novembro 30, 2025
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O mergulho recreativo em Espanha vive um período de expansão. O que há dez anos era uma actividade sazonal de férias associada à época de verão tornou-se agora num sector com enorme potencial de desenvolvimento económico. De acordo com o estudo “Global Efeito económico do turismo de mergulho”. O turismo de mergulho recreativo em todo o mundo vale entre 8,5 mil milhões de dólares e 20,4 mil milhões de dólares anualmente, com uma estimativa de mais de 120.000 empregos diretos criados. A economia azul, conceito que integra atividades sustentáveis ​​ligadas ao mar, já representa 1,3% do PIB global e poderá duplicar dentro de uma década, segundo Relatório 2024 da União para uma Economia Azul Sustentável no Mediterrâneo. Neste contexto, o mergulho recreativo é uma das indústrias com maior potencial de crescimento. Com 7.900 quilómetros de costa e mais de mil centros de mergulho, Espanha pretende conquistar uma quota crescente deste mercado global.

“O cálculo é simples: um mergulhador gasta em média 250 euros por dia e costuma ficar mais dias no destino do que o turista médio”, explica Francisco Salado, presidente do Turismo da Costa del Sol. “Se a oferta for diversificada em atividades marinhas de elevado valor”, continua, “como a fotografia subaquática, a arqueologia, a conservação ou a formação técnica, os rendimentos podem aumentar sem aumentar a pressão sobre o território. “Existem tesouros debaixo das nossas águas que devemos cuidar e valorizar.”

A Andaluzia e as Ilhas Canárias lideram esta estratégia em Espanha. Com o apoio do Conselho Provincial de Málaga e do Cluster Marítimo da Andaluzia (CMMA), esta comunidade lançou em 2024 o chamado “Caminho Azul”, um plano que liga portos, reservas naturais e pontos de mergulho com tecnologia de geolocalização e narração digital para “contar o mar através de dados e sensibilidade. A tecnologia permite-nos contar a história natural e cultural dos nossos activos de uma forma acessível e segura”, explica Javier Noriega, Presidente da CNMA. As Canárias, por seu lado, promovem desde 2023 um programa de Turismo de Experiência cujo principal produto é o mergulho. O programa promove centros de mergulho, percursos subaquáticos e eventos que destacam a biodiversidade marinha e os estratos vulcânicos do arquipélago.

Desenvolvimento sustentável

Do ponto de vista empresarial, a sustentabilidade se transforma em uma vantagem competitiva. Certificações verdes como a ISO 14001 ou os Selos de Mergulho Responsável promovidos pela ABRE (Associação Espanhola de Mergulho Recreativo) e FEDAS (Federação Espanhola de Atividades Subaquáticas) abrem o acesso a subsídios e atraem turistas mais conscientes. A investigação da Turespaña confirma que 69% dos viajantes europeus preferem destinos com políticas ambientais ativas.

A tecnologia está permeando grande parte das ofertas do setor. Garrafas de controle integradas, iluminação LED ou embarcações híbridas reduzem o consumo de energia e os custos operacionais, aumentando a rentabilidade. Computadores de mergulho inteligentes capazes de calcular automaticamente o perfil do mergulho, o fluxo de gás ou a descompressão segura são agora um item de uso diário. Os novos modelos apresentam telas OLED, conectividade Bluetooth e sensores de pressão ou temperatura. “O mergulho está a passar por uma revolução silenciosa”, afirma Marc Mayoral, chefe da divisão de desportos aquáticos do grupo HEAD na Península Ibérica. O equipamento é mais leve, conectado e estável. “O usuário não busca mais apenas emoções, mas também informação e segurança.” Soma-se a esta tendência o desenvolvimento da realidade aumentada subaquática, que permite a sobreposição de dados sobre a fauna, rotas ou naufrágios durante um mergulho, bem como sistemas de monitorização biométrica que medem a frequência cardíaca ou a saturação de oxigénio. A inovação também está a chegar à superfície, com drones e ROVs a ajudar a planear mergulhos e a registar impactos ambientais.

O setor movimenta entre US$ 8,5 e US$ 20,4 bilhões anualmente em todo o mundo.

A digitalização chegou aos centros e escolas, que agora podem modernizar a sua gestão com plataformas como Bloowatch ou Diviac, que integram reservas, manutenção de equipamentos, controlo de seguros e registos digitais de mergulhadores. A digitalização reduz tarefas administrativas e melhora a rastreabilidade: segundo a ABRE, centros que implementam software de gestão reduzem custos em até 25% e aumentam a fidelização de clientes.

O movimento das startups também encontrou terreno fértil na economia azul. Em Cádiz, o Buceo Conciencia, criado pela Incubazul, combina turismo e ciência: organiza mergulhos colectivos em toda a Espanha para registar dados de biodiversidade e sensibilizar para a conservação marinha. Na Catalunha, a BlueForce Academy oferece treinamento aprofundado em manutenção de equipamentos digitais, gerenciamento de dados de mergulho e protocolos de emergência. Os seus cursos, em formato híbrido (teoria online e prática presencial), antecipam o futuro da formação subaquática. Na área da tecnologia, a Marine Vision SL, com sede em Almeria, desenvolve sistemas ópticos e de comunicação para mergulho profissional e recreativo. Os seus sensores de visão subaquática permitem mapear o fundo do mar e avaliar o estado dos prados ou recifes.

Todos eles têm um denominador comum: inovação no mar e modelos de negócio sustentáveis. Este é também o objetivo do cluster Incubazul: promover start-ups e iniciativas inovadoras relacionadas com o mar e os recursos marinhos, como as energias marinhas renováveis, a biotecnologia azul, o turismo sustentável, a pesca inteligente e a gestão costeira. Este cluster, dependente da Zona Franca de Cádiz, faz parte do programa Incubadoras de Alta Tecnologia promovido pela Fundação Incyde e cofinanciado pelos Fundos Federais da União Europeia, e já atraiu mais de 60 projetos empreendedores relacionados com energia marinha, turismo costeiro, biotecnologia ou tecnologias de vigilância oceânica.

Dados marítimos

A digitalização também cria um novo ativo: os dados marítimos. Cada mergulho gera informações sobre temperatura, visibilidade, fauna, correntes ou impacto ambiental. Estes dados, processados ​​de forma agregada, podem ser utilizados para gestão de reservas, previsão de riscos ou investigação científica. “O futuro do mergulho é orientado por dados”, afirma Josep Luis Massuet, presidente da ABRE. “Podemos transformar cada mergulho num ponto de observação útil para a ciência e a segurança, garantindo sempre a confidencialidade e a qualidade do registo.”

Turistas mergulhadores gastam mais de 250 euros por dia e ficam mais tempo no destino

O mergulho recreativo requer o envolvimento de especialistas especializados: instrutores, guias, técnicos, operadores de barco, fotógrafos ou engenheiros de manutenção. Em Espanha cria mais de 5.000 empregos diretos e milhares de empregos indiretos, com forte sazonalidade mas com crescente profissionalização. A digitalização está expandindo o espectro da força de trabalho. São necessários novos perfis – desde analistas de dados marinhos a criadores de software de mergulho – contribuindo para o desenvolvimento do segmento azul de empregos altamente qualificados.

As startups também estão contribuindo para esse aprendizado. A BlueForce Academy treina instrutores de gestão digital; Diving Conscience ensina ciência cidadã marinha; e a ABRE promove programas de renovação de segurança e sustentabilidade.

Apesar do seu potencial, o setor enfrenta desafios estruturais. As empresas exigem regras uniformes entre comunidades autónomas e mais apoio financeiro para a modernização de equipamentos. O investimento inicial em tecnologia continua elevado e a concorrência de atividades de lazer mais baratas exige uma melhor comunicação do valor acrescentado do mergulho. A profissionalização também é fundamental. “A segurança depende tanto do equipamento como da formação”, explica Massuet. “Precisamos de padrões claros e reconhecidos para que os turistas internacionais saibam o que esperar.”

Pilar do Turismo

Na economia azul, o mergulho recreativo é mais do que uma aventura subaquática: é um laboratório de inovação, um gerador de empregos qualificados e uma ferramenta para a conservação ambiental. O fundo marinho de Espanha oferece a combinação perfeita de biodiversidade, património e ligações tecnológicas. Se o setor reforçar a sua profissionalização e atrair investimentos para continuar a inovar, poderá tornar-se um dos pilares de um futuro turístico sustentável. Como resume Francisco Salado, “a melhor forma de preservar o mar é fazer do cuidado dele uma fonte de prosperidade”.