janeiro 23, 2026
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A União Europeia estará “pronta” para aplicar provisoriamente o acordo comercial com o Mercosul quando aqueles países começarem a ratificar o tratado, garantiu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, procurando esclarecer dúvidas e receios que do outro lado do Atlântico foram provocados pela votação no Parlamento Europeu para enviar o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), uma manobra amplamente considerada lenta.

“Estaremos prontos quando eles estiverem prontos”, disse Von der Leyen no final de uma reunião extraordinária de líderes da UE convocada com urgência na tarde de quinta-feira em Bruxelas para discutir “relações transatlânticas” na sequência da crise da Gronelândia. Embora não estivesse no menu principal, o acordo Mercosul, que recebeu um impulso decisivo na Europa precisamente em resposta às ameaças tarifárias do presidente Donald Trump, também foi discutido numa reunião à porta fechada organizada pelo presidente do Conselho Europeu. Neste fórum, vários países deixaram claro o seu apoio a uma implementação rápida.

Entre os líderes que se manifestaram pela conclusão imediata de um acordo comercial com o Mercosul estava o presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez. Ele defende “a implementação da sindicalização, a começar pela aplicação imediata, ainda que temporária, do acordo firmado com o MERCOSUL”. O espanhol juntou-se assim à voz do chanceler alemão Friedrich Merz, que não hesitou em criticar o Parlamento Europeu pela sua decisão de quarta-feira e exigiu a rápida implementação do pacto comercial. “Lamento que o Parlamento Europeu tenha criado outro obstáculo para o Mercosul. Mas tenha certeza de que eles não nos impedirão. O acordo com o Mercosul é justo e equilibrado. Não há alternativa se quisermos mais crescimento na Europa”, disse o alemão no Fórum Econômico de Davos antes de desembarcar em Bruxelas.

Com menos veemência, mas no mesmo espírito, o primeiro-ministro holandês, Dick Schoof – “Penso que isto deve continuar” – e o primeiro-ministro austríaco, Christian Stocker, pronunciaram-se. Este último, apesar de ter votado contra no Conselho há uma semana, deixou claro que isto lhe parecia ser “business as usual”.

Tecnicamente, von der Leyen mais uma vez não precisou da aprovação do Conselho Europeu, ou seja, dos chefes de estado e de governo dos Estados-membros. No entanto, isto requer o consentimento do Conselho da UE, que já lhe concedeu esta oportunidade. Foi o que Costa explicou: os líderes dos países já tinham concordado com este passo na semana passada, ao mesmo tempo que deram autorização à Comissão para assinar o acordo, o que foi feito numa cerimónia em Assunção, no Paraguai, no passado sábado.

Apesar disso, numa aparição mediática na madrugada de quinta para sexta-feira, Costa formalizou publicamente a medida: “Proponho à Comissão que utilize a decisão do Conselho para implementar a aplicação provisória do acordo do Mercosul”, disse perante von der Leyen. Esta frase representa um endosso claro.

Há uma razão para isto: Bruxelas reconhece que o maior obstáculo não é jurídico, mas sim político. Por um lado, está consciente da crescente impaciência dos países do Mercosul, que são a favor de que o acordo entre em vigor o mais rapidamente possível. Na verdade, o Paraguai planeia apresentar o tratado na próxima semana perante o Comité Permanente do Congresso, e a Argentina irá debatê-lo em sessões extraordinárias do parlamento a partir de Fevereiro. Há também um desejo contínuo no Brasil e no Uruguai de ratificar rapidamente o texto.

Mas o equilíbrio político também depende de evitar irritar o Parlamento Europeu, como teme a Comissão. Muitos eurodeputados deixaram claro que não querem que a Assembleia seja ignorada numa questão tão importante. E uma vez que a votação (quando acontecer) será tão apertada, pois todos concordam que será numa câmara profundamente dividida sobre este acordo comercial, a Comissão não pode dar-se ao luxo de perder qualquer apoio ao tomar um passo precipitado ou mal interpretado.

O “convite” de Costa a von der Leyen dá-lhe um forte apoio político neste sentido, o que permitirá à alemã resolver a sua próxima tarefa: garantir que não turva ainda mais as águas no Parlamento Europeu. Neste sentido, fontes da comunidade asseguram que o executivo europeu está pronto para ouvir atentamente todas as partes e que o alemão trabalhará pessoalmente com os grupos políticos na câmara para garantir o máximo de apoio possível.

Ao mesmo tempo, como lembrou a própria Von der Leyen, apesar da pressa, não há tanta urgência: “Ainda não tomámos uma decisão”, explicou Von der Leyen, porque ainda não há necessidade disso. “Só será necessária uma decisão quando um ou mais países do Mercosul concluírem os seus procedimentos”, lembrou. E isso acontecerá, segundo estimativas de Bruxelas, não antes de um ou mesmo dois meses. Quando isso acontecer, sim, prometeu, a UE fará a sua parte. É aqui que entra a promessa de que seus parceiros certamente irão lembrá-lo em algumas semanas: “Estaremos prontos quando eles estiverem prontos”.

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