fevereiro 1, 2026
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Não creio que Isabel Díaz Ayuso tenha lido o jurista nazi Carl Schmitt, mas a sua estratégia parece inspirar-se na dialética amigo-inimigo, onde a essência da política é perceber o inimigo como uma ameaça existencial. O liberalismo, ideologia que Díaz Ayuso atribui a si mesmo, reconhece o direito de discordar e resolve conflitos ao nível do debate, o que, segundo Carl Schmitt, coloca o Estado numa posição vulnerável. O gênio político vem da capacidade de defender a própria identidade, neutralizando a intrusão de qualquer forma de alteridade. É famoso ou “eles” ou “nós”. Neste conflito, quase sempre criado artificialmente, as tréguas e as negociações são interpretadas como gestos de fraqueza. É por isso que devemos desumanizar os outros, negar-lhes qualquer dignidade e enfatizar que são um perigo para a sociedade. Esta falsa sensação de insegurança é o que tem sido chamado de “estratégia de tensão” e é um dos recursos clássicos das forças políticas autoritárias para obter o apoio público.

Ao chamar os familiares das vítimas da Covid-19 de “uma plataforma de pessoas desiludidas” ou acusar aqueles que levantaram a voz contra o genocídio em Gaza de anti-semitismo e totalitarismo, Díaz Ayuso demonstrou que o seu conceito de política não está inscrito na tradição de Adam Smith, Jeremy Bentham ou John Stuart Mill, mas em dois pilares do autoritarismo antidemocrático: a dialéctica amigo-inimigo de Charles. Schmitt e a estratégia de tensão utilizada durante muitos anos em Itália levaram à ruptura do acordo histórico entre o eurocomunismo de Enrico Berlinguer e o democrata-cristão Aldo Moro. Esta semana soubemos através de um e-mail interno de Carlos Moura, ex-Ministro da Saúde da Comunidade de Madrid, que o governo de Ayuso foi informado de que os edifícios residenciais não estavam a receber cuidados de saúde durante a pandemia. De acordo com um relatório da Comissão da Verdade dos Cidadãos (um painel independente de advogados, médicos e cientistas), pelo menos 4.000 das 7.291 mortes relatadas poderiam ter sido evitadas. E o falecido poderia ter sido poupado da terrível agonia. Considerando que pacientes com planos de saúde privados foram transferidos para os hospitais, este é um caso claro de “recusa de atendimento”. Já sabemos que os juízes, na sua maioria de direita, têm sistematicamente rejeitado as reivindicações das famílias das vítimas, mas ainda há casos abertos em vários tribunais e altos funcionários indiciados, o que nos permite manter a esperança de que a justiça ainda retenha a independência e o compromisso com a verdade, sem os quais seria uma mera pantomima.

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