedade é definida como uma unidade espiritual dinâmica formada por um modelo e seus subordinados. Em todo caso, como vemos, aqui e agora, a insegurança gera obediência e submissão. Prestar atenção.