El Confidencial informa que o debate sobre a defesa comum europeia foi retomado com renovado vigor após os últimos movimentos geopolíticos que afectam directamente a segurança do continente. A possibilidade de um cessar-fogo na Ucrânia e o compromisso da Europa em garantir a sua estabilidade futura serviram de catalisador para uma iniciativa que esteve escondida durante anos nas instituições da comunidade. Neste contexto, o governo espanhol propôs uma fórmula provisória para avançar sem a necessidade de reforma imediata dos tratados.
A proposta apresentada pelo Ministério das Relações Exteriores, que envia José Manuel Albarezé criar coalizão voluntária dentro da União Europeia. Este será um grupo de países dispostos a integrar capacidades militares de forma coordenada como semente de uma futura força armada europeia, sem forçar todos os parceiros a participarem desde o início.
Fórmula flexível para superar bloqueios históricos
Este conceito não é novo a nível internacional, mas a sua aplicação ao projecto europeu é nova. A coligação permitirá que sejam feitos progressos sem a introdução de um comando unificado totalmente institucionalizado, um dos principais obstáculos políticos e jurídicos que até agora têm impedido a criação de um exército comum. Cada país manterá o controlo das suas próprias forças, mas operará dentro do quadro de coordenação previamente acordado.
De acordo com a abordagem espanhola, esta arquitectura flexível facilitará a adesão gradual de novos Estados-membros e evitará o veto daqueles que, por razões históricas ou estratégicas, rejeitam a plena integração militar. Além disso, permitiria a realização de destacamentos de forças específicas sem necessidade de unanimidade, o que constitui uma das principais limitações da política externa e de segurança comum.
Precedente ucraniano e cooperação multinacional
A iniciativa baseia-se na coligação internacional criada para apoiar a Ucrânia após a invasão russa. Liderado pela França e pela Grã-Bretanha, o grupo coordenou a entrega de material, formação e apoio logístico a dezenas de países, demonstrando que a cooperação militar multinacional poderia funcionar sem uma estrutura permanente clássica.
Espanha acredita que este modelo pode ser exportado dentro da comunidade, adaptando-o aos mecanismos da União Europeia. A principal diferença será a sua vocação estrutural e o seu objetivo final: lançar as bases de uma defesa europeia integrada capaz de operar de forma autónoma quando a situação o exigir.
Projeto relacionado com o novo contexto estratégico europeu
O debate renovado coincide com um momento de profunda reflexão em Bruxelas sobre a relação transatlântica. As tensões comerciais, as mudanças na política externa dos EUA e a pressão crescente nas fronteiras europeias reforçaram a ideia de que a UE necessita de maior autonomia estratégica.
Neste sentido, a Comissão Europeia e o Conselho apoiaram um aumento sustentável das despesas com a defesa e uma melhoria das capacidades militares globais. De acordo com dados oficiais da Política Comum de Segurança e Defesa da União Europeia, os estados membros aumentaram significativamente os seus orçamentos militares nos últimos anos, embora com pouca coordenação industrial.
Integração industrial e produção coordenada
Um dos eixos centrais da proposta espanhola é a cooperação entre empresas europeias de defesa. A actual fragmentação torna os sistemas de armas mais caros, impede a interoperabilidade e reduz a capacidade de resposta a crises prolongadas. Uma coligação estável permitirá planear compras conjuntas e linhas de produção comuns.
O objectivo não é apenas militar, mas também económico e tecnológico. A criação de cadeias de abastecimento europeias reforçaria a competitividade da indústria e reduziria a dependência de fornecedores externos, uma das vulnerabilidades expostas desde a eclosão do conflito na Ucrânia.
Contenção e não intervenção: o enquadramento político do projeto
O governo espanhol insiste que qualquer progresso no sentido de um exército europeu deve ser estritamente de contenção. O objectivo será garantir que a Europa continue a ser uma zona de estabilidade, capaz de se defender sem se tornar um actor beligerante na cena internacional.
Esta abordagem visa tranquilizar os Estados-Membros mais cautelosos da UE e a opinião pública, que tem sido historicamente relutante em militarizar o projecto europeu. A defesa comum é apresentada como uma ferramenta para manter a paz, em vez de projectar poder ofensivo.
Grupos táticos da UE como base operacional
A UE já dispõe de mecanismos de cooperação militar que servem de ponto de partida. Entre eles destacam-se Grupos táticos da UEDois batalhões de aproximadamente 1.500 pessoas cada estão prontos para serem destacados para missões de gestão de crises, assistência humanitária ou manutenção da paz.
Embora estas unidades nunca tenham entrado em acção em conflitos reais, a sua existência demonstra que a integração militar é tecnicamente viável. Uma coligação de voluntários expandirá estas capacidades e proporcionar-lhes-á uma continuidade política e operacional que ainda não existiu.
A abordagem espanhola não estabelece prazos nem compromissos imediatos, mas estabelece uma direcção clara. A ideia de um Exército Europeu, presente desde as origens da integração, volta a ganhar corpo num momento em que a segurança do continente já não pode ser considerada garantida.