novembro 30, 2025
BVAT4QVMHZDHLIYGX7MOZQAWCM.jpg

O Congresso peruano aprovou uma lei que retira o género de todas as políticas públicas do país. Além disso, substitui a educação sexual abrangente atualmente ensinada nas escolas por uma educação “com base científica, biológica e ética”. A nova norma, promovida pela congressista ultraconservadora Milagros Jauregui, estipula que qualquer menção à integração da perspectiva de género, igualdade de género ou termos semelhantes deve ser entendida como “uma abordagem de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres”.

Segundo organizações feministas, que emitiram vários comunicados tentando impedir a decisão, este é um fracasso de quase 20 anos de trabalho para prevenir a violência sexual, a igualdade de género e a não discriminação no país. Especialmente num país onde a violência contra raparigas e mulheres continua inabalável: até Outubro de 2025, os Centros de Emergência para Mulheres trataram mais de 18.000 casos de violência sexual contra raparigas e adolescentes; e este ano, de acordo com o registo de certidões de nascimento vivo, 850 crianças com menos de 14 anos tornaram-se mães.

A decisão foi aprovada pelo Congresso com 78 votos a favor e excluída de segunda votação em plenário. A nova Lei da Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens altera a abordagem transversal à igualdade de género em todos os documentos de gestão de todas as instituições governamentais, tais como regulamentos, programas governamentais, o conteúdo da educação, dos cuidados de saúde ou da justiça.

“A mudança não é apenas uma modificação de termos”, explica Yvonne Yupanqui, advogada e especialista em género, mas “a eliminação de tudo o que o género implica”: compreender as diferenças e desigualdades entre homens e mulheres a partir de uma perspectiva social e cultural, e não apenas biológica. “Existe uma construção social e uma estrutura de desequilíbrio de poder que historicamente causou discriminação contra as mulheres”, observa ela.

A lei que a nova decisão pretende alterar foi uma das maiores conquistas do movimento feminista há duas décadas, lembra Rocío Gutiérrez, diretora da organização de Manuela Ramos, que trabalha no Peru há quase 50 anos. “Foi adotado um padrão de alto nível que reconheceu o gênero como uma estrutura conceitual para a compreensão de que existem estruturas socioculturais que vão além da biologia humana”, afirma. Inúmeras políticas governamentais, como a Política Nacional de Igualdade de Género, o Plano Nacional de Combate à Violência contra as Mulheres e até a criação e orientação do Ministério dos Assuntos da Mulher, basearam-se nesta lei.

Gutiérrez esclarece que a política “se baseia numa abordagem de género, pois reconhece que as mulheres, num contexto de desigualdade, têm necessidades e exigências que devem ser tidas em conta, pois criam desvantagens e perdas de oportunidades”. Programas para prevenir a gravidez na adolescência ou reduzir a mortalidade materna fazem parte destas conquistas.

Sem uma perspectiva de gênero, alerta, o assassinato de uma mulher pode ser retratado como um crime passional e a gravidez na adolescência como um erro individual. “As raízes estruturais da violência contra as mulheres são desconhecidas e podemos recorrer às explicações mais retrógradas”, observa. Além disso, alerta, esta regulamentação deixa a comunidade LGBTI+, historicamente discriminada, completamente desprotegida. “Regressaríamos às explicações biológicas que pudessem apoiar a prática ou o tratamento da reconversão. Poderíamos raciocinar da mesma forma que raciocinamos há 50 anos”, questiona-se.

Avanço “para os cristãos”

Após a aprovação da norma no Congresso, a deputada Jauregui disse ao Bethel Noticias: “Esta é uma vitória para todos os cristãos e todos aqueles que defendem a vida e a família”. E acrescentou: “Estamos de volta ao início. Voltamos anos como se isso nunca tivesse acontecido. Esta é uma grande vitória.”

Nos últimos dois anos, o Congresso promoveu projetos de lei que, segundo organizações especializadas, violam os direitos de mulheres e meninas: uma tentativa de mudar o nome e o foco do Ministério da Mulher ou uma proposta para eliminar o feminicídio como crime independente, e outros. Jauregui e seu partido Renascimento Popular foram os principais propagandistas. Quanto à deputada, Gutierrez observa: “Ela insistiu em ser uma máquina de aprovação de leis antilegais; mas não está sozinha: há um grupo significativo de parlamentares associados a facções conservadoras, igrejas evangélicas e adventistas, e grupos políticos com influência no Congresso”. A própria deputada Jauregui é pastora da igreja.

Estas iniciativas também visaram enfraquecer a educação sexual abrangente (CSSE) nas escolas, e a Nova Lei de Oportunidades de Género inclui esta mudança. A norma substitui o ESI pelo que chama de “educação sexual científica, biológica e ética”. O objetivo, nas palavras da própria deputada, é que “as crianças possam ir à escola para aprender cientificamente, moralmente, mas não ideologicamente”.

Este é um dos pontos mais sensíveis da nova lei, alertam os especialistas, pois contraria uma educação integral e de qualidade. O ESI aborda o conhecimento corporal e a autonomia, o consentimento, explica diferentes formas de violência e como pedir ajuda fora das relações sexuais. Sem essa formação, alertam, as meninas ficam desprotegidas: “Quando este problema não é falado, cria-se um terreno fértil para adultos, potenciais agressores, que podem aproveitar-se desta situação e abusar de meninas e adolescentes”, afirma Yupanqui. A nível nacional, uma em cada quatro raparigas com menos de 12 anos afirma ter sido abusada sexualmente quando crianças, de acordo com o Inquérito Nacional de Atitudes Sociais.

Uma vez aprovada uma norma pelo plenário do Congresso, o Poder Executivo tem um prazo para promulgá-la ou cumpri-la e solicitar alterações. No entanto, o Congresso pode aprová-lo por sua própria insistência se obtiver a maioria necessária. Manuela Ramos alerta que a nova lei não só é inconstitucional porque revoga uma série de políticas governamentais, mas também não reconhece as normas e acordos internacionais assinados pelo Peru em relação aos direitos das mulheres e às políticas de igualdade. “Isso não é apenas um retrocesso de décadas para a sociedade, mas também uma inaplicabilidade”, afirma o diretor da entidade.