Hoje em dia, quando nossas cidades estão enfeitadas com luzes e nossas casas enfeitadas com guirlandas, vale a pena parar e se perguntar o que realmente estamos comemorando quando dizemos “Natal”. Esta não é apenas uma época emocional, um calendário de reuniões e presentes; é, … Em primeiro lugar, a memória viva de um acontecimento que mudou a história e, com ela, a nossa compreensão do homem, da sociedade e do destino humano. Na manjedoura de Belém, na fragilidade do Menino, o cristianismo proclama que Deus se faz homem para que o homem não seja abandonado à mercê do destino. Esta afirmação – a Encarnação – moldou durante séculos o terreno cultural sobre o qual caminhamos, muitas vezes sem sequer nos apercebermos: o humanismo cristão.
O Natal recorda-nos que a dignidade de cada pessoa não é uma conquista de mercado ou um consenso mutável, mas um dom inscrito no íntimo da nossa natureza porque foi assumido pelo próprio Deus. Se Deus quisesse ter um rosto humano, nenhum rosto poderia ser descartado. Disto deriva a intuição que está na base da nossa civilização: os fracos, os pobres, os doentes, os nascituros, os idosos e os estrangeiros não são fardos, mas vizinhos. Uma grande revolução silenciosa começou em Belém, inspirando hospitais e hospícios, fraternidades e universidades, uma defesa do valor intrínseco da vida e do primado da consciência; uma revolução que ainda nos obriga a reconsiderar as nossas prioridades e a ajustar a nossa pressa.
Não é por acaso que o calendário cristão organizou o ano com uma cadência de expectativa (Advento) e realização de desejos (Natal). A liturgia ensina-nos a viver o tempo não como uma série indiferente de dias a preencher, mas como uma história atravessada pela promessa. É por isso que os relógios atrasam no Natal: somos convidados a contemplar, a abrir espaço, a ouvir. Missa da meia-noite, canções de Natal, presépio – aquela catequese caseira e folclórica que reivindicou o seu lugar nas nossas casas não é o folclore, mas a pedagogia do coração. Com eles aprendemos que o significado não é criado; Bem-vindo.
Vivemos rodeados de ofertas e telas que transformam a escassez em ansiedade e a abundância em tontura. O Natal, porém, vem com uma lógica diferente: a lógica do presente. O menino chega até nós desamparado, e é a sua pobreza que nos enriquece, porque mostra que as coisas mais essenciais não se compram, mas se obtêm. O humanismo cristão sempre defendeu esta economia da dádiva que fecunda a vida familiar e a estrutura social: o perdão gratuito, a paciência sustentadora, a amizade acompanhante, a visita à caridade. Esta não é uma ética de pessoas perfeitas, mas uma escola de reconciliação de homens e mulheres particulares, com luzes e sombras, que revela que o outro é um caminho, não um obstáculo.
Que o Filho de Deus nasça numa família não é um detalhe sentimental; Esta é uma declaração de princípios. O Natal santifica o lar, a mesa comum, o pão partido, a comunhão paciente, o trabalho quotidiano, a educação e o cuidado. Ensina-nos que são as pequenas coisas que fazem a diferença e que a fidelidade ao ordinário produz o extraordinário. É por isso que o Natal foi e continua a ser fonte de arte e beleza: desde os retábulos que contam a história da Natividade, à música que a canta, às tradições folclóricas que a encarnam nas ruas e praças. O cristianismo salvou a beleza, ligou-a à verdade e ao bem, porque viu em Belém que a glória se torna humilde e por isso brilha.
Quando afirmamos que a nossa cultura se baseia no humanismo cristão, não estamos a fazer arqueologia; Vemos as evidências: a estrutura moral das nossas instituições e a linguagem dos direitos, a ideia do indivíduo e do dever de solidariedade, a preferência pelos mais vulneráveis e o valor da liberdade de consciência foram forjados no fervor da mensagem que hoje celebramos. Negar isto é empobrecer a leitura do presente; Reconhecer isto é assumir responsabilidades: cuidar destas raízes para que continuem a dar frutos. A indiferença, a polarização e o utilitarismo os murcham; a fé, a razão e a caridade os alimentam.
Retornar a Belém levará à recuperação. Isto significa que permitimos a ternura de Deus, que, para corrigir o nosso mau tempo, levou o mau tempo na manjedoura. É olhar com novos olhos para o que nos rodeia e reconhecer nele os ecos do humanismo cristão que nos tornou possíveis: uma escola que ensina com autoridade e amor, um hospital que cuida, uma comunidade que acompanha, uma lei que protege sem humilhar, uma empresa que serve o bem comum, uma cultura que eleva. No Natal temos a tarefa de garantir que tudo não seque.
Que estas férias não passem com barulho. Deixe que a luz que acendemos lá fora reflita o que nos é oferecido interiormente. E que na véspera do Ano Novo podemos dizer com segurança que celebramos não só uma tradição, mas também um acontecimento: Deus está connosco. Porque quando nos lembramos disso e vivemos de acordo com isso, tudo fica em ordem e tudo prospera. Aqui está finalmente a grande promessa do Natal.