janeiro 24, 2026
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O adiamento do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul pelo Parlamento Europeu (10 votos) abre um vazio dramático para a Europa.

Se a Comissão exagerar e decidir aplicá-la provisoriamente a partir de agora – o que tem o poder de fazer – colmatará essa lacuna, mas corre o risco de abrir um conflito institucional.

Caso contrário, um pedido parlamentar ao Tribunal de Justiça (TJUE) para examinar o texto irá congelá-lo por um ano e meio a dois anos. E de forma bastante confusa, pois é justamente esse o seu objetivo, ao apelar para artifícios processuais: casos anteriores semelhantes já foram confirmados pela Corte (Cingapura, em 2017). Neste cenário, o drama, do ponto de vista geoeconómico, é triplo.

Em primeiro lugar, torna mais fácil para os Estados Unidos darem um salto irrestrito rumo à hegemonia incontestada sobre toda a América Latina (América Latina), aplicando a doutrina colonial do “quintal” de James Monroe. Em segundo lugar, se isto falhar, a China desafiará a posição da Europa (três jogadores disputam a primazia). E terceiro, enfraquece a sua confiança nas negociações sobre um acordo comercial nascente com a Índia, um território de 1,4 mil milhões de pessoas, cinco vezes o tamanho do Mercosul: um parceiro dirá que se a UE não puder ratificar o que foi acordado, vamos poupar o esforço.

Mas, além disso, a recusa é em si desastrosa para a UE, um autogolo surpreendente. O último estudo quantifica o declínio das exportações europeias em 3 mil milhões de euros por ano e o aumento falhado do PIB em 4,4 mil milhões de euros (O custo de atrasar a ratificação do acordo comercial UE/MERCOSULECIPE, dezembro de 2025).

O maior suicídio de um apoiador do boicote na França. A sua indústria perderá muito, mas o sector das matérias-primas permanecerá em equilíbrio: o aumento da produção de vinho e de leite compensará a perda de carne bovina. E o impacto negativo (0,3% nos rendimentos agrícolas) foi menor em comparação com a duplicação dos seus preços desde 2019 (Alexander Gaughan e Alan Matthews, Acordo de Associação União Europeia/MERCOSUL: implicações para a produção pecuária da UEJornal de Economia Agrícola, 26 de setembro de 2025). Devido ao seu hiperprotecionismo, o Hexágono passou de segundo maior exportador mundial para sexto desde 2000, com a Espanha logo atrás. A experiência espanhola com Marrocos deveria inspirar-nos a todos: graças aos acordos com a UE, o reino alauita ultrapassou a Espanha nas exportações para vinte e sete países… em volume; mas seu valor ainda é muito menor.

O imperativo hoje é diversificar as exportações, que os Estados Unidos desencorajaram através de tarifas, para outras áreas. Vejamos um exemplo chinês. Apesar da fortíssima pressão tarifária, em 2025 conseguiu aumentar as vendas ao exterior – para todo o mercado mundial – em 5,5%, o que é meio ponto a mais que o seu PIB (5%). Enquanto na UE os preços caíram 6,5% (até Novembro do mesmo ano; dados da TradeEconomics, Eurostat); A exceção é a Espanha, que os aumentou 0,6%.

Crucialmente, as vendas europeias destinadas aos EUA caíram 10% entre Agosto (tarifas em vigor a partir do final de Julho) e Novembro; mas no último mês 20,3%: uma tendência terrível. Ou isso é compensado na América Latina, na Índia e em outras regiões, ou, infelizmente! Supremacia comercial europeia no mundo.

Existem outras razões infundadas para o bloqueio do parlamento, alimentado por ultras de ambos os lados.

Ao contrário do que propagam, “todos os produtos importados (do Mercosul) devem cumprir as normas sanitárias e fitossanitárias da UE, sem serem engordados com hormonas ou tratamentos com antibióticos”, escreve o grande especialista francês Jean-Luc Demarty (Acordo Mercosul: sucesso europeu, naufrágio francêsTelos, 13/01/2026). Outra coisa é o controle exercido por cada Governo. Mas esta é uma questão nacional e não europeia.

Referência