Ismael Rodriguez, um menino de 11 anos, tornou-se a última vítima da violência contra guardas prisionais na Colômbia. Ele foi morto na quarta-feira na rodovia Neiva Rivera, no sudoeste do país. Alguns homens atiraram de uma motocicleta contra o carro em que viajava com o pai, o recém-nomeado diretor do presídio de Neiva, e dois colegas. Os adultos iam para o centro de detenção, mas primeiro levariam Rodriguez para a escola: era o primeiro dia de aula depois das férias de Natal. O menino recebeu um tiro na cabeça. A sua morte chocou o departamento de Huila e desencadeou uma onda de exigências às autoridades para que tomassem medidas contra a violência sofrida pelos funcionários penitenciários.
O Instituto Penitenciário Nacional (INPEC) relatou o ataque na manhã desta quarta-feira. No seu depoimento, disse que foram disparados cerca de seis tiros e que, além da criança de 11 anos, um dos adultos ficou ferido. “O vice-diretor da colônia recebeu dois (2) ferimentos de bala: um no abdômen, outro no peito. O menor e o filho do diretor foram baleados na cabeça”, diz o texto. As vítimas foram levadas ao Hospital Universitário Hernando Moncaleano Perdomo, em Neiva. Lá a criança morreu e o agente penitenciário foi colocado na terapia intensiva. Dois outros adultos, o diretor e o bebê dragão que dirigia o veículo, não ficaram feridos.
O Ministro da Justiça responsável, Andrés Idarraga, expressou sua perplexidade poucos minutos após tomar conhecimento da notícia. “O diretor penitenciário está no cargo há 10 dias… estamos surpresos com esta situação”, afirmou em declarações à imprensa. Explicou que a única bandeira vermelha foi uma denúncia do vice-diretor Renato Solano, que estava preso há vários anos e era o responsável temporário da prisão até a chegada de Rodriguez. “Há uma ameaça, por assim dizer, muito gasosa ou muito abstrata em 2023, sobre a qual não foi gerado nenhum alerta. Não temos mais nada”, sublinhou.
O prefeito de Neiva, Germán Casagua, também mencionou esta denúncia de 2023 após uma reunião do conselho de segurança com autoridades judiciais e policiais. “Essa é a única coisa que sabemos”, comentou em entrevista à Blu Radio, antes de esclarecer que isso não significa que a ameaça esteja ligada a um ataque. Disse ainda que os funcionários não tinham medidas de proteção: não viajavam em carro oficial, mas sim no carro pessoal do dragão, que os recolheu para os levar juntos ao centro penitenciário. “A UNP (organização responsável pela segurança das pessoas ameaçadas) informa-nos que a investigação sobre a ameaça de 2023 foi encerrada”, disse ele.
A falta de medidas preventivas chamou a atenção no contexto do elevado nível de violência contra os funcionários penitenciários na Colômbia: no ano passado, o INPEC registou que 347 pessoas foram ameaçadas, 14 ficaram feridas em ataques e mais 8 pessoas foram mortas. A Ouvidoria disse em comunicado que o ataque “não pode ser visto como um incidente isolado” e lembrou outros casos, como o assassinato do diretor da Prisão Modelo de Bogotá em maio de 2024. “A persistência desses eventos demonstra graves deficiências nas estratégias de prevenção e proteção. Confirmamos a necessidade urgente de fortalecer as condições de segurança e proteção das autoridades de detenção e de supervisão do pessoal das instituições penitenciárias”, enfatizou a Ouvidoria. A Procuradoria-Geral da República, por seu lado, disse que iria verificar se foram tomadas medidas de proteção adequadas e como foram avaliados os níveis de risco.
As autoridades ignoraram a responsabilidade. “O novo diretor e o vice-diretor na época não tinham medidas de proteção, o ideal seria perguntar ao INPEC sobre isso. Ambos pertencem ao pessoal do INPEC”, disse o UNP em comunicado à imprensa. O Instituto Penitenciário, por sua vez, afirmou o contrário. “Não temos capacidade legal para criar esquemas de proteção. Nossos agentes de vigilância estão dedicados ao cuidado e à proteção das pessoas privadas de liberdade”, comentou o vice-diretor Rolando Ramirez no Noticias Caracol. “Para que alguém seja elegível para um esquema de proteção, o DE deve ter um processo de reclamação e um processo de avaliação (…). O simples facto de ser diretor de uma instalação de alta ou média segurança não significa que estejam a ser tomadas medidas”, acrescentou, antes de pedir para considerar uma reforma que lhes desse proteção mínima.
Fernando Tamayo, professor da Universidade dos Andes, apresenta uma perspectiva sombria para resolver este problema. “Fortalecer a segurança não é uma solução aceitável. Com tantas pessoas em risco, o custo seria impossível: o governo não tem dinheiro para garantir um esquema a cada funcionário, promotor ou juiz do INPEC que dele necessite. As soluções devem ser estruturais para o problema, e não de curto prazo para cada caso”, avalia em conversa telefônica. Por outro lado, ele observa que é difícil compreender por que a violência contra os guardas aumentou nos últimos dois anos. “A disputa pelo controlo das extorsões é mencionada, mas a informação é muito limitada. Não tenho conhecimento de nenhum relatório que nos permita saber quais as organizações que estão em cada prisão e quais os interesses que estão em disputa”, aponta.
O especialista questiona as medidas que o INPEC tomou nos últimos anos para enfrentar a crise: limitar as visitas de pessoas de fora e, em geral, os contactos com o mundo exterior. “Em algum nível, pode ter um efeito, mas é mínimo”, diz ele. Enfatiza que as prisões refletem as condições do mundo exterior e termina com uma conclusão pessimista: “É difícil encontrar uma solução a curto prazo quando se liga o problema às operações fronteiriças, aos negócios transnacionais, ao tráfico de seres humanos, à mineração ilegal. As soluções incluem processos a longo prazo, como a prestação de garantias de educação, empregos e cuidados de saúde nas áreas mais afetadas pela violência”.
Ismael Rodriguez permaneceu no centro. Sua professora de natação lamentou não vê-lo mais em suas aulas, um amigo da família lembrou que adorava “as festas de San Juan e San Pedro”, um jornalista esportivo descreveu as emoções que o jovem sentiu ao conhecer os jogadores da seleção colombiana de futebol no Estádio Metropolitano de Barranquilla. O prefeito de Neiva, por sua vez, resumiu o estupor social: “Ninguém entende essas circunstâncias. Como isso pode acontecer com uma criança dessa idade que não tem absolutamente nada a ver com nenhum assunto? Como é que esses criminosos não cumprem a medida nessas circunstâncias? Isso causa uma indignação muito grande”.