janeiro 14, 2026
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Um século na tela: do teatro ao cinema de autor

O Cinemas Verdi abriu suas portas como cinema em fevereiro de 1926, quando foi exibido um filme francês. Destinos abandonados Isto marcou o início de uma nova fase cultural na região de Gràcia. O espaço funcionou inicialmente como teatro na segunda metade do século XIX, até que o advento do cinema mudou o seu rumo final.

Ao longo das décadas, Verdi estabeleceu-se como um espaço de referência para filmes de arte e ofertas cinematográficas que muitas vezes não cabem na maioria das ofertas comerciais. Essa trajetória contrasta com a tendência global de concentração de grandes redes e modelos dominados por franquias e gêneros massificados.

Estratégia de programação e expansão física

Desde 2015, a gestão de Verdi é chefiada por Contracorrente Filmesempresa que atua na distribuição e exibição de filmes independentes. Sob a liderança de Adolfo Blanco, a programação aumentou seu foco em filmes de autor, muitos dos quais têm dificuldade em encontrar lugar na programação tradicional.

A sala original, localizada na Calle Verdi em Barcelona, ​​contava com cinco espaços de projeção. Em 2025, a assistência do público ultrapassou os 500.000 espectadores, um número que continua a aumentar apesar de um declínio geral na assistência aos teatros comerciais em Espanha.

Para responder a esta procura crescente, o Verdi iniciou uma expansão física, ocupando o espaço de um antigo supermercado próximo, que irá acrescentar dois novos espaços e cerca de mais 180 lugares à oferta existente, reforçando assim o seu papel como ponto de encontro cultural na zona.

Público fiel e diversificado

A diversidade e a lealdade do público são uma das chaves do sucesso de Verdi. Segundo Blanco, o perfil do público em Barcelona é mais diversificado e jovem, refletindo o ecossistema cultural de Gràcia, com maior abertura a propostas arriscadas fora da esfera comercial.

O Parque Los Verdi, uma expansão recente com quatro salas na rua paralela Torrijos, também reforçou a aposta na manutenção de uma programação que não abandona a qualidade nem o discurso artístico.

Comparação com Madrid: duas identidades, dois públicos

Blanco faz uma distinção clara entre o público que visita Verdi em Barcelona e aquele que visita o salão localizado em Chambéry, Madri. Enquanto em Barcelona o público é mais jovem e aberto ao cinema alternativo, em Madrid o público é descrito como mais académico e conservador nos seus gostos, com menor aceitação de propostas radicais.

Essa diferença, segundo Blanco, corresponde tanto ao contexto urbano quanto à estrutura social de cada área e se reflete diretamente nos filmes mais exibidos nos cinemas de cada cidade.

Verdi e os debates da plataforma

Uma das preocupações mais comuns entre os gestores de teatro hoje é o impacto das plataformas de streaming nas exibições tradicionais. Caso de projeção Roma Alfonso Cuarón ilustra uma dinâmica interessante: o filme foi exibido em Verdi algumas semanas antes de sua chegada a Netflixe continuou funcionando mesmo depois de disponibilizado na plataforma.

Para Blanco, a experiência destaca a demanda existente por um trabalho cinematográfico que vai além do simples consumo digital, mas também coloca o desafio de como conviver com um público que acessa conteúdos de forma diferenciada.

Possível compra da Warner pela Netflix?

Em relação aos rumores da indústria sobre a aquisição de grandes estúdios por plataformas de tecnologia, Blanco foi inflexível ao dizer que não vê sentido na Netflix adquirir a Warner para criar o “Netflix 2”. O seu argumento é que tal movimento, além de não proporcionar benefícios claros para a diversificação dos mercados, poderia minar ainda mais as oportunidades para exposições independentes se os modelos dominantes se consolidassem sem equilíbrio.

Segundo o gestor, a indústria deveria concentrar-se em melhorar a identidade das editoras cinematográficas existentes, em vez de promover uma integração que reduza a concorrência e o pluralismo de opinião.

Comemoração do Centenário: Livro e Documentário

Para assinalar o seu centenário, Verdi apresentou dois ambiciosos projetos culturais: um livro e um documentário, refletindo a influência do salão na cidade e a história do cinema em Espanha. O livro, publicado pela Plataforma Editorial, reúne textos de pensadores e críticos como Josep Maria Contel e Enrique Pérez, com epílogo de Albert Serra.

O documentário, dirigido por Berta García-Lacht e coproduzido por Isabelle Coixe, utiliza uma abordagem criativa para traçar a história do cinema em Barcelona através dos olhos de Verdi, incluindo o trabalho de diretores como J. A. Bayona, intimamente associados ao cinema e à cultura de Gràcia.

Estas iniciativas não só celebram o legado de Verdi, mas também fortalecem o seu papel como ponto de referência para cineastas, críticos e fãs, reforçando o debate sobre o valor cultural dos teatros independentes num mundo audiovisual cada vez mais fragmentado.

Referência