Um mês de negociações e mais de vinte reuniões no Ministério do Interior não foram suficientes: as divergências entre Morena, o Partido Verde e o Partido Trabalhista sobre a fórmula para eleger deputados multimembros continuam a ser o principal obstáculo ao progresso da iniciativa de reforma político-eleitoral da presidente Claudia Sheinbaum. Embora já exista um acordo para manter 200 deputados com representação proporcional (além dos 300 maioria relativa), os Verdes e o PT rejeitam agora alterações na forma como estes candidatos são nomeados, que atualmente emergem de listas fechadas elaboradas pela liderança do partido.
As divergências são consideráveis: enquanto o Presidente Sheinbaum e a liderança do Morena apresentam propostas de intervenção cidadã nas eleições dos chamados “polinómios”, os seus aliados querem preservar estas candidaturas como prerrogativa da liderança. “Vamos mandar a reforma porque estou comprometido com o povo nos meus 100 pontos. Esta é uma reforma que preserva a representação das minorias, mas todos aqueles que querem ser deputados ou senadores buscam o voto popular”, repetiu Sheinbaum na semana passada, o que foi interpretado pelos negociadores como a possibilidade de a iniciativa ser enviada ao Congresso sem o consentimento prévio dos aliados de Morena.
Actualmente, os 200 deputados do PR são eleitos a partir de cinco listas (uma para cada círculo eleitoral) elaboradas pelos líderes partidários, e cada força recebe um número de deputados com base na percentagem de votos obtidos em cada círculo eleitoral. Tudo isto leva a que os primeiros lugares sejam ocupados por candidatos indicados pela direcção do partido e, em muitos casos, os próprios dirigentes sejam colocados nos lugares mais privilegiados.
Sheinbaum está determinado a pôr fim a isto e, desde que assumiu o cargo, tem defendido que todos os candidatos façam campanha e que os cidadãos também votem em plural diretamente, para o qual a Comissão Presidencial de Reforma Eleitoral apresentou diversas propostas para consideração. Por exemplo, a nível nacional deveria haver uma única lista aberta na qual os candidatos fariam campanha e que deveria incluir aqueles que recebessem mais votos de cada partido. Outra opção é que os candidatos perdedores com mais votos em cada círculo eleitoral formem listas de representação proporcional dos partidos; Ou seja, mesmo que percam o distrito, os candidatos mais concorridos entrarão no Congresso.
Nenhuma das opções foi aceite pelos líderes do PVEM e do PT, que insistem que os partidos devem manter assentos garantidos em cada legislatura. “Os líderes não podem participar de uma campanha eleitoral e ao mesmo tempo planejar a estratégia e liderar o partido”, disse um dos negociadores do PT em uma das muitas sessões realizadas no mês passado no gabinete da ministra do Interior, Rosa Isela Rodriguez.
As reuniões começaram no dia 16 de janeiro, um dia depois de o presidente Sheinbaum ordenar que as negociações com Verde e o PT fossem lideradas pelo Ministro do Interior. O objetivo é desenvolver uma proposta que receba apoio suficiente para aprovação, uma vez que qualquer reforma constitucional requer o apoio de dois partidos aliados. Para obter maioria qualificada de 335 votos na Câmara dos Deputados, Morena precisa de 62 deputados Verdes e 49 petistas. E para obter 85 votos na Câmara alta, são necessários 14 senadores verdes e 6 senadores petistas.
Durante o mês de negociações, os três líderes estiveram presentes apenas uma vez: Luisa Maria Alcalde do Morena; Karen Castrejon da Verde e Alberto Anaya do PT. Participaram das demais reuniões em nome de Morena Esteban Martinez Mejia; Arturo Escobar, Carlos Puente e Manuel Velasco da Verde; Reginaldo Sandoval, Benjamin Robles e Silvano Garay, do PT; O subsecretário de Estado Cesar Yanez e uma equipe de assessores do Ministério do Interior, que já desenvolveu grande parte da iniciativa, segundo fontes governamentais. A comissão, chefiada por Pablo Gómez, interveio apenas no início das negociações, em meados de janeiro, e só esta semana voltou a atuar para comentar o desenvolvimento dos textos da iniciativa.
As divergências sobre a reforma eleitoral persistem apesar das tentativas de Morena, do PVEM e do PT de organizar atos de unidade. E a nível local, os partidos no poder estão a mostrar outros sinais de desintegração, tais como a ruptura da sua aliança nas eleições de Coahuila deste ano e a implementação de regras anti-nepotismo promovidas por Sheinbaum.
Progresso em nove tópicos
Na reunião mais recente, a questão dos plurinominales foi novamente deixada para maior avanço nas restantes propostas de reforma constitucional e até no desenvolvimento de algumas iniciativas para a reforma de três leis menores: a Lei Geral das Instituições e Procedimentos Eleitorais (LGIPE), a Lei dos Partidos Políticos e a Lei dos Meios de Concurso. A decisão de “colocar entre colchetes” a questão da representação proporcional foi tomada durante reunião que começou na tarde de quinta-feira e terminou quase à meia-noite. As negociações serão retomadas na próxima semana, já fora do prazo originalmente proposto pelo presidente – a segunda semana de fevereiro – e quando o coordenador dos deputados do Morena, Ricardo Monreal, já avisou que se a iniciativa não ficar pronta este mês, o tempo será reduzido para poder discuti-la e aprová-la até maio, que é o limite legal para a implementação das reformas que poderão ser aplicadas nas eleições de 2027.
As conquistas mais importantes são observadas em nove áreas: primeiro, a reestruturação do Instituto Nacional Eleitoral, a densificação dos territórios, a redução do número de funcionários nos 32 conselhos locais e a eliminação de funções como a educação cívica; segundo, a reforma das Autoridades Eleitorais Locais do Estado (OPLE) para que os seus membros deixem de ser nomeados pelo INE e as funções não sejam duplicadas; terceiro, mudanças que facilitem a implementação da democracia participativa, como a consulta popular, a revogação do mandato e a iniciativa cidadã; em quarto lugar, facilitar o registo de novos partidos políticos; quinto, alterar os horários das emissões de rádio e televisão atribuídos aos partidos e órgãos eleitorais; sexto, encorajar os mexicanos do exterior a votar; sétimo, limitar o uso de publicidade chamativa e propaganda eleitoral poluente; a oitava é realizar as próximas eleições judiciais antes de 2028, e a nona é reforçar a supervisão do financiamento dos partidos e dos candidatos e punir severamente o apoio ao crime organizado.