janeiro 14, 2026
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Em Santiago, Chile, em agosto de 2024, qualquer mexicano não teria notado o barulho da dura política do seu país. Na terra natal de Neruda, a disputa pelo poder e seu uso parece calma, tendendo mais à ordem do que à ruptura.

Gabriel Borich estava paralisado naquela época, um ano antes das eleições. O jovem presidente tentou reformar o sistema de pensões que, devido a dúvidas generalizadas, se tornou um exemplo internacional de privatização. Muitas negociações e progressos modestos.

A direita, como explicou em privado um observador chileno, é mais eficaz no combate quando aqueles de nós da esquerda chegam ao poder. Era como se de alguma forma os medos semeados pela ditadura de Pinochet (1973-1990) continuassem a operar.

Mas outras leituras também são possíveis. Boric e seus aliados são diferentes dos seus homólogos latino-americanos habituais. Não são duros e muito menos apoiam cegamente declarações de apoio a Cuba, à Nicarágua ou à Venezuela. Progressistas bem-humorados, teriam ouvido no México.

O resultado do período Borich já foi descontado há um ano e meio. A sua coligação perderá para a extrema direita da democracia desde Allende. Só um milagre poderia ter evitado o triunfo do candidato que absolveu Pinochet, e esse milagre nunca aconteceu.

Mas o jovem presidente, segundo uma reportagem do El País Semanal publicada no domingo, deixará o poder em março com uma mochila cheia de experiência e a capacidade de reconhecer o que a direita fez de bom para entrar no La Moneda e os problemas que levaram à derrota da esquerda.

Numa entrevista em três partes concedida a Javier Lafuente e Rocío Montes, Boric justifica a maturidade do povo chileno ao dizer “não” a dois plebiscitos: o primeiro (2022), realizado pelo governo, e o segundo (2023), realizado pela oposição, para mudar a Constituição.

A conclusão do presidente andino é que o Chile “foi muito sensato ao rejeitar ambos os textos porque em ambos os processos quem tinha a maioria tentou negar quem era a minoria. Não é assim que o país funciona”.

O resumo de Borich merece discussão fora do contexto chileno.

É importante que o presidente compreenda que “os eleitores do seu país têm uma exigência de ordem relacionada com acontecimentos reais. A criminalidade e o fenómeno migratório no Chile são muito reais”.

E face a isto, “a esquerda ainda não encarna o desejo de ordem. A ordem não tem de vir da direita. Ordem é certeza, é estabilidade. A ordem é certeza, é estabilidade”.

Para o presidente, que não revelou se voltará à competição dentro de quatro anos, mas espera que regresse às obras públicas, “as esperanças foram frustradas pelos processos constitucionais e o nosso governo, enquanto minoria parlamentar, realizou mudanças, mas menos heróicas do que aquelas que causaram pânico num determinado sector da população”.

A percepção de insegurança, um problema que o Chile teve de manter sob controlo durante décadas, intensificou-se, e a imigração visível nas principais ruas da capital alimentou o medo entre a população. A direita aproveitou-se disso nas eleições.

Segundo Borich, a esquerda deve dar mais resultados e esquecer as proclamações. “Não basta pensar apenas no café. Uma esquerda que só culpa o inimigo está fadada à diluição”, diz em determinado momento da entrevista, na qual já alertou: “Posso fazer discursos inflamados, encontrar antagonistas, prometer qualquer coisa, mas se a qualidade de vida não melhorar, não importa”.

O presidente também está ciente de que as suas posições críticas em relação à Nicarágua e à Venezuela não são bem recebidas por outros países cujos governos se autodenominam de esquerda. “Isso prejudica as forças progressistas, prejudica”, admite na conversa.

Mas diz que é possível ser fiel aos princípios e criticar, por exemplo, o chavismo, que outrora o inspirou e cujo modelo, já no governo, lamenta, se tornou um regime que viola as liberdades e gera pobreza e corrupção.

“O que o fez mudar sua posição em relação à Venezuela?” – perguntam-lhe Lafuente e Montes, procurando uma resposta específica.

“Há muitas razões, teóricas e ideológicas, mas para mim a mais significativa é o resultado. Um país do qual fogem mais de sete milhões de pessoas… Não pode ser defendido assim. E vendo agora, no ano passado, como se agarraram ao poder da forma mais ilegítima e sem qualquer modéstia, entendo que isto é uma ditadura.”

Quando a derrota da esquerda chilena foi confirmada em 14 de dezembro, após o segundo turno das eleições presidenciais, surgiram rumores sobre a infalibilidade do suposto pêndulo, marcando a inércia dos triunfos da direita na América Latina.

Do que disse Borich, importa sublinhar que, no exercício da governação, a responsabilidade deve ter prioridade sobre o exibicionismo, as negociações à margem em vez de quebrar as regras, encarando a derrota como normalidade e não como desastre, mesmo que quem vier seja de extrema-direita.

Borich observa que o próximo presidente não venceu apenas graças à moda antiprogressista: “Não é só que há uma onda de direita no mundo, e não o que o governo fez ou deixou de fazer. Há também um trabalho persistente”, diz Borich, apontando que no caminho para a sua terceira candidatura presidencial, José Antonio Cast visitou todas as comunas.

O direito, que percorre o território, e o esquerdo, que dele se afasta. A direita, que aproveitou o medo da insegurança, a esquerda, que não soube apresentar-se como garantidora da ordem. E tudo isso é normal quando na noite da eleição o presidente transmite ao vivo seu apelo ao vencedor e ele reconhece seu adversário. O Chile é uma exceção silenciosa.

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