fevereiro 9, 2026
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Quando Marcelia Cartacho (Cajazeiras, 62 anos) veio a São Paulo gravar Hora da estrelaNa adaptação cinematográfica do romance de Clarice Lispector, ela logo percebeu que suas próprias experiências como mulher migrante informariam sua interpretação de Macabéa, personagem que encarna a vulnerabilidade, a invisibilidade social e as dificuldades de viver em um mundo não feito para os ingênuos.

Mais de 40 anos depois de sua estreia, o filme de Suzana Amaral volta a ser lançado em versão restaurada, confirmando sua importância e lugar como um dos clássicos do cinema latino-americano. A peça poderá ser vista nos cinemas mexicanos a partir do dia 13 de fevereiro. Nesse contexto, Cartaxo olha para trás e relembra os rigores das filmagens e as decisões que o marcaram estréia cinematográfica neste filme de 1895 em que interpreta uma jovem órfã e analfabeta que deixa o Nordeste do Brasil para tentar a sorte na capital. “Saí da cidade do interior e queria muito conhecer São Paulo, comer pizza, ir aos shoppings, experimentar outras coisas, enquanto Susana Amaral me limitou ao longo das filmagens para que eu fosse perfeito, para que o personagem não se desviasse, não ficasse cego por outras coisas. Hora da estrela “Foi minha passagem para o cinema, para minha carreira e para minha vida”, disse ele em entrevista ao EL PAÍS, apoiado pela tradutora Oralia Torres.

Reconhecido no Festival de Cinema de Brasília e no Festival de Berlim, onde Marcelia Cartacio foi premiada com o Urso de Prata de Melhor Atriz. O filme acompanha a sua primeira experiência amorosa e profissional até ao encontro que determinará o seu destino, e traz para o cinema a realidade que tanto Clarice Lispector como Susana Amaral quiseram tornar visível. “Acho que esse filme sempre foi atemporal. Hoje vemos que há muita migração. Os trabalhadores saem de suas comunidades porque não têm oportunidades e vão para a cidade grande, que é o caso de Macabéa. Ela representa uma parte extremamente invisível da nossa sociedade, que tem pouco conhecimento para lidar nas grandes cidades e é majoritariamente mulher”, reflete Cartascio.

É o papel das mulheres – e a violência estrutural que permeia as suas vidas – que é central na leitura da história que a atriz faz quatro décadas depois. “Aqui no Brasil eu sei o que acontece em muitos lugares, mas estou falando mais do meu país, temos um índice de feminicídio muito alto. Se você olhar esses casos, a maioria são pessoas que estão em uma posição um pouco melhor na sociedade, que estão nas primeiras páginas dos jornais, da televisão, da Internet e de tudo mais neste planeta, então acho que precisamos nos unir, nos unir, para que todos tenhamos voz”, disse ela.

Hora da estrela Foi publicada em 1977, poucos meses antes da morte de Clarice Lispector, e tornou-se uma das obras mais icônicas da autora que mudou a literatura latino-americana. “Quando Clarice Lispector escreveu seus livros, todos se apaixonaram pelas obras dela, porque ela fala muito sobre problemas humanos, sobre problemas de personalidade, sobre sentimentos, e é muito profundo. Essa foi uma clareza muito clara da nova diretora. Hora da estrela no cinema e motivar quem ainda não o fez a ler também o livro, porque um complementa o outro”, explicou.

O cinema brasileiro vive um momento de renovada visibilidade no cenário internacional, com produções recentes cujas histórias e intérpretes voltaram a figurar em festivais e premiações mundiais, incluindo Eu ainda estou aqui E Agente secreto. “O cinema latino-americano está crescendo muito, está sendo visto, e é extremamente importante que outras pessoas de outros países conheçam isso. Nossas histórias são um pouco parecidas com as delas, só que a forma como falamos e os lugares mudam.

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