novembro 30, 2025
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Há peixes que merecem prestígio pela sua raridade, e há outros que o merecem pela sua consistência. O arenque pertence a este último grupo: modesto, abundante, nutritivo e capaz de alimentar metade do mundo durante séculos. Sua silhueta prateada cruzou as águas O Atlântico Norte e o Mar do Norte têm uma longa história e a sua influência vai muito além da mesa. O arenque foi um motor económico, uma causa de guerra e, acima de tudo, um alimento básico que permitiu que cidades inteiras sobrevivessem em tempos de escassez.

Peixe com história

Antes do advento dos congeladores e das rotas comerciais globais, o arenque era sinônimo de sobrevivência. A sua abundância nos mares do norte da Europa e a sua facilidade de salga, defumação ou decapagem tornaram-no um alimento básico durante a Idade Média. Os noruegueses, holandeses, dinamarqueses e britânicos construíram as suas frotas com base neste peixe, que era também moeda e fonte de impostos.

Os cronistas do século XV já falavam de uma “febre do arenque”, comparável em certa época à corrida do ouro. As cidades portuárias floresceram devido ao comércio e a sua presença na dieta europeia consolidou-se como símbolo da cozinha popular. Em Espanha, o arenque salgado, embora menos conhecido que a sardinha ou a anchova, fazia parte das receitas tradicionais da Quaresma e das humildes mesas domésticas, onde era trazido em barricas e armazenado durante meses.

Da comida popular aos peixes icônicos

Com o tempo, o arenque foi substituído no mercado por espécies mais valiosas, mas nunca desapareceu. Nos países nórdicos da Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia, continua a ser um ingrediente diário encontrado em saladas, sopas e celebrações tradicionais. A versão mais famosa, arenque em conserva ou arenque, é servida com batata cozida e creme de leite e faz parte integrante da identidade gastronómica escandinava.

Hoje, o arenque está passando por um renascimento discreto graças à reavaliação dos peixes oleosos e dos alimentos ricos em ômega-3. Nutricionistas e chefs estão redescobrindo o que nunca deixou de ter: um equilíbrio quase perfeito entre sabor, sustentabilidade e saúde.

Valor nutricional do arenque

Por baixo da sua carne firme e brilhante encontra-se uma fonte excepcional de ácidos gordos ómega 3 – aquelas gorduras saudáveis ​​que o corpo humano não consegue produzir por si só. O arenque contém até dois gramas de ômega-3 por 100 gramas de produto – um valor comparável ao do salmão e ainda maior. Esses ácidos graxos são essenciais para a saúde cardiovascular, ajudam a regular os níveis de colesterol e triglicerídeos e têm efeitos antiinflamatórios comprovados.

Além disso, o arenque contém proteínas de alto valor biológico com todos os aminoácidos essenciais e quantidades significativas de vitamina D, essencial para a saúde dos ossos e do sistema imunológico. Também é rico em vitamina B12, selênio, fósforo e ferro – minerais necessários ao bom funcionamento do metabolismo.

Ao contrário de outros peixes gordurosos, o arenque normalmente contém baixos níveis de mercúrio devido ao seu pequeno tamanho e curto prazo de validade, o que o torna uma opção segura e recomendada mesmo para crianças e mulheres grávidas.

Entre o mar e a ciência

O interesse científico pelo arenque aumentou nos últimos anos. Vários estudos classificam-no como um dos alimentos para peixes oleosos mais completos, com um perfil de gordura ideal para reduzir o risco de doenças cardiovasculares e melhorar a função cognitiva. Seus lipídios atuam na membrana dos neurônios para promover a transmissão de sinais no cérebro e proteger contra o declínio cognitivo associado ao envelhecimento.

A presença de antioxidantes naturais como a astaxantina, pigmento que confere tonalidades rosadas ou douradas, também tem despertado interesse na área de nutrição preventiva. Este carotenóide, presente no plâncton consumido pelo arenque, atua como uma barreira contra o estresse oxidativo celular.

Saboreie com caráter

Embora o seu nome muitas vezes evoque imagens de peixe salgado ou forte, o arenque fresco tem uma carne tenra, saborosa e de textura firme. Na cozinha mediterrânica pode ser grelhado, assado ou marinado, mantendo as suas propriedades benéficas e riqueza de sabor.

As versões fumadas ou em conserva, populares no Norte da Europa, retêm a maior parte dos seus nutrientes, embora com maior teor de sal. Nos últimos anos, os chefs espanhóis começaram a reinterpretar o arenque de uma forma moderna: na torrada de abacate, no tártaro, nos croquetes ou como ingrediente em pratos de arroz de marisco. Esta é uma forma de conciliar tradição e modernidade, de devolver prestígio a um produto que nunca deixou de ser valioso.

Arenque e desenvolvimento sustentável

Numa época de crise climática e de sobrepesca, o arenque representa um exemplo de equilíbrio ecológico. As suas pescarias, reguladas e geridas com base em critérios científicos na maioria das pescarias do Atlântico Norte, são consideradas entre as mais sustentáveis ​​do mundo. São peixes abundantes, de crescimento rápido e com baixo impacto ambiental, reforçando o seu papel como alternativa responsável a espécies mais stressadas, como o atum ou o salmão de viveiro.

Em Espanha, alguns projetos piscatórios e gastronómicos começam a apostar no consumo responsável, promovendo o arenque como um peixe azul local com grande potencial culinário e ambiental. Seu baixo custo e versatilidade também o tornam um aliado no combate à insegurança alimentar.

Entre o passado e o futuro

O arenque não é apenas comida; É uma testemunha do tempo. A sua história resume a evolução da relação entre as pessoas e o mar: da subsistência à indústria, da necessidade à consciência.

Hoje, numa era de descobertas gastronómicas, o arenque apresenta-se como símbolo de sobriedade sensata: um peixe humilde que oferece o que muitos pratos da moda prometem, mas sem a artificialidade. É nutritivo, acessível e amigo do ambiente.

Talvez seja por isso que volta a ocupar um lugar de destaque nos mercados do Norte e em alguns portos do Sul. Dentro de cada filé de arenque existe uma história de resistência, uma lição de nutrição natural e um lembrete de que às vezes o luxo reside na simplicidade.