Marisol Argueta (San Salvador, 57) reconhece que a configuração económica e política da América Latina mudou nos últimos meses. O diretor do Fórum Econômico Mundial (WEF) para a América Latina participará das negociações que a organização realiza esta semana em Davos, na Suíça. Argueta se concentrará nas questões relacionadas aos países latino-americanos participantes da plataforma, para destacar a dinâmica comercial e econômica de uma região que busca revitalizar seu crescimento após condições de lentidão.
Para a edição de 2026, a organização está focada no uso de inteligência artificial (IA) em todos os setores. “A inteligência artificial é sem dúvida o maior disruptor do nosso tempo. Entendemos que esta é uma oportunidade única para aumentarmos a produtividade, mas por enquanto nos preocupamos com o aspecto humano e com a criatividade humana, que é insubstituível”, explica o diretor por telefone de Genebra. O WEF estima que a IA na América Latina tem um potencial de mil milhões de dólares se puder ser incorporada na dinâmica da produção. Argueta reconhece que a região está atrasada em questões tecnológicas, mas está otimista quanto à sua adoção na América Latina. “Isso também pode ser visto como uma vantagem porque a América Latina consegue entender o que funcionou e o que não funcionou em outras regiões, para poder adotar e adaptar esse conhecimento aos cenários específicos da nossa região”, acrescenta.
O Fórum de Davos é conhecido mundialmente por reunir chefes de estado, além de empresários, analistas e pensadores que pensam o futuro global. Em muitos casos, é inevitável que o pulso da política internacional influencie as questões aí discutidas. Em 2026, todos os olhos estão voltados para a Venezuela e o seu futuro após a intervenção dos EUA há apenas algumas semanas. Argueta explica que a organização criou um grupo de especialistas para analisar a situação geopolítica e possíveis soluções econômicas de longo prazo para o país sul-americano. “Será importante primeiro alcançar a estabilidade e depois garantir a democracia para criar a confiança que é importante para o investimento, e então a prosperidade poderá ser alcançada”, afirma.
Os Estados Unidos há muito que olham para a América Latina, enquanto países asiáticos como a China aprofundam o seu interesse em manter relações comerciais na região. Argueta observa que o papel da América Latina como fornecedor bens para o gigante asiático e que através desta relação a China exportou os seus produtos industriais para o outro lado do Oceano Pacífico. Também examina o recente encerramento do acordo comercial entre o MERCOSUL e a União Europeia, bem como a expansão das maiores economias da região, México e Brasil, na região do Golfo Pérsico. “As relações económicas e comerciais com diversas regiões estão em destaque e procuram-se novas fontes de investimento”, explica.
Em outubro de 2025, 60 CEOs registrados no WEF viajaram para o México com o presidente da organização, Børge Brende. Eles se reuniram com a presidente mexicana Claudia Sheinbaum, que falou detalhadamente sobre os benefícios de investir no México. O país norte-americano está a lutar para aumentar o fluxo de novo capital para um país que sofre de uma economia estagnada. Argueta participou do evento e percebeu o interesse empresarial no México, o que complementou as estratégias que o governo mexicano está promovendo no âmbito do chamado Plano México. “O México tem características únicas. É uma economia muito diversificada, próxima dos Estados Unidos, que é um grande mercado consumidor, e uma economia que se tornou muito sofisticada e com uma força de trabalho altamente técnica. São elementos importantes que indicam a competitividade que o país tem”, observa. Além disso, observou que uma parcela significativa das empresas interessadas está acompanhando o resultado da renegociação do Acordo de Livre Comércio (TMEC) para determinar os seus planos de investimento.
As sessões do Fórum de Davos sobre a América Latina serão complementadas pela publicação de um relatório sobre a adoção da IA na região. Argueta observa que inúmeras mudanças no contexto global e a desaceleração da economia global levaram vários sectores, incluindo o sector privado, ao diálogo para encontrar soluções. “É importante que as políticas públicas e a definição das estratégias das empresas possam responder aos desafios inevitáveis. Mas também importante, e não pode ser ignorada, é a necessidade de determinar quais os factores que podem impulsionar o crescimento e a produtividade, mas acima de tudo, garantir que esse crescimento e produtividade beneficiam as pessoas no longo prazo”, afirma.