janeiro 16, 2026
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O processo de tropicalização do Mar Mediterrâneo atingiu um novo marco científico, com consequências diretas para a segurança alimentar na Península Ibérica. Uma equipa de investigação do Instituto Multidisciplinar de Estudos Ambientais Ramon Margalef (IMEM) da Universidade de Alicante, em colaboração com a Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, confirmou pela primeira vez a presença do género de microalgas Gambierdiscus na costa de Denia e Javea. A descoberta representa a propagação para norte de um organismo de origem tropical, que até à data em Espanha foi encontrado principalmente nas Ilhas Canárias.

As espécies identificadas, denominadas Gambierdiscus do Sulé uma microalga do grupo dos dinoflagelados que produz ciguatoxinas. Estas substâncias têm a capacidade de se integrarem na cadeia alimentar, acumulando-se nos tecidos dos grandes peixes que vivem nos criadouros destas algas. O consumo humano de peças contaminadas com excesso destas toxinas pode desencadear a ciguatera, uma intoxicação alimentar até agora estranha às costas da península mediterrânica. Segundo estudo publicado pela revista Harmful Algae News da UNESCO, amostras colhidas em setembro de 2023 revelaram a presença de microalgas em 100% dos pontos analisados.

Apesar da urgência da descoberta, o investigador principal César Bordejor enviou uma mensagem de calma tanto aos consumidores como ao sector pesqueiro. O especialista sublinha que as concentrações detectadas até agora não são alarmantes e que a variante do Sul não está entre as mais tóxicas do género. Além disso, insiste que o pescado que chega ao ponto de venda é totalmente seguro, pois existem protocolos preventivos e pré-análises que evitam que amostras com elevados níveis de toxinas cheguem ao mercado. Neste sentido, o trabalho científico serve para alertar as administrações e reforçar os controlos de segurança alimentar.

A chegada desta microalga das Ilhas Canárias a Alicante explica-se pelo aumento progressivo da temperatura do mar. Para estas espécies tropicais, apenas um aumento de um grau nas temperaturas médias do Mediterrâneo representa uma barreira que lhes permite colonizar áreas que antes eram demasiado frias para a sua sobrevivência. Através da comparação com amostras biológicas preservadas há quinze anos, os pesquisadores conseguiram confirmar que o gênero não estava presente na área há dez anos. Este trabalho, financiado pelo programa Thinkinazul, destaca a importância da monitorização contínua para prever os riscos ambientais associados às alterações climáticas nas nossas costas.

Referência