novembro 30, 2025
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Hoje, quando chega o último dia de novembro, a sensação de orfanato, de vazio, de centrifugação no esterno dos sevilhanos, não sei se são poucos ou se são apenas reservados, que se sentem viciados nestes trinta dias, que na próxima meia-noite se dissolverão para sempre em o limbo nebuloso de ontem. Aguardávamos ansiosamente a sua chegada tanto quanto agora lamentamos a sua partida. Novembro, o Novembro de Sevilha do primeiro frio, do pôr-do-sol precoce, do verde recém-nascido cobrindo o castanho da terra arrasada, e o azul sonoro do céu depois da noite tempestuosa ter passado e nunca mais voltará. Sentindo isso, a alma sentiu o doce amargor da saudade. A saudade de casa é a maneira mais agradável de se sentir triste. E este prazer em Sevilha, como disse o poeta Rafael Montesinos, costuma ser desfrutado com antecedência. Sentimos nostalgia daquilo que ainda não vivemos; que um dia irá embora, embora ainda não tenha chegado; sobre algum tempo passado que lembramos sem saber, e até sobre o presente, que logo passará. Como acontecerá a Novembro, que hoje parte e leva consigo, não sei se é a alma de Sevilha, mas aceita o seu segredo mais profundo; o que outro poeta, Manolo Garrido, chamava de magia e identificava com o charme sutil de pequenos milagres que só as almas sensíveis podem apreciar, como uma folha de grama crescendo nos vazios da calçada. Novembro é um exemplo das muitas sutilezas que a cidade guarda na alma; todos aqueles pequenos detalhes – indefiníveis e às vezes inestimáveis ​​- que fazem dele o que é: um lugar que as palavras talvez ainda não tenham sido inventadas para descrever com precisão; talvez seja por isso que o estereótipo persiste e o clichê se torna redundante quando o objetivo ingênuo de explicá-lo é empreendido. Algum dia teremos que admitir nosso desamparo e finalmente desistir de explicar coisas que não podem ser explicadas. Sevilha é sem dúvida um deles. Novembro termina, uma sombra se aproxima da parede e ouve-se o som das horas que passam. É chamado de mês dos mortos. Mas Novembro em Sevilha é algo muito mais sério do que aquela triste caricatura. Muito mais que o falecido; este Dom Juan e Dona Inês; que a Osteria del Laurel e o fantasma da Capela de San Onofre; que o novo mosto vem de Umbrete e Venta de los Gatos; que os ossos do santo e a espada de São Fernando; do que Halloween Pichardo e barracas de castanhas; do que um beijo na mão. A amargura e o incenso da procissão do Amparo, a neblina misteriosa no frio da noite de outono. Novembro é a quintessência do laço chamado Sevilha. Atravessar o espesso véu de seus segredos leva ao mistério insolúvel de uma cidade indefinível. Mas hoje é o último dia. Sua página do almanaque, já amarelada e seca, está prestes a ser levada pelo vento e enredada nas folhas que se acumularam na parede. No túmulo de novembro, uma alegre coroa do Advento anuncia a aproximação do Natal. Novembro está morrendo; e sua despedida para sempre. Quando eu voltar no próximo ano, nenhum de nós será o mesmo.

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