O Papa Leão XIV recebeu esta segunda-feira no Vaticano a líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado, conforme anunciou a Santa Sé no comunicado do meio-dia que detalha a audiência privada do pontífice esta manhã. A visita não estava incluída na agenda do Papa, que será anunciada pela manhã, por isso foi uma surpresa. Machado disse mais tarde nas redes sociais que pediu ao pontífice que intercedesse “pela libertação de mais de mil presos políticos e pelo avanço urgente da transição para a democracia na Venezuela”.
“Hoje fui abençoado e honrado por ter a oportunidade de compartilhar com Sua Santidade e expressar nossa gratidão por suas ações contínuas em relação ao que está acontecendo em nosso país. “Também transmiti a ele a força do povo venezuelano que permanece forte e reza pela liberdade da Venezuela, e pedi-lhe que intercedesse por todos os venezuelanos que continuam sequestrados e desaparecidos”, disse Machado.
A reunião confirma mais uma vez o importante papel mediador que o Vaticano desempenhou nos últimos anos e continua a desempenhar na Venezuela no seu trabalho diplomático paralelo. Na verdade, é o primeiro ato público de Machado desde que as tropas norte-americanas capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em 4 de janeiro, e antecede a viagem do líder da oposição venezuelana aos Estados Unidos para se encontrar esta quarta-feira com Donald Trump. A nomeação para a Casa Branca é crucial para Machado depois de ter ficado irrelevante na crise no mesmo dia da intervenção militar, quando o presidente dos EUA disse que não contava com isso nos seus planos para a Venezuela.
O Vaticano sempre desempenhou um papel importante no país caribenho, especialmente sob Francisco, que foi eleito pontífice dias após a morte de Hugo Chávez em março de 2013, e coexistiu com o mandato do seu sucessor Nicolás Maduro desde o início. Este ano também coincidiu com a eleição do venezuelano Arturo Sosa como Geral da Ordem dos Jesuítas do Papa argentino.
Além disso, o atual número dois da Santa Sé, o secretário de Estado Pietro Parolin, nomeado apenas este ano, foi núncio do país de 2009 a 2013, durante os últimos anos do governo de Chávez, e isso não foi fácil, pois teve duros confrontos com o governo. Apesar disso, o Vaticano ganhava peso como mediador no diálogo com a oposição venezuelana (Maduro foi a Roma em 2016, no auge da crise política). Não foi um papel fácil e houve constantes tensões com o regime chavista, bem como críticas ao Papa por parte dos seus dissidentes.
O exemplo mais recente: em 10 de dezembro, as autoridades confiscaram o passaporte do cardeal Balthazar Enrique Porras Cardozo, de Caracas, de 81 anos, quando ele se preparava para voar para Madrid. Na verdade, na semana passada não pôde participar no consistório de todos os cardeais do mundo, realizado no Vaticano.
Mas o canal sempre permaneceu aberto. Prova disso é a intensa atividade diplomática que a Santa Sé lançou com a Casa Branca nos mesmos dias, em dezembro passado, para dar uma saída a Nicolás Maduro, exilado na Rússia, noticiou o jornal. Washington Poste o Vaticano não nega isso. Além disso, o breve comentário divulgado pela Santa Sé sobre o assunto foi uma forma estranha de confirmar isto: “É decepcionante que tenham sido reveladas partes da conversa discreta que não refletem com precisão o seu conteúdo, que ocorreu durante o período do Natal”.
Um jornal americano noticiou na sexta-feira passada que o cardeal Parolin convocou com urgência o embaixador dos EUA junto à Santa Sé, Brian Birch, na véspera de Natal para se informar sobre os planos de Washington na Venezuela. Em documentos oficiais secretos citados pelo jornal, lemos que o cardeal reconheceu a necessidade de Nicolás Maduro partir, mas implorou à Casa Branca que lhe oferecesse uma saída, disse que a Rússia estava pronta para lhe conceder asilo político e “implorou aos americanos que fossem pacientes”. Além disso, isso continuará nos próximos dias. Washington PostParolin tentou falar com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, “numa tentativa desesperada de evitar o derramamento de sangue e a desestabilização da Venezuela”.
Dois dias após o sequestro de Maduro, em 6 de janeiro, o Departamento de Estado da Casa Branca informou que Rubio e Parolin tiveram uma conversa telefônica. Na nota, falaram de “questões urgentes, incluindo iniciativas destinadas a melhorar a situação humanitária, especialmente na Venezuela”. Reafirmaram também “o seu compromisso de reforçar a cooperação entre os Estados Unidos e a Santa Sé para abordar as prioridades partilhadas a nível mundial”.

A posição de Leo Trump já tinha ameaçado invadir a Venezuela se Maduro não saísse do país, o que o Papa não aprovou: “É melhor procurar formas de diálogo, talvez de pressão, até de pressão económica, mas procurar outra forma de mudar se é isso que os Estados Unidos decidem fazer”. Explicou que “a nível da Conferência Episcopal, juntamente com o núncio, procuramos formas de acalmar a situação, lutando antes de tudo pelo bem do povo, porque nestas situações é o povo que sofre, não as autoridades”.
Esta é a mesma mensagem que Robert Prevost repetiu na sexta-feira passada no seu discurso ao corpo diplomático quando pediu “respeitar a vontade do povo venezuelano e trabalhar para proteger os direitos humanos e civis de todos e construir um futuro de estabilidade e harmonia”. No seu discurso, o pontífice lamentou a “fraqueza do multilateralismo” e que tenha sido violado o princípio estabelecido após a Segunda Guerra Mundial “que proibia os países de usar a força para violar as fronteiras de outros povos”.