janeiro 12, 2026
1504715353-U70634427883HKN-1024x512@diario_abc.jpg

Esta manhã o mundo assistiu a um acontecimento que marcará um antes e um depois na história recente da Ibero-América: as forças especiais dos EUA entraram em Caracas, tomaram o palácio de Miraflores e capturaram o ditador Nicolás Maduro e a sua esposa.transportando-os para os Estados Unidos para serem julgados por tráfico de drogas e terrorismo. A imagem dos helicópteros americanos sobre a capital venezuelana lembra outras operações de alta tensão geopolítica, como a invasão russa de Kiev em 2022. Mas as semelhanças terminam no visual: os Estados Unidos intervieram não para derrubar a democracia, mas para acabar com uma ditadura implacável.

A operação viola o direito internacional. Nenhum país pode intervir militarmente nos assuntos de outro país sem provas de legitimidade internacional. Mas esta afirmação, embora verdadeira, requer nuances. Porque embora os EUA tenham violado o princípio da não intervenção, Maduro já tinha violado há muito tempo os direitos humanos do seu povo, levando a eleições fraudulentas no Verão de 2024, o que só foi possível graças à inacção de grande parte da comunidade internacional.

A lista de abusos do chavismo é extensa. Em 2024, Maduro impediu que Edmundo González, um presidente eleito com amplo apoio popular, ganhasse o poder. As instituições democráticas foram desmanteladas, os opositores foram presos, torturados ou mortos; os exilados foram perseguidos e o tráfico de drogas foi promovido como forma de financiar o regime. Mais de sete milhões de venezuelanos fugiram do país, muitos deles para Espanha. Infelizmente chegou o momento em que o chavismo só poderia ser derrotado pela força, pois a sua essência, como foi demonstrado, baseava-se precisamente na força e na repressão.

O paralelo com a captura do ditador panamenho Manuel Antonio Noriega em 1989 é inevitável. Como então, o ditador imortalizou-se depois de roubar os resultados eleitorais. Tal como então, os EUA intervieram para restaurar o Estado de direito, mesmo que se mantivessem fiéis à sua própria interpretação da lei. Noriega foi extraditado, julgado com garantias e condenado. Resta esperar que Maduro e a sua esposa sejam tratados da mesma forma e que os tribunais norte-americanos garantam não só a justiça, mas também a verdade.

O colapso institucional da Venezuela foi alimentado pela capacidade de Maduro de manipular o sistema jurídico. Conquistou o poder judicial, domou o órgão eleitoral, enganou o parlamento democrático, criou uma Assembleia Constituinte paralela e sobreviveu à proclamação de Juan Guaidó como presidente interino. E tudo isso com o silêncio silencioso de muitos governos.

Nesta fase, a Espanha deve examinar a sua consciência. A nossa diplomacia, que outrora perseguia objectivos estatais, foi sequestrada pelo Sanchismo, cuja atitude em relação à Venezuela tem sido ambígua e oportunista. Figuras como José Luis Rodríguez Zapatero serviram de ponte para legitimar o chavismo nos fóruns internacionais, colocando os interesses partidários acima dos direitos humanos. Esta negligência enfraqueceu a União Europeia e manchou a autoridade da nossa região.

A divisão ibero-americana também foi lamentada. O Grupo Puebla e outros aliados ideológicos defenderam Maduro, enquanto as democracias mais poderosas escolheram a passividade. O resultado: um regime encorajado que levou o país à beira do colapso humanitário.

Com a queda de Maduro surge uma oportunidade. O presidente Donald Trump disse que não permitiria que ninguém do regime chavista ocupasse o lugar de Maduro e reafirmou o seu compromisso com uma transição plena para a democracia. Esta posição endurece o tom internacional e estabelece limites claros para o país. Mas o futuro próximo não é seguro. O processo de transição deve ser liderado pelos próprios venezuelanos, com apoio internacional, mas sem imposições. A comunidade internacional deve evitar o erro cometido pela Líbia: derrubar um ditador sem construir uma ordem política viável. A OEA, a ONU e a União Europeia têm um papel a desempenhar, embora até agora tenham arrastado os pés.

As imagens desta manhã devem ser compreendidas em toda a sua complexidade. Não são a prova de um imperialismo desenfreado, mas sim um último recurso face a uma ditadura fechada a qualquer transição pacífica. E embora o direito internacional tenha sido forçado, também é verdade que não pode servir de escudo à impunidade de um ditador.

A captura de Maduro poderá ser o primeiro passo para uma nova fase na Venezuela: Edmundo Gonzalez assumirá o cargo que lhe foi roubado, os presos políticos serão libertados, os exilados regressarão, as instituições recuperarão a sua autonomia e, finalmente, a justiça prevalecerá sobre a barbárie.

Referência