NEu sei sobre você, mas tenho alguns sistemas confiáveis para determinar a qualidade literária de uma obra. Primeiro, não quero que o livro acabe me obrigando a abandonar esta história, que é tão real que me fez relacionar com certos personagens, certas situações, certos cenários.
Outro sistema é ver como, ao terminar a leitura, aquele livro cresce dentro de mim, abrindo-me portas, dando-me sensibilidades e perspectivas que antes me faltavam. E isso acontece ou porque o mundo que ele retrata era até então desconhecido para mim, ou (e esses livros são muito perturbadores) porque revela realidades existentes. Mundos que uma pessoa sabe que existem, mas escolhe não ver. Porque é mais cómodo, porque só de olhar para eles dói e ao mesmo tempo dá origem à consciência.
Você ficará preso em suas páginas, envolto na aura de sofisticação que Marta Robles sempre confere às suas obras.
O romance policial tem o dom de estimular a percepção e abrir portas desconhecidas por meio daquela alquimia que faz da escrita impressa o caminho mais direto para o coração. Ou, o que dá no mesmo, permite viajar aos recantos mais remotos da alma humana.
No romance sobre o qual quero falar com vocês, essas realidades que as pessoas optam por ignorar acontecem em dois momentos diferentes. A primeira, nas décadas de setenta e oitenta do século passado; o segundo está no presente. Quanto à primeira pessoa que não ouviu falar das crianças roubadas? Daquele negócio sinistro em que, desde os anos sombrios do regime de Franco até ao surgimento da democracia (nada menos que a década de noventa), os recém-nascidos foram traficados, tirados às mães, para depois os entregarem à adopção.
Este é um dos temas centrais do livro. Um horror que mudou para sempre o destino de entre 30.000 e 300.000 crianças e seus pais e que permanece impune porque os crimes expiraram sem que nenhum dos perpetradores tenha ido para a prisão.
Como o mal não descansa (só muda de face dependendo do tempo e das circunstâncias), o segundo tema que este romance aborda é muito relevante. Trata-se de crimes cibernéticos, especialmente aqueles que envolvem a manipulação e extorsão de mulheres que, subitamente, vêem a sua privacidade exposta online, com a agravante de que teia escura, O aspecto mais repugnante da Internet são as ferramentas concebidas para evitar a identificação daqueles que lucram com o sofrimento dos outros. O romance de que estou falando se chama Amada Carlota. Garanto-lhe que se você for às suas páginas, cairá na armadilha deles (não estou exagerando). Envolta na aura de sofisticação que Marta Robles sempre confere às suas obras, esta história demonstra, além das duas situações que acabo de delinear, outras, ainda mais cruéis, que não discutirei. spoiler. Só quero dizer que costumam acontecer em nosso ambiente e que a sociedade, mais uma vez, prefere escondê-los debaixo do tapete.
A música também é outro personagem principal deste romance. Haverá quem interprete que a escolha de um determinado tema ajuda a conhecer melhor os personagens, e claro que isso é verdade. Mas eu estava mais interessado em verificar como isso é usado na literatura. Para que um enredo funcione e se desenvolva, ele deve se assemelhar a uma partitura. Literatura é música e tem características próprias. ritmo, que se sucedem e se combinam. Às vezes provérbio, outros e andando, Às vezes Alegro, silêncio às vezes significativo… Então, abaixo Alegreto talvez a tragédia esteja escondida como contraponto, e Andantino Obriga o leitor a descobrir um lado de si mesmo do qual talvez não tenha consciência. Mas, para além de todas estas considerações, o romance – e especialmente o romance policial – é um reflexo preciso da sociedade em que vivemos. É por isso que se tornou um dos gêneros preferidos dos leitores. Porque os melhores deles, como este de que falo agora, têm a virtude de despertar a consciência ao mesmo tempo que divertem e cativam.