Martha tem 36 anos, dorme mal há vários meses e vive com a sensação constante de estar atrasada para tudo na sua companhia. Não importa o quanto você tente, você sempre sente que não é suficiente. “Eles me ensinaram a ser uma boa trabalhadora antes de ser gentil comigo. E agora não sei como me colocar em primeiro lugar sem sentir que estou falhando”, explica ela.
Sua história não é algo excepcional. Na verdade, ele é profundamente representativo de uma geração criada com base na ideia aparentemente incontestada de que o trabalho deve ocupar o centro da vida e que o esforço constante será recompensado com estabilidade, reconhecimento e segurança. O problema surgiu quando esta equação deixou de funcionar e mesmo assim continuamos a aplicá-la como se a culpa só pudesse ser nossa.
Aprenda a trabalhar antes de cuidar de si mesmo
A psicóloga Angela Esteban, conhecida online como @gamanpsicologia e autora do livro Você não herdará a empresa: como acabar com o estresse no trabalho antes que ele o mate (Bruguera, 2025), essa internalização começa muito antes do que costumamos pensar.
“Desde os primeiros anos de vida estamos rodeados de estímulos relacionados ao trabalho: brinquedos de carreira, jogos de RPG, adultos nos perguntando o que queremos ser quando crescermos”, explica. Sem perceber, construímos a ideia de que nosso futuro (e nosso valor) estará vinculado ao que fazemos no trabalho.
Segundo o autor, essa mensagem foi reforçada ao longo dos anos por frases bem intencionadas, mas poderosas: “É preciso trabalhar muito para ir longe”, “O trabalho vem primeiro”, “Se você trabalhar muito, terá sucesso”. Esteban observa que embora essas expressões nasçam do afeto, deixam uma marca que pode ser prejudicial: “Fica impresso em nós que o nosso valor depende de quanto produzimos e que o trabalho deve ser o centro da nossa vida”, argumenta.
Durante a consulta, a especialista se depara com “pessoas cansadas que acham que descansar é uma perda de tempo. Suas demandas internas não lhes dão oportunidade de parar de trabalhar, não podem “ficar para trás””, observa. Um desgaste silencioso que está a tornar-se a norma (um estudo recente da Randstad em Espanha mostra que seis em cada 10 trabalhadores enfrentam regularmente problemas de stress no trabalho) e que está gradualmente a apagar qualquer espaço de vida improdutivo.
Está arraigado em nós que o nosso valor depende de quanto produzimos e que o trabalho deve ser o centro das nossas vidas.
Angela Esteban
– psicólogo
Quando uma promessa não é cumprida
O golpe vem quando, depois de anos de esforço, a recompensa prometida não aparece ou aparece timidamente. “É um dos grandes 'chutes invisíveis'. É como correr em uma esteira: você se esforça, você sua, você cede… Mas você não avança”, descreve Esteban. E diante desta decepção, muitos olham para dentro em vez de questionar o sistema. “Em vez de analisar o contexto, analisamos o nosso valor. “Não sou suficiente?”, “Devo me esforçar mais?” – acrescenta. Isso cria um terreno fértil para decepção e infelicidade.
Luis, 43 anos, procurou o Dr. Esteban com uma sensação cada vez mais recorrente: a sensação de ter sido enganado. “Ele não só se sentiu cansado, mas também se sentiu enganado”, diz a psicóloga. Ele realizou tudo o que deveria fazer, mas sua vida não foi de forma alguma o que lhe foi prometido. Ele sentiu que seus esforços não correspondiam à sua realidade, e isso lhe causou muita culpa, decepção e até vergonha. Ele não sabia como explicar por que trabalhava tanto.
Mas embora seja natural e justo esperar recompensas externas pelo que fazemos, não podemos basear todo o nosso sentido de autoestima naquilo que o nosso trabalho nos proporciona. “Se os seus esforços não são retribuídos, isso não significa que você vale menos ou que fracassou”, insiste Esteban. Às vezes, enfatiza ele, é o sistema, as condições, o contexto que falham. Mas desaprender esta ideia é difícil, especialmente quando temos aprendido o contrário durante anos.
Trabalhar como um dever moral
A socióloga Elsa Santamaria, especialista nos aspectos psicossociais do mundo do trabalho e professora da UOC, situa esta lógica num quadro histórico e cultural mais amplo. “O modelo cultural que prioriza o trabalho é uma construção social profundamente enraizada”, explica, citando o livro A ética protestante e o espírito do capitalismoMax Weber, onde o autor alemão descreve o mundo industrial moderno do final do século XIX e início do século XX.
Esta ética, emprestada principalmente do calvinismo, foi fundamental para estabelecer o trabalho como um dever moral e religioso, como centro da organização social e da formação da nossa subjetividade.
Embora o contexto do mundo que Weber descreve tenha mudado, segundo Santamaria, há elementos que não só foram preservados, mas também foram fortalecidos. “Um exemplo disso é a racionalidade, que vincula o valor social à produtividade, à utilidade e ao esforço pessoal”, destaca. “Isso legitima tanto a disciplina individual quanto a regulação social de acordo com os ideais de eficiência, responsabilidade e meritocracia.” Daí, por exemplo, o elogio constante à figura do empreendedor.
O esforço sustentado já não garante segurança no emprego, progresso social ou segurança económica.
Elsa Santamaria
– sociólogo (UOC)
O problema é que a equação da meritocracia já não funciona como antes. “O esforço contínuo já não garante segurança no emprego, progresso social ou segurança económica”, afirma o professor. E ainda assim continuamos a nos avaliar pelo mesmo padrão.
Requisito para você: uma voz que não vai embora
Esta contradição alimenta a auto-exigência, que pode tornar-se destrutiva. “Eles nos ensinaram isso como algo heróico: suportar, sacrificar, não parar”, explica Esteban. Além disso, questionar esta narrativa não é fácil porque envolve questionar uma parte central da nossa identidade. “Chega um ponto em que os comentários externos que ouvimos se tornam a nossa própria voz interior. E agora ninguém precisa exigir isso de nós, nós mesmos fazemos isso.”
A psicóloga lembra o caso de Clara, de 29 anos, que durante uma consulta se expressou assim: “Sei que estou cansada, mas não posso decepcionar. Já nem sei quem, mas sinto que preciso continuar”. Teve enxaquecas, bloqueios, ansiedade constante, mas apesar disso se obrigou a ir mais rápido, ser mais eficiente e não cometer erros. “Não era um problema de organização, mas sim de um nível de exigência impossível de manter”, afirma Esteban.
Da sociologia, Santamaria observa um fenômeno paralelo: “Já não é apenas a empresa que mede o nosso tempo, mas estamos constantemente nos medindo e nos autootimizando”. A lógica da produtividade estendeu-se ao lazer, à recreação e à vida pessoal. O indivíduo torna-se um “agente autoempreendedor”, assumindo total responsabilidade pelo seu próprio sucesso ou fracasso.
Não é mais apenas a empresa que conta nosso tempo, mas nós mesmos estamos constantemente nos medindo e nos autootimizando.
Elsa Santamaria
– sociólogo (UOC)
Quando o corpo fala
O problema é que isso acaba afetando nossa saúde. “O corpo sempre fala antes da mente”, lembra Esteban. Fadiga persistente, confusão mental, irritabilidade, desconexão emocional, dor constante, ansiedade. Sinais que normalmente normalizamos como “estresse adulto”, mas apontam para algo mais profundo.
“Ninguém alcança esgotamento de um dia para o outro”, alerta. Mas muitos de nós ignoramos os avisos por muito tempo, convencidos de que parar seria uma forma de desistir, quando na verdade, “questionar essas crenças não é um ato de fraqueza, mas de profundo autocuidado”.
Culpa pela parada
Por outro lado, estabelecer limites, descansar ou recusar costuma ser acompanhado de sentimentos de culpa. “Essa é uma emoção muito comum em pessoas que há muito tempo agem de acordo com as exigências de si mesmas”, explica Esteban. Culpa aprendida em uma cultura que idolatra a produtividade e associa o autocuidado à preguiça.
Javier, 52 anos, não conseguia desligar o celular do trabalho nem no domingo. “Sinto que se eu disser não, alguém vai pensar que sou preguiçoso”, disse ele a Angela durante a terapia. A culpa o mantinha sempre disponível, mesmo que seu corpo estivesse exausto. “E se eles precisarem de mim? E se perceberem que não sou tão bom e necessário quanto eles pensam? Pensei.
“É preciso entender que descansar não é um fracasso, impor limites não trai ninguém”, insiste a psicóloga. Mas internalizar isto requer desmantelar normas profundamente enraizadas.
Existe uma saída?
Sair dessa lógica não é fácil e não acontecerá de imediato. “Esta roda foi projetada para ser difícil de sair. Portanto, não é uma questão de falta de vontade ou coragem, mas de estrutura e consciência”, afirma Esteban.
O primeiro passo é parar e nomear o que está acontecendo e assim recuperar a capacidade de ouvir a si mesmo. Pensamentos: “O que está acontecendo comigo?”, “Como estou realmente?”, “O que quero e não posso me dar?” É como desligar o motor por um segundo para parar de ouvir o barulho ao qual você provavelmente já está acostumado.
“Então é hora de explorar possibilidades reais”, afirma a psicóloga. “Há sempre espaço para melhorias: rever tarefas ou prazos, pedir apoio, ajustar expectativas, estabelecer limites, deixar de assumir tarefas que não lhe agradam, diminuir as suas exigências, reintroduzir um hábito que lhe faça bem, respeitar o seu horário pessoal fora do trabalho, etc.”
Esta roda foi projetada para ser difícil de sair. Portanto não é uma questão de falta de vontade ou coragem, mas de estrutura e consciência.
Angela Esteban
– psicólogo
Em suma, segundo a psicóloga e autora, há um trabalho interno importante a ser feito: reconectar-se com necessidades e valores pessoais.
Numa perspetiva coletiva, Santamaria aponta provações como a semana de trabalho de quatro dias ou o trabalho híbrido, embora adverte: “São mudanças operacionais, não alternativas”. Para restaurar verdadeiramente o equilíbrio, “é necessária uma mudança cultural no conceito de trabalho que coloque o valor social acima do valor económico, mas isso requer mudanças profundas em muitas áreas da sociedade”.
Talvez o primeiro passo seja aceitar algo incómodo mas libertador: que, como diz o título do livro de Esteban, “não vamos herdar a empresa” e que talvez nunca devêssemos ter organizado as nossas vidas como se esse fosse o prémio final.