janeiro 18, 2026
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A economia global está num ponto de viragem e esta não é uma turbulência temporária. Essa ideia foi central para uma mesa redonda sobre comércio internacional no Fórum RIDGE 2025, realizada em dezembro na sede do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), em Montevidéu. Lá, académicos e decisores políticos económicos discutem os desafios e oportunidades que a América Latina enfrenta num contexto global cada vez mais fragmentado e marcado pela geopolítica.

O ministro da Economia uruguaio, Gabriel Oddone, abriu o debate enfatizando que o novo ambiente internacional exige a diversificação de alianças externas e a priorização de parceiros confiáveis ​​e comprometidos com o multilateralismo. Num cenário em que a possibilidade de conflito global já não é meramente teórica, a estratégia de intervenção internacional torna-se uma questão crítica, especialmente para economias pequenas e abertas. A ordem internacional está a evoluir para uma estrutura cada vez mais bipolar, com os Estados Unidos e a China como os principais pólos e a Rússia como um ator desestabilizador, especialmente nas suas relações com a Europa. Neste contexto, promover um acordo entre o MERCOSUL e a União Europeia seria particularmente adequado para consolidar os laços comerciais e fortalecer um sistema de regras comuns num momento de enfraquecimento do sistema multilateral.

Desde a crise financeira global de 2008, o primeiro grande choque que há muito remodelaram a economia global, muitos dos princípios centrais das economias abertas – a livre circulação de bens e factores, a especialização eficiente e os ganhos do comércio – estão a ser cada vez mais questionados. Esta questão coloca um duplo desafio: proteger os benefícios do comércio internacional sem ignorar os problemas de distribuição e as tensões sociais que a globalização criou em muitos países.

Neste contexto incerto, o Uruguai oferece um exemplo de estratégia pragmática. O país combina abertura comercial, diversificação de parceiros e neutralidade activa, o que lhe permite manter-se afastado de grandes tensões geopolíticas. Hoje, a China é o seu principal parceiro comercial em bens, os Estados Unidos em serviços e a União Europeia em investimento direto estrangeiro. Soma-se a isto o recente acordo de adesão ao CPTPP – o Acordo Transpacífico – e a sua candidatura, juntamente com Singapura, à adesão à OCDE. O Uruguai busca a previsibilidade, a estabilidade institucional e a sustentabilidade ambiental como ativos estratégicos para atrair investimentos, mesmo com uma estrutura de custos relativamente elevada.

Fernando Parro e Lorenzo Calendo, acadêmicos da Universidade de Rochester e da Universidade de Yale, apresentaram uma visão estrutural da transformação do sistema comercial global. Até 2017, o comércio internacional foi apoiado por tarifas baixas, negociações multilaterais no âmbito da OMC e pelos princípios da reciprocidade e da não discriminação. Esta arquitectura reflectiu décadas de evidências empíricas sobre os ganhos do comércio derivados da especialização e da vantagem comparativa. Contudo, com a eclosão da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, esse consenso foi abalado. Hoje, a tarifa média ponderada pelo comércio dos EUA é de cerca de 17% e a política comercial tornou-se mais bilateral, discricionária e menos previsível. As razões apresentadas – proteger o emprego industrial, reduzir os défices comerciais ou restaurar a reciprocidade – não têm um forte apoio na teoria económica. O resultado previsível é um ambiente de preços mais elevados, mais incerteza e menos investimento.

Para a América Latina, a retaliação comercial seria contraproducente. As alternativas incluem a utilização de tarifas relativamente baixas para se posicionarem como intermediários comerciais, o aprofundamento de acordos estáveis ​​com parceiros-chave, como a União Europeia ou a China, e o reforço da integração intra-regional historicamente limitada. Fernando Arce, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, juntou-se à discussão, destacando os desafios macroeconômicos da região. Embora muitos países tenham corrigido os desequilíbrios da balança corrente, permanecem pressões orçamentais significativas: custos da dívida mais elevados, défices fiscais no Cone Sul e elevada dependência das remessas na América Central, onde excedem 25% do PIB nas Honduras e em El Salvador. Além disso, a estrutura de exportação continua concentrada nas matérias-primas, com casos extremos como o Suriname fortemente dependente do ouro e a Venezuela fortemente dependente do petróleo.

Em suma, o desafio para a América Latina é significativo, mas as oportunidades também o são. Tal como a RIDGE deixou claro, os países que conseguirem combinar abertura, estabilidade macroeconómica e uma estratégia de neutralidade inteligente estarão melhor posicionados para navegar num mundo menos cooperativo. A chave será investir em infra-estruturas e logística, reforçar a integração regional e alcançar a inclusão estratégica nas cadeias de valor globais.

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