Ucrânia, Gaza, Sudão, Mianmar, Síria… O mundo enfrenta conflitos crescentes, com o número de mortos a atingir milhares, senão dezenas de milhares. De acordo com o relatório, os ataques aos cuidados médicos em zonas de conflito atingiram um nível recorde em 2025, com um total de 1.348 ataques a instalações médicas, resultando em 1.981 mortes, civis e pessoal médico. Assistência médica em destaque da organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF), publicada esta quarta-feira. Este número é o dobro do ano anterior, com 944 pessoas mortas em tais circunstâncias, segundo o Sistema de Vigilância de Ataques à Saúde (SSA) da Organização Mundial de Saúde (OMS), apesar de há quase 10 anos uma resolução do Conselho de Segurança da ONU ter condenado tais ataques e apelado ao fim da impunidade das partes agressoras.
A ONG acusa os “beligerantes” nos conflitos armados, ou seja, aqueles que realizam ataques, incluindo Estados, de se esquivarem cada vez mais às suas obrigações ao abrigo do Direito Internacional Humanitário (DIH) de proteger instalações de saúde, pessoal e veículos, e pacientes.
Raquel Gonzalez, coordenadora de MSF em Espanha, alerta que o aumento dos ataques aos cuidados de saúde em conflitos armados reflete uma tendência preocupante: os ataques às instalações de saúde, e aos trabalhadores e pacientes que nelas trabalham, deixaram de ser danos colaterais do confronto para se tornarem alvos. “Em vez de falarem de erros, agora afirmam que os hospitais e o pessoal humanitário perderam a sua proteção”, salienta.
“Vivemos numa época em que vivenciamos o maior número de conflitos violentos ativos desde a Segunda Guerra Mundial, 59, de acordo com o Índice Global de Paz de 2025”, diz Gonzalez. “E há uma tendência que temos observado desde 2022: 80% dos ataques aos cuidados médicos em 2023 e 2024 foram perpetrados por Estados, ou seja, Rússia, Ucrânia, Israel”, sublinha.
Dados recolhidos por MSF mostram que a Ucrânia, país invadido pela Rússia há quase quatro anos, regista o maior número de ataques aos sistemas de saúde, com 577 instalações afetadas. No entanto, o maior número de mortos (1.620) nestes ataques foi confirmado no Sudão, onde a guerra entre o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF) rebeldes continua desde 2023. Os mesmos dados confirmam que Mianmar está em segundo lugar, com 148 mortes; Gaza – terceiro lugar (125); Síria, 41; e Ucrânia, 19.
“Não há dúvida de que, tanto com base no direito internacional consuetudinário, ou seja, nas Convenções de Genebra de 1949 e seus Protocolos Adicionais, como em resposta ao direito internacional geral, os ataques dirigidos deliberadamente contra instituições e pessoal médico são atos proibidos que geralmente podem ser considerados o que se costuma chamar de crimes de guerra”, enfatizou por e-mail Javier Chinchon, professor de direito internacional da Universidade Complutense de Madrid, assessorado pelo EL PAÍS.
Como confirmou o académico, a violação destas normas acarreta dois tipos de responsabilidade não exclusiva: responsabilidade estatal, caso estes ataques possam ser atribuídos direta ou indiretamente a uma entidade estatal; e indivíduos que visam aqueles que ordenam ou executam os referidos ataques.
“No primeiro caso, o órgão competente de jurisdição geral na ONU para o procedimento judicial será o Tribunal Internacional de Justiça (TPI). No segundo, a resposta é mais complicada. A Resolução 2.286 foi um lembrete do que muitas vezes é esquecido: a responsabilidade inicial e fundamental de garantir que a pessoa responsável por essas ações cumpra a justiça cabe aos próprios tribunais dos Estados. Mas, além disso, existem organismos internacionais que poderiam realizar procedimentos judiciais nestes casos, como o Tribunal Penal Internacional, de acordo com o artigo 8.º do seu Estatuto”, explica. Chinchon.
Em relação ao DIH, no qual ONGs como MSF confiam quando conduzem operações em zonas de guerra, o Coordenador González argumenta que o conteúdo desta norma garante proteção especial para ações médicas. “O pessoal médico deve ser respeitado e protegido. Os doentes e feridos também.” Porém, antes de realizar qualquer trabalho, você precisará obter autorização do estado em que deseja entrar.

Segundo Gonzalez, estes tipos de ataques, que visam indiscriminadamente missões médicas, reflectem menos respeito pelos civis no país em questão. “Os civis são cada vez mais respeitados, assim como o direito que têm, ao abrigo do DIH, de serem protegidos e de não serem atacados”, condena. “Eles querem seguir uma política de terra arrasada para infligir o máximo de danos possível aos civis. Neste quadro, qualquer coisa que inclua ataques a alvos civis, hospitais, escolas… é logicamente prejudicial”, acrescenta.
“(O que está estabelecido no direito internacional) são as regras que eles (os Estados) estabeleceram como tal. O que é proibido mesmo durante um conflito armado, e quais são as consequências da violação desta proibição. É de partir o coração ver quantos deles fingem que também se esqueceram disso”, lamenta o professor.
Casos recentes
Nos últimos anos, registaram-se numerosos ataques a infra-estruturas médicas durante vários conflitos.
Em Gaza, onde Israel bombardeava civis regularmente, os hospitais foram repetidamente alvo de ataques: o Hospital Nasser em Khan Younis e o Hospital Al-Ahli Al-Arabi na cidade de Gaza.
Na Ucrânia, a Rússia também atacou repetidamente hospitais: o Hospital Materno-Infantil de Mariupol, imediatamente após o início da guerra no país europeu, e o hospital infantil de Oymatdit, em Kiev, dois anos depois.
No Sudão, o último ataque a uma unidade de saúde ocorreu quando os rebeldes mataram 460 pessoas numa maternidade saudita em El Fasher.