janeiro 18, 2026
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Por ocasião do centenário da morte de Antoni Gaudi, esta série é publicada para percorrer passo a passo as diferentes etapas da sua carreira como arquiteto. Para além do mito e da lembrança, estas obras procuram compreender como evoluiu a sua forma de pensar, construir e ver o mundo, e como cada período da sua vida deixou uma marca reconhecível na sua arquitetura e na cidade de Barcelona.

Há algo de encerramento e algo de confinamento na fase final da obra de Gaudí. Conclusão porque é o ponto onde tudo o que veio antes é condensado, ordenado e finalmente reunido. Conclusão, porque na prática um arquiteto vive só de trabalho. Enquanto Barcelona muda séculos, ritmos e conflitos, Gaudí estreita o seu mundo até ficar quase sozinho com Basílica Sagrada Família. Não é que ele deixe de ser um criador: ele decide concentrar tudo o que aprendeu – e tudo o que ele é – em um só prédio.

Clímax: quando a estrutura e o ornamento param de brigar.

Nos últimos anos de sua carreira, Gaudí atingiu o ápice de seu estilo naturalista. Não se trata mais de encontrar soluções, mas de síntese. A grande diferença das etapas anteriores é que aqui estrutura e decoração não competem mais por destaque: elas são necessárias. A forma já não “veste” a função, e a função já não impõe quaisquer restrições à forma. Tudo está integrado num sistema holístico: arquitetura, escultura, luz, simbolismo, arte aplicada. Todo o pensamento é como um organismo.

Essa culminação é observada não apenas na monumentalidade. Às vezes é melhor entendê-lo em pequenas coisas.

Escolas da Sagrada Família: gênio sem barulho

Gaudí construído em 1909 Escolas da Sagrada Famíliaum prédio projetado para educar os filhos dos trabalhadores que trabalhavam no templo. A escala é mínima, mas a inteligência é máxima. Planta retangular, três salas de aula, vestíbulo e capela. Tijolo à vista, técnica tradicional catalã e, acima de tudo, uma solução formal que muda tudo: as paredes e o telhado ondulados.

Essas flutuações não são um capricho. Sim, proporcionam leveza visual, mas também resistência estrutural. O edifício parece modesto, quase temporário, mas serve como uma lição poderosa na compreensão de Gaudí da construção nas suas fases finais: eficiência máxima com recursos mínimos, geometria ao serviço da vida real.

Nesses mesmos anos, são-lhe atribuídas intervenções especiais – nem sempre documentadas – na paróquia de San Juan Bautista de Gràcia, em Barcelona. O que importa, além da autoria exata, é que o estilo de Gaudin neste palco já é reconhecível por si só: cúpulas com trincheiras, símbolos medidos, inscrições, uma forma de fazer as coisas que não precisa de assinatura para se revelar.

Pequenos projetos, o mesmo pulso

Desde 1910, Gaudí quase não se permitiu trabalhar fora do templo. Alguns deles são de natureza quase anedótica, mas mostram que mesmo em assuntos memoráveis ​​ou funcionais ele mantém sua linguagem. Em Vic, por exemplo, ele projetou luzes de rua em forma de obelisco para a Plaza Mayor com pedra basáltica, ferro forjado e uma cruz de quatro pontas no topo. Fez também um escudo para o seu grande patrono Eusebi Güell, cheio de símbolos e jogos heráldicos, como se até no brasão precisasse introduzir a lógica das suas curvas e arcos.

Ele projeta púlpitos, propõe alterações em projetos de outras pessoas, como em Manresa, e recebe perguntas que nunca se concretizam, incluindo a ideia de uma grande estação ferroviária monumental. Mas o centro de gravidade já está definido: tudo volta à Sagrada Família.

Sagrada Família: o templo como síntese total

Desde 1915, Gaudí dedicou-se quase exclusivamente Templo Expiatório da Sagrada Família. O que começou como cripta e abside em estilo neogótico se transforma em algo completamente diferente: um edifício orgânico que imita – no sentido mais literal – as formas da natureza. O interior é projetado em estilo florestal. Colunas em forma de árvore, inclinadas e em espiral, ramificam-se e distribuem peso com uma lógica que parece vegetal.

Aqui Gaudí aplica tudo o que aprendeu em projetos anteriores: os testes estruturais da cripta da Colonia Güell, a integração com a paisagem do Parque Güell, a obsessão pela luz resultante da sua intervenção em Maiorca. Mas na Sagrada Família já não existem “referências” isoladas: existe um sistema. Geometria correta, superfícies que se dobram como se fossem inevitáveis, vitrais que não decoram, mas criam atmosfera. E o simbolismo que percorre o templo de cima a baixo.

O projeto também é enorme: planta em cruz latina, várias naves, transepto, abside com capelas, três fachadas dedicadas à Natividade, Paixão e Glória, e um conjunto de torres que, quando concluídas, formarão a silhueta mais ambiciosa da arquitetura religiosa moderna.

Porém, durante a vida de Gaudí, apenas uma parte foi concluída: a cripta, a abside e parte da fachada da Natividade. Ele mal consegue ver a torre coroada de São Barnabé. O resto permanece uma promessa, um projeto herdado, uma construção que atravessa gerações.

O fim: projetos que ficam esboços e vida que fica no templo

Nos últimos anos também surgiram encomendas não realizadas: monumentos memoriais, uma igreja que nunca foi construída no Chile, projetos que permaneceram nos desenhos. Parece que Gaudí não tem mais espaço ou interesse para divergir. Sua devoção é absoluta e, em certo sentido, irreversível.

E então ocorre um acidente que causará sua morte. Esta história é normalmente contada de um ponto de vista moral – um pobre génio, um homem não reconhecido – mas o que é crucial é que Gaudí morre quando a sua obra já não é inteiramente sua. A etapa final não é apenas o culminar do estilo. É neste momento que a sua arquitectura se torna também uma obra colectiva, uma construção de longa duração, uma ideia que sobrevive ao seu autor.

É por isso que falar da fase final da obra de Gaudí não é falar apenas dos últimos anos de vida do arquitecto. Estamos a falar do momento em que, para o bem ou para o mal, Gaudi deixa de ser um nome e passa a ser uma estrutura. No sistema. Em um templo que ainda está crescendo.

Referência