novembro 30, 2025
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O debate sobre o aumento do imposto especial sobre produção e serviços (IEPS) no México colocou a cooperativa Pascual no centro dos debates financeiros e sociais. Embora o governo de Claudia Sheinbaum afirme que o aumento de impostos visa reduzir o consumo de açúcar e melhorar a saúde pública, a cooperativa alerta que a mudança pode ameaçar a sua liquidez e viabilidade, o emprego dos seus trabalhadores e a cadeia de valor que sustenta centenas de famílias.

O governo defende o IEPS como um imposto “saudável” para enfrentar problemas de saúde pública como diabetes e obesidade. Porém, especialistas questionam sua real eficácia e alertam sobre possíveis consequências.

Dra. Elba Jiménez Solares, coautora do livro Imposto sobre bebidas açucaradas: a regulamentação atual do IEPS é eficaz, consistente e atende ao seu objetivo extra-orçamentário? um estudante de pós-graduação da Faculdade de Estudos Superiores de Acatlán, UNAM, explica a este jornal que o problema de saúde se resolve não só através de um imposto, mas também através de estratégias integrais que incluam alternativas à alimentação saudável e à educação da população.

O que exige a cooperativa Pascual?

No centro do debate sobre o aumento do IEPS para bebidas açucaradas está a Cooperativa Pascual, empresa líder no setor mexicano de refrigerantes. Fundada no final da década de 1930, a empresa enfrentou uma greve decisiva em maio de 1982, quando o então proprietário se recusou a cumprir os aumentos salariais. Após um longo conflito, os trabalhadores conseguiram transformar a empresa numa cooperativa, uma associação autónoma e voluntária na qual reuniram os seus recursos.

A cooperativa produz sumos e refrigerantes a partir de frutas naturais e de cana-de-açúcar de origem mexicana, o que, segundo eles, acaba por criar uma desvantagem económica em comparação com as grandes empresas de refrigerantes que utilizam xaropes com alto teor de frutose, um adoçante que é até 40% mais barato. Por isso, Pascual exigiu um regime tributário diferenciado que lhe permitisse manobrar contra o aumento de impostos.

Assim, propõe manter o atual IEPS de P1,64 por litro para produtos produzidos a partir de recursos naturais e nacionais em empresas que criam empregos formais nas comunidades.

A cooperativa argumenta que aumentar o preço final das suas bebidas em mais de três pesos por litro afetará seriamente a sua competitividade, já que afirma ter apenas 2% do mercado mexicano de refrigerantes, em comparação com 98% dominado por gigantes como Coca Cola e Pepsi.

O que diz o governo Sheinbaum?

A presidente Claudia Sheinbaum confirmou sua simpatia por Pascual. Durante uma conferência matinal no dia 7 de novembro, a presidente disse que seu governo “ama muito a cooperativa” e que iniciarão negociações para aumentar o imposto.

A partir daí foram anunciadas mesas de diálogo entre o Ministério das Finanças, o Ministério da Saúde e a cooperativa para analisar alternativas. No entanto, Jimenez Solares acredita que é pouco provável que o governo altere a legislação tributária, uma vez que a resolução sobre o orçamento de gastos federais já prevê isso com previsões de arrecadação de impostos.

Ele também alerta que se o governo abrir a porta para mudanças na lei, poderá fazer com que outras empresas queiram fazer lobby.

Por que o IEPS está sendo revisado?

O IEPS tributa itens como álcool, tabaco, bebidas açucaradas ou alimentos não essenciais com alto teor calórico, alimentos que o governo considera não essenciais e cujo consumo procura desencorajar.

No México, o IEPS para bebidas açucaradas começou em 2014 com uma taxa de um peso por litro. No entanto, o governo anunciou um aumento do imposto sobre bebidas com adição de açúcar de P1,64 para P3,08 por litro a partir de 2026. Além disso, pela primeira vez o imposto será aplicado a bebidas leves e com zero teor de açúcar.

O ajuste ocorre num país onde uma pessoa média bebe 166 litros de refrigerantes por ano e onde um em cada três novos casos de diabetes açúcar Segundo o Ministério da Saúde, isso se deve ao consumo de bebidas açucaradas.

Em tese, a medida visa conter preocupações com a saúde pública. No entanto, Jiménez Solares observa que de 2014 até hoje, apenas durante o primeiro ano o imposto sobre as bebidas açucaradas reduziu o consumo da população, mas de 2015 a 2025 aumentou.

O Panorama da Saúde confirma isso. Segundo o INEGI, em 2024 a diabetes mellitus açúcar É a segunda principal causa de morte no México, com mais de 112.600 mortes, e quatro em cada 10 crianças e adolescentes em idade escolar vivem com sobrepeso e obesidade, segundo um estudo apresentado em junho pelo Ministério da Educação Pública (SEP).

Imposto sem garantia de melhor saúde

Outra grande preocupação com os aumentos de impostos é a falta de clareza sobre a finalidade da receita. Jiménez Solares observa que o orçamento de gastos não possui uma rubrica dedicada a programas de prevenção de diabetes ou obesidade e que não se sabe se os recursos recebidos podem realmente ser usados ​​para combater problemas de saúde pública.

“O problema de saúde não pode ser resolvido apenas com impostos”, alerta. “Se quisermos acabar com a obesidade e a diabetes, precisamos de criar políticas abrangentes de acesso à educação alimentar e a alimentos saudáveis ​​e acessíveis”, conclui.

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