A Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP), organização sem fins lucrativos que defende o jornalismo na Colômbia, rejeitou esta sexta-feira as ações judiciais movidas pelo candidato presidencial Abelardo de la Espriella contra a colunista Ana Bejarano. Na sua declaração, apoiou o réu, que no fim de semana passado publicou um artigo de opinião sobre os laços entre o candidato de extrema direita e Alex Saab, atual ministro da Indústria da Venezuela e alegada figura de proa de Nicolás Maduro. “O uso repetido e generalizado de medidas legais contra jornalistas e colunistas pode constituir prática de acusação”, enfatizou a organização. “O Judiciário não pode ser usado como instrumento para pressionar, punir ou intimidar a imprensa.”
O motivo do assédio foi um artigo intitulado Alex e Abelardopublicado domingo na seção de opinião da revista Mudar. O colunista, advogado e membro do conselho da FLIP lembra que o candidato de extrema direita e seu escritório de advocacia passaram anos defendendo a suposta figura de proa Maduro. “Ele está ansioso por se declarar um oponente do regime (venezuelano). E a sua preocupação é compreensível, uma vez que existem muitos fios que o ligam a Alex Saab (…)”, diz Bejarano. “A estratégia mediática de Papucho visa silenciar as falhas da sua vida pública através de gritos e comportamento inautêntico online, mas não importa quantos bots promovam a sua campanha, ele não será capaz de negar ou esconder a sua proximidade com Alex Saab”, acrescenta.
A advogada refuta os argumentos de De la Espriella de que ela rompeu o vínculo com seu cliente assim que percebeu a corrupção em que estava envolvida e que se tratava apenas de uma relação profissional. A coluna afirma que o candidato de extrema direita assumiu a representação de Saab quando “já estava claro que ele estava colaborando com Maduro para saquear os venezuelanos”: já noticiado sobre o caso dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), uma rede de corrupção que levou o regime a distribuir leite e produtos alimentícios contaminados adquiridos por Saab no México. Ele também observa que De la Espriella convidou seu cliente para uma festa de aniversário em Cartagena, o que demonstrou o vínculo de amizade. Ele acusa o escritório de advocacia de alertar Saab sobre um mandado de prisão em 2018 e ajudá-lo a escapar da Colômbia antes de finalmente ser detido em Cabo Verde em 2020 e extraditado para os Estados Unidos – foi perdoado em 2023 numa troca de prisioneiros com a Venezuela.
A campanha de De la Espriella divulgou um comunicado na segunda-feira anunciando que buscaria a correção das “declarações falsas” da coluna e abriria um processo contra Bejarano. Ele afirma que Saab esteve ausente da Colômbia durante dois anos quando o mandado de prisão foi emitido em 2018, e que nunca foi convidado para a festa de aniversário, que a campanha afirma ter ocorrido na Itália. “Alguns setores decidiram disfarçar de jornalismo o que na verdade é militância política, recorrendo à mentira e à desinformação”, acusa. “O jornalismo não pode tornar-se uma arma de perseguição ou uma ferramenta de propaganda, porque quando a mentira se torna a norma, a democracia fica enfraquecida”, conclui.
No seu comunicado de sexta-feira, a FLIP sublinhou que este tipo de ações visa exercer pressão económica e emocional sobre a vítima, a fim de induzi-la à autocensura. “Ações judiciais frívolas ou sanções desproporcionais criam um efeito de silenciamento que viola não apenas os direitos dos processados, mas também o direito coletivo do público de saber”, diz ele. Além disso, ressalta que os artigos originais gozam de proteção especial. Também críticas aos candidatos a cargos eletivos: “Tanto o Sistema Interamericano de Direitos Humanos como o Tribunal Constitucional da Colômbia têm defendido consistentemente que aqueles que participam ativamente na vida pública devem ter um limiar mais elevado de tolerância face ao escrutínio, às críticas e às opiniões, mesmo quando são inconvenientes, duros ou irritantes; especialmente no âmbito do processo eleitoral”.
A organização recorda várias situações anteriores em que De la Espriella denunciou os jornalistas que o interrogaram: a intimação do Ministério Público contra Jorge Gómez Pinilla em 2018, a divulgação dos dados pessoais de Camilo Poveda em 2019, o processo contra Cecilia Orozco em 2021 e as ações contra cinco funcionários do Canal Tercer em 2024. “A acumulação destes acontecimentos permite-nos identificar um padrão de comportamento que afeta o livre exercício do jornalismo e do debate público”, sublinha, citando 109 denúncias de difamação e calúnia que os procuradores registaram entre 2008 e 2019. Segundo a FLIP, o demandante posteriormente retirou as denúncias, indicando que as denúncias “não tinham base jurídica”. O comunicado lembra que Bejarano, como advogado, defendeu os jornalistas que se opuseram a De la Espriella.