Laura Fernández, de 39 anos, se tornará a próxima presidente da Costa Rica depois de uma vitória retumbante no primeiro turno das eleições gerais deste domingo. A Justiça Eleitoral afirmou que após um exame cuidadoso de 31,14% dos registros eleitorais, o Partido Pueblo Soberano (PPS), organização política dos presidentes Rodrigo Chávez e Fernández, recebeu 53% dos votos. Além disso, a Costa Rica derrotou neste domingo o espectro que pesa sobre a sua reconhecida democracia: a abstenção de participar nas eleições.
O elevado nível de participação eleitoral nas eleições presidenciais, que ascende a cerca de 66%, indica a mobilização do eleitorado, o que deu uma segunda oportunidade ao projecto político de Chávez. O presidente propõe um modelo de “reimaginação” com maior concentração de poder no Executivo, redução de contrapesos institucionais e reformas constitucionais.
O presidente salvadorenho, Naib Bukele, foi o primeiro a parabenizar Fernández pela vitória. “Acabei de parabenizar por telefone a presidente eleita da Costa Rica, Laura Fernández. Desejo-lhe o maior sucesso em seu governo e tudo de bom ao querido povo irmão da Costa Rica”, disse o presidente de El Salvador.
As eleições de domingo decorreram sem problemas num país habituado a resolver as suas diferenças através do voto. Quando as assembleias de voto abriram às 6 da manhã, formaram-se longas filas que continuaram durante a maior parte do dia. Os eleitores compareceram com entusiasmo e não esconderam a simpatia pelas diversas opções controversas. Nem a chuva fraca que atingiu San José durante a tarde nem a queda da temperatura desencorajaram os eleitores: as filas persistiram até o fechamento dos locais de votação e, no final da noite, milhares de pessoas saíram às ruas em caravanas carregando bandeiras dos partidos. O som das buzinas marcou o fim do dia das eleições, trazendo mais uma vez ao palco o orgulho profundamente enraizado da Costa Rica pela sua democracia.
Vitória no primeiro turno confirma capacidade chavismo capitalizar a agitação social que se acumulou ao longo de mais de uma década, embora isso não conduza necessariamente ao controlo total do poder institucional, afirma Alberto Cortes, coordenador do Departamento da América Central da Universidade da Costa Rica.
Esta confortável vitória abre as portas a um governo sem controlos e equilíbrios, capaz de harmonizar a Assembleia Legislativa, pressionar o poder judicial e até impulsionar reformas estruturais como a reeleição contínua do presidente, atualmente proibida no país, afirma o especialista. O resultado das eleições para o Congresso ainda está para ser visto.
Neste contexto, o novo governo enfrentará um duplo problema, acredita o especialista. Por um lado, tentar fazer avançar uma agenda de reforma governamental, austeridade fiscal e cortes de emprego no sector público, medidas que intensificam previsivelmente o conflito social e a mobilização dos cidadãos, que têm sido historicamente um contrapeso importante na Costa Rica. Por outro lado, gerir a complexa relação entre a Presidente eleita Laura Fernández e o Presidente cessante Rodrigo Chávez, cuja figura foi central na campanha eleitoral e cuja popularidade supera a do seu sucessor.
Embora Fernández tenha sido apresentado durante a campanha eleitoral como sucessor direto de Chaves, há sinais de tensão interna no bloco governante. A experiência comparativa e as tradições nacionais sugerem que é possível que o novo presidente, uma vez no poder, tente construir a sua própria identidade e autonomia política.
Subjacente a esta vitória oficial está uma profunda transformação da cultura política da Costa Rica: o agravamento da mobilidade social, o aumento das disparidades territoriais, a erosão dos partidos tradicionais e a ligação persistente entre a política e a corrupção. Este terreno fértil promoveu o surgimento de lideranças conflituosas e anti-sistema. Com o partido no poder já no poder, começa outra etapa: a de medir até que ponto pode governar sem maioria e até que ponto da turbulência que levou à sua vitória pode realmente resolver.
A Costa Rica encerrou este domingo as suas eleições presidenciais, confirmando algo mais do que apenas uma mudança de governo: a entrada definitiva do país num outro ciclo político, marcado pela erosão das identidades tradicionais, pela polarização e pela mobilização de queixas que fervilham sob a superfície há anos.
“Assistimos a uma profunda transformação das identidades, uma tentativa de uma marca que abre decididamente o seu campo, tentando deslocar as tradicionais”, explica Ronald Alfaro, coordenador do Centro de Pesquisas e Estudos Políticos (CIEP) da Universidade da Costa Rica. Na sua opinião, o ponto chave agora será medir a profundidade desta reestruturação com base nos resultados das eleições e, sobretudo, na formação da Assembleia Legislativa. “Disso dependerá a possibilidade ou impossibilidade de mudanças significativas no sistema político”, alerta.
A Costa Rica, que durante décadas foi apresentada como a democracia excepcional da região, tem mostrado sinais claros de deterioração institucional e agitação social há pelo menos uma década. “Dissemos em 2016 que havia uma forte base de descontentamento que não foi expressada. Hoje, essa oportunidade existe e atrai todos os “antis”, diz Alfaro, que enfatiza a influência das tendências internacionais e das lideranças de “sangue frio” na canalização desta raiva eleitoral.
Segundo Mario Quiros, analista político e ex-assessor do Partido da Libertação Nacional (PLN), há mais em jogo do que nos próximos quatro anos. “Estamos num ciclo de transição que ainda não foi totalmente processado e está agora a ser determinada a saída do país para os próximos anos”, afirma. O desafio, acrescenta, não é apenas vencer, mas governar o país sem aprofundar as divisões sociais, num contexto de desconfiança, polarização e diálogo público cada vez mais duro.
Quiros alerta para riscos democráticos que não estão necessariamente associados a uma figura específica, mas sim ao sistema. “Uma maioria absoluta perde a parte da democracia que envolve negociar e chegar a acordos”, argumenta. A campanha deixou imagens reveladoras dessas tensões: em um dos episódios mais comentados, o presidente Rodrigo Chávez respondeu com gestos provocativos – mostrando a língua e mandando beijos – aos manifestantes que gritavam “Fora Chávez!”, cartão-postal do confronto que agora ocorre na política costarriquenha.