Este domingo, milhares de pessoas cruzaram a linha de partida da Meia Maratona de Sevilha. Mas apenas um o fez com um propósito além de terminar a corrida. Entre os números da camiseta estava escrito: “Correr e adolescência são coisas que transformam”. Essa é a mensagem que Noelia Hernandez, educadora e comunicadora especializada em adolescência, leva a cada uma das meias maratonas que compete, como parte da missão de colocar os direitos e o bem-estar dos jovens no centro das discussões.
Noelia combina neste desafio as suas duas paixões, convencida de que têm muito em comum: “Como amante do desporto, sei que correr não é correr rápido ou evitar o cansaço, mas sim a capacidade de suportar o esforço, ouvir o corpo e não desistir quando surge a dor ou a dúvida.” A mesma lógica pela qual, na sua opinião, passa a adolescência: “Uma fase maravilhosa, cheia de potencial, mas ao mesmo tempo difícil, e que não pode ser vivida sozinha”, explica a professora.
A ideia de desafio surge justamente da rebelião contra esta solidão. Sentimento que ela também vivencia em seu trabalho como divulgadora diante de uma narrativa ampliada que continua reduzindo a adolescência a “um conflito, uma rebelião ou um problema”. Essa perspectiva leva a uma realidade que Noelia vivencia diariamente nas aulas e com a família: adolescentes que se sentem sozinhos, ignorados, incompreendidos e constantemente julgados. “Não é que os adolescentes estejam falhando”, alerta ele, “é que o apoio chega tarde ou nem chega”.
Daí a necessidade de dar um passo além da sala de aula e das redes sociais, onde os educadores compartilham ferramentas e nos convidam a olhar a adolescência com novos olhos: sem medo, sem preconceito, com empatia. “Vou dar o meu melhor, mas não posso correr esta corrida sozinha”, admite ela. Por isso recorreu ao desporto como orador com a sua mensagem: “A adolescência não precisa de ser consertada, precisa de ser compreendida, apoiada e respeitada, e hoje mais do que nunca precisamos de adultos e de políticas públicas adequadas”. Esta é a força motriz por trás de um desafio desportivo que não tem a ver com “heroísmo individual”, mas com “responsabilidade colectiva”.
Concentre-se nas necessidades dos adolescentes
Para tal, Noelia Hernandez propôs a exibição de mensagens em cada meia maratona em Espanha, centrando-se em realidades – e questões – que “não podemos continuar a evitar como sociedade”: o impacto das redes sociais e dos ecrãs, a saúde mental, o bullying, a educação emocional-sexual ou o apoio emocional. O texto que mostrou ao cruzar a linha de chegada em Sevilha apontava para um dos mais difíceis de nomear: “O suicídio é a principal causa de morte em adolescentes”.
Para este especialista em adolescência, não se trata de lançar uma mensagem provocativa ou sensacionalista, mas sim de um “chamado à responsabilidade” político e social sinalizando “alarme”, apoiado em pesquisas e dados oficiais que mostram um aumento do desconforto emocional nesta fase. Neste sentido, defende que “a solidão é uma emoção constante nos adolescentes” porque muitas vezes pensamos que estão acompanhados, “mas o ecrã não os acompanha, e não os ajudamos quando minimizamos o que sentem”, como observa.
Com base na sua experiência, Noelia Hernandez conclui que “como sociedade, não estamos fazendo um bom trabalho ao ouvir as necessidades dos adolescentes”. Diante disso, ele sugere uma mudança de abordagem: “Ouça-os, leve-os em consideração, pare de subestimá-los e responsabilize-os porque eles têm muito a contribuir”. O problema, diz ele, não é que a adolescência seja uma fase exigente, mas sim que “eles são convidados a passar por um dos momentos mais transformadores da vida com poucas ferramentas e adultos sobrecarregados ou ausentes”.
O problema como sociedade
Com este desafio desportivo, Noelia Hernandez pretende “mudar a narrativa e focar no que os adolescentes realmente precisam e na responsabilidade que nós, como sociedade, temos de apoiá-los”. No mínimo, ela espera “despertar a curiosidade” e afastar o preconceito de quem a encontra durante a prova para promover o “debate necessário”. A primeira é dissipar o mito de que a adolescência é, por definição, uma fase “difícil”.
Este preconceito, argumenta ele, “estigmatiza os adolescentes e enfraquece o mundo adulto”. A neurociência, lembra o especialista, ensina que nesta fase são reconstruídas “áreas-chave do cérebro associadas à identidade, regulação emocional, tomada de decisões e conexões sociais”. “Não é caos, é reconstrução”, explica, “e qualquer reconstrução requer tempo, contexto e apoio”, como acontece numa corrida de longa distância.
Por isso insiste que a adolescência “merece atenção, respeito e apoio” e que esta carreira não deve ser deixada “nas mãos de poucos”. Essa crença a levou a abandonar as salas de aula e as redes sociais: “As organizações políticas e sociais precisam priorizar a saúde mental e as reais necessidades dos adolescentes, parar de olhar para o outro lado e dedicar mais recursos à educação para implementar intervenções”. Estas incluem a regulamentação do acesso à pornografia, jogos de azar, videojogos, bebidas energéticas e drogas. “São questões de saúde pública e é hora de legislar e agir de fato”, afirma a professora enquanto se prepara para a prova.
Depois da corrida de Sevilha, Noelia Hernandez participará da meia maratona de Barcelona no dia 15 de fevereiro e de Madrid no dia 22 de março. Assim, até percorrer todo o país. Porque, como numa corrida, “ninguém espera que um adolescente percorra sozinho o caminho mais difícil da sua vida”, conclui o especialista: “Um bom apoio à adolescência não é uma opção: é uma necessidade social”.