O mergulho recreativo em Espanha vive um período de expansão. O que há dez anos era uma actividade sazonal de férias associada à época de verão tornou-se agora num sector com enorme potencial de desenvolvimento económico. De acordo com o estudo “Global … Efeito económico do turismo de mergulho”. O turismo de mergulho recreativo em todo o mundo vale entre 8,5 mil milhões de dólares e 20,4 mil milhões de dólares anualmente, com uma estimativa de mais de 120.000 empregos diretos criados. A economia azul, conceito que integra atividades sustentáveis ligadas ao mar, já representa 1,3% do PIB global e poderá duplicar dentro de uma década, segundo Relatório 2024 da União para uma Economia Azul Sustentável no Mediterrâneo. Neste contexto, o mergulho recreativo é uma das indústrias com maior potencial de crescimento. Com 7.900 quilómetros de costa e mais de mil centros de mergulho, Espanha pretende conquistar uma quota crescente deste mercado global.
“O cálculo é simples: um mergulhador gasta em média 250 euros por dia e costuma ficar mais dias no destino do que o turista médio”, explica Francisco Salado, presidente do Turismo da Costa del Sol. “Se a oferta for diversificada em atividades marinhas de elevado valor”, continua, “como a fotografia subaquática, a arqueologia, a conservação ou a formação técnica, os rendimentos podem aumentar sem aumentar a pressão sobre o território. “Existem tesouros debaixo das nossas águas que devemos cuidar e valorizar.”
A Andaluzia e as Ilhas Canárias lideram esta estratégia em Espanha. Com o apoio do Conselho Provincial de Málaga e do Cluster Marítimo da Andaluzia (CMMA), esta comunidade lançou em 2024 o chamado “Caminho Azul”, um plano que liga portos, reservas naturais e pontos de mergulho com tecnologia de geolocalização e narração digital para “contar o mar através de dados e sensibilidade. A tecnologia permite-nos contar a história natural e cultural dos nossos activos de uma forma acessível e segura”, explica Javier Noriega, Presidente da CNMA. As Canárias, por seu lado, promovem desde 2023 um programa de Turismo de Experiência cujo principal produto é o mergulho. O programa promove centros de mergulho, percursos subaquáticos e eventos que destacam a biodiversidade marinha e os estratos vulcânicos do arquipélago.
Desenvolvimento sustentável
Do ponto de vista empresarial, a sustentabilidade se transforma em uma vantagem competitiva. Certificações verdes como a ISO 14001 ou os Selos de Mergulho Responsável promovidos pela ABRE (Associação Espanhola de Mergulho Recreativo) e FEDAS (Federação Espanhola de Atividades Subaquáticas) abrem o acesso a subsídios e atraem turistas mais conscientes. A investigação da Turespaña confirma que 69% dos viajantes europeus preferem destinos com políticas ambientais ativas.
A tecnologia está permeando grande parte das ofertas do setor. Garrafas de controle integradas, iluminação LED ou embarcações híbridas reduzem o consumo de energia e os custos operacionais, aumentando a rentabilidade. Computadores de mergulho inteligentes capazes de calcular automaticamente o perfil do mergulho, o fluxo de gás ou a descompressão segura são agora um item de uso diário. Os novos modelos apresentam telas OLED, conectividade Bluetooth e sensores de pressão ou temperatura. “O mergulho está a passar por uma revolução silenciosa”, afirma Marc Mayoral, chefe da divisão de desportos aquáticos do grupo HEAD na Península Ibérica. O equipamento é mais leve, conectado e estável. “O usuário não busca mais apenas emoções, mas também informação e segurança.” Soma-se a esta tendência o desenvolvimento da realidade aumentada subaquática, que permite a sobreposição de dados sobre a fauna, rotas ou naufrágios durante um mergulho, bem como sistemas de monitorização biométrica que medem a frequência cardíaca ou a saturação de oxigénio. A inovação também está a chegar à superfície, com drones e ROVs a ajudar a planear mergulhos e a registar impactos ambientais.
O setor movimenta entre US$ 8,5 e US$ 20,4 bilhões anualmente em todo o mundo.
A digitalização chegou aos centros e escolas, que agora podem modernizar a sua gestão com plataformas como Bloowatch ou Diviac, que integram reservas, manutenção de equipamentos, controlo de seguros e registos digitais de mergulhadores. A digitalização reduz tarefas administrativas e melhora a rastreabilidade: segundo a ABRE, centros que implementam software de gestão reduzem custos em até 25% e aumentam a fidelização de clientes.
O movimento das startups também encontrou terreno fértil na economia azul. Em Cádiz, o Buceo Conciencia, criado pela Incubazul, combina turismo e ciência: organiza mergulhos colectivos em toda a Espanha para registar dados de biodiversidade e sensibilizar para a conservação marinha. Na Catalunha, a BlueForce Academy oferece treinamento aprofundado em manutenção de equipamentos digitais, gerenciamento de dados de mergulho e protocolos de emergência. Os seus cursos, em formato híbrido (teoria online e prática presencial), antecipam o futuro da formação subaquática. Na área da tecnologia, a Marine Vision SL, com sede em Almeria, desenvolve sistemas ópticos e de comunicação para mergulho profissional e recreativo. Os seus sensores de visão subaquática permitem mapear o fundo do mar e avaliar o estado dos prados ou recifes.
Todos eles têm um denominador comum: inovação no mar e modelos de negócio sustentáveis. Este é também o objetivo do cluster Incubazul: promover start-ups e iniciativas inovadoras relacionadas com o mar e os recursos marinhos, como as energias marinhas renováveis, a biotecnologia azul, o turismo sustentável, a pesca inteligente e a gestão costeira. Este cluster, dependente da Zona Franca de Cádiz, faz parte do programa Incubadoras de Alta Tecnologia promovido pela Fundação Incyde e cofinanciado pelos Fundos Federais da União Europeia, e já atraiu mais de 60 projetos empreendedores relacionados com energia marinha, turismo costeiro, biotecnologia ou tecnologias de vigilância oceânica.
Dados marítimos
A digitalização também cria um novo ativo: os dados marítimos. Cada mergulho gera informações sobre temperatura, visibilidade, fauna, correntes ou impacto ambiental. Estes dados, processados de forma agregada, podem ser utilizados para gestão de reservas, previsão de riscos ou investigação científica. “O futuro do mergulho é orientado por dados”, afirma Josep Luis Massuet, presidente da ABRE. “Podemos transformar cada mergulho num ponto de observação útil para a ciência e a segurança, garantindo sempre a confidencialidade e a qualidade do registo.”
Turistas mergulhadores gastam mais de 250 euros por dia e ficam mais tempo no destino
O mergulho recreativo requer o envolvimento de especialistas especializados: instrutores, guias, técnicos, operadores de barco, fotógrafos ou engenheiros de manutenção. Em Espanha cria mais de 5.000 empregos diretos e milhares de empregos indiretos, com forte sazonalidade mas com crescente profissionalização. A digitalização está expandindo o espectro da força de trabalho. São necessários novos perfis – desde analistas de dados marinhos a criadores de software de mergulho – contribuindo para o desenvolvimento do segmento azul de empregos altamente qualificados.
As startups também estão contribuindo para esse aprendizado. A BlueForce Academy treina instrutores de gestão digital; Diving Conscience ensina ciência cidadã marinha; e a ABRE promove programas de renovação de segurança e sustentabilidade.
Apesar do seu potencial, o setor enfrenta desafios estruturais. As empresas exigem regras uniformes entre comunidades autónomas e mais apoio financeiro para a modernização de equipamentos. O investimento inicial em tecnologia continua elevado e a concorrência de atividades de lazer mais baratas exige uma melhor comunicação do valor acrescentado do mergulho. A profissionalização também é fundamental. “A segurança depende tanto do equipamento como da formação”, explica Massuet. “Precisamos de padrões claros e reconhecidos para que os turistas internacionais saibam o que esperar.”
Pilar do Turismo
Na economia azul, o mergulho recreativo é mais do que uma aventura subaquática: é um laboratório de inovação, um gerador de empregos qualificados e uma ferramenta para a conservação ambiental. O fundo marinho de Espanha oferece a combinação perfeita de biodiversidade, património e ligações tecnológicas. Se o setor reforçar a sua profissionalização e atrair investimentos para continuar a inovar, poderá tornar-se um dos pilares de um futuro turístico sustentável. Como resume Francisco Salado, “a melhor forma de preservar o mar é fazer do cuidado dele uma fonte de prosperidade”.