janeiro 19, 2026
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Aparições oficiais tempo sem questionaratrasos na resposta a pedidos de informação, campanhas contra os meios de comunicação ou jornalistas promovidas ou intensificadas por políticos, falta de transparência na prestação de assistência e independência aos meios de comunicação públicos e reformas legislativas Algumas das principais ameaças que a imprensa em Espanha enfrenta continuam, segundo um relatório da Plataforma para a Defesa da Liberdade de Informação (PDLI), que analisa as formas de pressão e censura “indireta” que dificultaram o exercício da profissão em 2025 e que continuam a condicioná-la até hoje.

O balanço, a que a ABC teve acesso, recorda que o último relatório da Comissão Europeia sobre o Estado de Direito já tinha confirmado que em Espanha nenhum progresso significativo foi feito na melhoria do acesso à informação pública, especialmente no que diz respeito à reforma do regime de segredo de Estado, que continua a ser um dos mais restritivos do ambiente europeu para o acesso à informação de interesse público. Para a plataforma, isto, juntamente com a recusa em responder a perguntas ou o atraso nas respostas, são formas de censura “indireta” ou de “baixa intensidade”: ou seja, não existem restrições explícitas ou sanções formais, mas são práticas que “enfraquecem sistematicamente a capacidade dos meios de comunicação de controlar o poder”.

“Existem acusações coordenadas contra jornalistas, em alguns casos promovidas ou amplificadas por políticos”, afirma o relatório.

“Perseguição Digital”

Da mesma forma, podemos falar de “assédio digital”, que “assumiu uma dimensão muito preocupante, com campanhas de ameaças de morte, abusos racistas e ataques coordenados a jornalistas, em alguns casos encorajados ou intensificados por políticos”. O correspondente da ABC, David Alandete, foi alvo de uma dessas campanhas (liderada pelo ministro Oscar Puente) por fazer a Trump uma pergunta embaraçosa para o governo espanhol.

O relatório também reitera risco de algumas reformas legislativas estão actualmente em curso trabalhos sobre a liberdade de imprensa, incluindo o direito à correcção, aprovado na semana passada em Conselho de Ministros e que era apenas um anteprojecto no momento desta avaliação. O texto legal, que foi criado, segundo o ministro Félix Bolaños, para combater “hoaxes e mentiras”, permite a correção de informações divulgadas pelos meios de comunicação, inclusive digitais, bem como de informações publicadas usuários de especial importância (“pessoas influentes”) de plataformas online ou redes sociais. O limite é fixado em 100 mil assinantes na rede social ou mais de 200 mil em todas as suas redes. “Esta lei afetará os desinformadores habituais, pessoas que se envolvem em fraudes todos os dias”, observou o ministro na semana passada. Bolaños também reconheceu que a correção pode envolver “opiniões e avaliações que não são excessivas ou significativas” por parte de quem a pressiona.

A Plataforma de Liberdade de Informação salienta que o problema não é o direito à correção em si (também reconhecido pela constituição), mas os riscos associados à sua “aplicação ampla ou imprecisa”. Na verdade, organizações profissionais e especialistas em direito da informação já alertaram que a reforma poderia criar incerteza jurídica e incentivar a prática da autocensura, especialmente num ambiente digital onde “os limites entre informação, opinião e comunicação pessoal são mais tênues”.

“A reforma cria riscos potenciais de limitar indiretamente a liberdade de informação a tal ponto que o medo de correções obrigatórias, reclamações repetidas ou decisões administrativas controversas possam impedir a publicação de conteúdos de interesse público”, observa o relatório.

Sigilo profissional

O estudo menciona ainda uma lei sobre o sigilo profissional dos jornalistas, cujo anteprojecto foi aprovado pelo governo em Julho do ano passado. Recorde-se que o Conselho Geral da Magistratura (CGPJ) concluiu que, tal como está redigido, representa “uma proteção mais fraca do que a atualmente oferecida pelo sistema jurídico”. Entre as críticas à lei está a falta de clareza quanto aos limites e pressupostos específicos aos quais o sigilo profissional pode ser limitado. Alertam que as fontes podem tornar-se menos seguras, o que poderá tornar as pessoas menos dispostas a divulgar informações de interesse público por receio de retaliação. Além disso, os jornalistas podem ser forçados a revelar fontes em mais casos ou sob critérios legais mais amplos, o que enfraquece a sua independência.

Relativamente à Lei de Informação Classificada, a avaliação do PDLI argumenta que esta apresenta riscos indirectos para a imprensa, uma vez que a “enorme duração” dos períodos de sigilo favorece falta de transparência de documentos que possam ser de interesse público. Além disso, se os critérios de classificação ou desclassificação forem amplos ou não forem suficientemente controlados, “podem tornar-se numa ferramenta que limita o acesso à informação crítica por parte dos meios de comunicação social”.

Politização da RTVE

O relatório não perde de vista as preocupações com a reforma legislativa, através da qual, por decreto real, o governo alterou o sistema de nomeação do Conselho de Administração da RTVE, permitindo que a renovação da organização fosse efectuada por maioria absoluta de votos na ausência de maioria qualificada. Isto tem um impacto direto na “independência editorial do serviço público” e, como observou a Comissão Europeia no seu relatório sobre o Estado de direito, “pode aumentar risco de politização de órgãos governamentais RTVE e enfraquecer as garantias destinadas a proteger a sua autonomia contra interferências partidárias. Contudo, esse risco não se limitou ao nível estadual, pois ao longo de 2025 também ocorreram mobilizações de profissionais de emissoras públicas regionais de rádio e televisão em defesa de sua independência editorial.

O texto condena ainda o “aumento significativo” do orçamento destinado à publicidade institucional sem informação detalhada sobre a sua afetação, o que “reforça a perceção de opacidade e possível utilização discricionária destes recursos”. A Comissão Europeia já alertou que “na ausência de critérios claros, não é possível avaliar se a publicidade institucional é distribuída de forma justa ou se pode ser usada para recompensar ou punir a escrita editorial”.

Referência