fevereiro 14, 2026
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A relação contratual entre o Estado uruguaio e o estaleiro galego Cardama está no seu ponto mais delicado desde a adjudicação do contrato do programa de navios patrulha oceânicos. O Executivo confirmou a intenção de rescindir o contrato de construção de duas unidades OPV 87 para a Frota Nacional, decisão baseada em relatórios técnicos e na presença de indícios que as autoridades consideram graves.

Segundo dados oficiais, o Uruguai já pagou cerca de 30% do valor total do contrato para as fases de construção. Investimentos anteriores, estimados em cerca de 30 milhões de dólares, não impediram o governo de questionar a viabilidade do projeto e a validade jurídica do acordo assinado com a empresa espanhola.

O contrato está sob suspeita desde o momento em que se origina

A emissão do programa OPV foi controversa nas suas fases iniciais. A Frente Ampla, hoje no poder, já havia manifestado sua oposição quando estava na oposição, citando dúvidas sobre o processo e a estrutura financeira apresentada pela incorporadora.

A situação agravou-se após a recusa de uma garantia de boa-fé de 4,2 milhões de euros emitida através de uma empresa britânica que mais tarde se descobriu não existir. Kardama alegou ter sido vítima de fraude, mas o episódio enfraqueceu a confiança institucional no contrato.

Garantias financeiras no centro do conflito

Posteriormente, o foco mudou para uma segunda garantia de 8,2 milhões de euros, alegadamente fornecida por uma companhia de seguros americana. Embora o governo uruguaio acreditasse que a referida política não atendia aos requisitos exigidos, sua plena vigência e validade foram defendidas pelos estaleiros vizinhos.

Estas inconsistências técnicas e jurídicas acabaram por criar um ambiente de desconfiança que se desenvolveu no atual cenário de rescisão contratual, cujas consequências ainda são difíceis de mensurar.

Atrasos técnicos e etapas perdidas

Além das garantias, o desenvolvimento industrial do projeto começou a dar sinais de atraso. O contrato estabeleceu uma série de marcos relacionados ao andamento da construção, cuja confirmação permitiu ao Estado efetuar novos pagamentos.

Um dos momentos críticos foi o terceiro marco associado à obtenção dos motores principais da Caterpillar. A mudança deveria estar concluída em dezembro de 2025, mas não pôde ser certificada, bloqueando um pagamento adicional de oito milhões de euros.

Impacto no cronograma de entrega

O cronograma original previa a entrega da primeira viatura patrulha 18 meses após o primeiro pagamento, prazo que deveria ser cumprido em meados de 2026. A ausência de componentes-chave e a incapacidade de confirmar as realizações técnicas lançam dúvidas sobre o cumprimento desta data.

Embora o contrato forneça um valor para a quantidade de atrasos permitidos por motivos de força maior, o Governo entende que os atrasos acumulados ultrapassam esses limites e afectam directamente o objectivo estratégico do programa.

Escalada política e caminho judicial

A decisão de rescisão não se limita à esfera administrativa. O estaleiro já iniciou ações judiciais e o Uruguai se prepara para um processo que poderá levar a uma arbitragem internacional caso uma solução não seja alcançada localmente.

O contrato estabelece que os tribunais uruguaios são competentes em matéria jurídica e a supervisão técnica está de acordo com a sociedade classificadora Lloyd's Register. Em caso de desacordo, o conflito pode escalar para o Tribunal de Arbitragem Internacional da Câmara de Comércio Internacional.

O papel da auditoria externa

Paralelamente, o poder executivo solicitou à empresa internacional Bureau Veritas que apresentasse um relatório independente para apoiar a sua posição. Este documento, segundo fontes oficiais, já estará nas mãos do governo e servirá de base técnica para a tomada da decisão final.

Kardama, por outro lado, insiste que o trabalho nunca parou e que todos os progressos foram testados e certificados de acordo com padrões internacionais.

Projeto estratégico suspenso

A possível quebra de contrato vai além de um conflito comercial. Os navios patrulha oceânicos destinavam-se a melhorar o controle e a vigilância do Uruguai sobre o seu vasto espaço marítimo, que é fundamental para a proteção dos recursos naturais e o exercício da soberania.

A liderança do Ministério da Defesa tem repetidamente enfatizado que a superfície marítima do país excede o seu território terrestre, o que requer meios adequados de vigilância, monitorização de actividades ilegais e protecção de interesses estratégicos.

Com o programa OPV suspenso, o Uruguai enfrenta agora o desafio de rever a sua estratégia naval, avaliar novos fornecedores ou reiniciar o processo de contratação, tudo num contexto de tensões políticas e possíveis litígios internacionais.

A decisão final sobre o contrato de Kardama estabelecerá um precedente apropriado para futuros programas de defesa e para o relacionamento da nação com a indústria naval internacional, numa altura em que a presença marítima se tornou central para a agenda de segurança nacional.

Referência