janeiro 23, 2026
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Quando a mulher o proibiu de ir para a guerra, um jornalista português amigo meu dedicou-se a apagar incêndios em Portugal para se livrar do macaco da adrenalina. Alguns dias depois ele voltou para casa acordado, cheirando a fumaça e fuligem preta, em êxtase o cansaço que substituiu as noites de bombardeio e aquele impulso de atravessar as ruas sob a guarda de franco-atiradores. Na ausência de guerra, ele saltou ravinas, escalou colinas com a respiração suspensa e tirou fotos cara a cara com o monstro de fogo. Com o tempo ele voltou ao seu trabalho, até que outra montanha pegou fogo e ele correu entre as faíscas. Ele disse que de vez em quando aparece um chefe na redação para reinventar o jornalismo e lhe dizer como fazer alguma coisa, um daqueles dedos verdes que de vez em quando acreditam que reinventaram a roda antiga de uma profissão mais antiga até mesmo do que a profissão mais antiga do mundo. Pedro perguntou-lhes então com a sua habitual distância britânica:

– Quantos incêndios você apagou?

Como diz Peri, sempre foi uma questão de ir, ver e contar. É trazer um pouco de vida daí e deixar um pouco da sua. O repórter perde pedaços de seu coração e os substitui por pedaços do coração de outras pessoas, de modo que com o tempo ele não é mais ele mesmo, mas sim os personagens de suas histórias.

É assim que fica embaçado, sem escrita, por assim dizer. A vida de um jornalista consiste em ver a floresta queimar e o mundo explodir no ar, entrando e saindo ileso com uma mala de lembranças, horrores e heroísmo alheio que um dia vomitará nos tapetes dos elegantes consultórios de seus psiquiatras. Mas primeiro você precisa encher os olhos com vidro quebrado, para depois despejá-lo no papel. E se o leitor reclama que o tema dói e tem gosto de sangue, é porque está bem contado: a realidade dói mais. Aí você chega em casa um pouco diferente e encontra aquela sala, aquela casa, aquele calor e aquela normalidade que te parece mentira, como se tudo estivesse prestes a escorregar pela barragem a caminho do riacho Coto, lá embaixo, enquanto a noite cai e o frio desce na Serra Morena.

Para abrigar as vítimas enquanto elas esperavam por socorro na estrada, sangrando e tremendo de calafrios, o policial municipal de Adamuz ordenou que as malas fossem abertas e as roupas usadas como roupas de sorte. Eles usavam as calças em volta do pescoço como lenços elegantes. Entre a bagagem estavam presentes cuidadosamente embrulhados que os passageiros do Alvia trouxeram de Madrid, incluindo um bicho de pelúcia do Rei Leão. Cada capa traz à mente um objeto guardado no sótão do coração: um cinzeiro do mercado de peixes onde esperavam as famílias dos mortos em Nuevo Pepita Aurora; o triciclo das crianças Bibas mortas pelo Hamas em Nir Oz; uma bicicleta que ninguém havia comprado antes do Bataclan; Álbum de fotos de Dana; Guarda-chuva curvo Anrois; e um bicho de pelúcia de O Rei Leão. Se você me perguntar, direi que cobri dois acidentes de trem e gostaria de não ter visto nenhum deles.


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