janeiro 23, 2026
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O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou esta quinta-feira o Conselho da Paz, uma organização que foi criada para gerir o período após a cessação das hostilidades na Faixa de Gaza entre o exército israelita e a milícia palestiniana Hamas, mas que será ampliada para resolver novos conflitos. Rodeado por aqueles que considera “amigos, grandes líderes” como o Presidente argentino Javier Miley ou o Presidente indonésio Prabowo Subianto, que também é um aliado, Trump garantiu que “o mundo está mais rico, mais seguro e muito mais pacífico do que era há um ano” devido ao seu trabalho.

O anúncio oficial da criação do órgão foi feito pela Casa Branca na semana passada, mas a ideia foi anunciada pelo presidente dos EUA em setembro de 2025 juntamente com um plano de 20 pontos para acabar com o conflito no Médio Oriente. A criação do Conselho de Paz foi aprovada pela Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU. No entanto, ao tomar conhecimento dos primeiros passos deste órgão e da sua formação, o Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, chamou-o de “amorfo”. Estas são as chaves para a invenção de Trump

O que é o Conselho de Paz?

Quando Trump propôs a ideia, limitou-se a resolver a guerra travada por Israel na Faixa de Gaza, mas agora expandiu o seu propósito. O Conselho de Paz é uma organização cujo objetivo é resolver conflitos militares e promover a paz mundial. Tem primeiro a aprovação da ONU, tal como o seu Conselho de Segurança o aprovou em Novembro. A resolução, na qual a Rússia e a China se abstiveram, definiu o trabalho destes conselhos para “celebrar acordos necessários para alcançar os objetivos” do acordo de paz “e estabelecer estruturas operacionais para esse fim”.

O Presidente dos Estados Unidos é o presidente e chefe deste comitê. A Casa Branca nomeou pessoas ao redor de Trump para ajudá-lo, embora o presidente tenha deixado claro que tomará as decisões finais. Assim, os membros do conselho executivo fundador da iniciativa serão o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e o genro de Trump, Jared Kushner.

Quais países vão participar?

Os Estados Unidos convidaram mais de 60 países a participar, dos quais quase vinte já participaram até agora. É o caso de Miley, do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, ou do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Estes países poderão manter as suas posições durante três anos. Aqueles que quiserem conseguir um assento permanente no Conselho da Paz terão de pagar mil milhões de dólares (aproximadamente 864 milhões de euros).

Há líderes que ainda analisam esta proposta, como o presidente russo, Vladimir Putin, ou o presidente brasileiro, Lula da Silva. Quanto à Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez rejeitou a proposta. “Fazemos isto por uma questão de consistência”, justificou Sánchez, que deixou claro ter muitas dúvidas de que a organização que Trump quer construir respeite “a ordem multilateral e as regras das Nações Unidas”. Nenhum membro do executivo espanhol esteve presente na apresentação da instituição esta quinta-feira.

Há também estados que rejeitaram o convite de Trump, como França, Noruega, Suécia ou Reino Unido. Esta recusa não foi bem recebida pelo Presidente dos EUA, pois após a recusa do país francês, ele propôs em resposta uma tarifa de 200 por cento sobre os vinhos e champanhe franceses.

O que pensam as autoridades israelenses e de Gaza?

Por enquanto, Israel parece aprovar a proposta de Trump de criar um Conselho de Paz, cujo objectivo original era acabar com a guerra com Gaza, uma vez que concordou em participar nela. No entanto, Netanyahu garantiu na segunda-feira ao parlamento israelense que eles tiveram “alguma discussão” com os Estados Unidos “sobre a composição do conselho consultivo”. Além disso, o presidente observou que “isto não foi acordado com Israel” e que “é contrário à sua política”.

As autoridades da Faixa de Gaza, pelo contrário, criticaram esta iniciativa. Num comunicado publicado na mídia palestina, o Hamas garantiu que convidar um “criminoso de guerra”, referindo-se ao chefe do governo israelense, é “um indicador perigoso que contradiz os princípios de justiça e responsabilidade”.

Acabar com os conflitos armados seria benéfico?

Os especialistas acreditam que este órgão não será suficiente para atingir os objetivos do Conselho de Paz. Paul Morillas, diretor do CIDOB Ideas Lab, argumenta que isto representa “uma clara comercialização do multilateralismo”. Morillas garante que esta instituição não será eficaz na consecução do seu objetivo, pois “não coloca os Estados em pé de igualdade”, mas sim “beneficia aqueles que se submetem às suas exigências”.

O especialista em relações internacionais sublinha que não há precedentes para tal organização. Para demonstrar a futilidade desta instituição, dá o exemplo da guerra entre Israel e Gaza, já que o objetivo é fazer de Trump o protagonista destas negociações, e não resolver o conflito: “É apenas performativo”, afirma.

Quanto tempo isso vai durar?

A Resolução 2.803 do Conselho de Segurança da ONU estabelece que o Conselho de Paz existirá até 31 de dezembro de 2027, com o objetivo exclusivo de focar na Faixa de Gaza. Contudo, o propósito desta nova instituição é amplo, pelo que pode ir mais longe. As declarações do Presidente dos EUA sugerem que será esse o caso. Trump deixou claro que agirá em crises globais para além do conflito de Gaza. Além disso, não existe um calendário com datas ou marcos específicos que possam ser cancelados.

Será capaz de coexistir com a ONU?

Quando questionado se o Conselho de Paz da ONU substituiria a ONU, Trump garantiu que “é possível”. Ele prosseguiu dizendo que é um “grande fã” das Nações Unidas, “mas elas nunca cumpriram as suas promessas”. Morillas insiste que esta iniciativa “é uma tentativa de minar o atual sistema multilateral e a ONU em particular”, apesar de Trump ter garantido que acredita que “ela (a ONU) deve poder continuar a existir porque o seu potencial é enorme”.

O especialista da CIDOB reconhece que a ONU precisa de reformas para melhorar a sua eficácia, “mas este é um problema criado pelos Estados Unidos”, pois exerce sistematicamente o poder de veto no Conselho de Segurança, tornando “difícil” a sua coexistência.

Referência