janeiro 26, 2026
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Por ocasião do centenário da morte de Antoni Gaudi, esta série é publicada para percorrer passo a passo as diferentes etapas da sua carreira como arquiteto. Para além do mito e da lembrança, estas obras procuram compreender como evoluiu a sua forma de pensar, construir e ver o mundo, e como cada período da sua vida deixou uma marca reconhecível na sua arquitetura e na cidade de Barcelona.

Existem símbolos que se repetem com tanta frequência que já não parecem aleatórios. Em Barcelona, ​​um deles é um dragão. Aparece em fachadas, grades, luminárias, maçanetas e cornijas, como se toda a cidade compartilhasse um imaginário comum. E embora nem todos os dragões tenham sido criados por Gaudí, eles são. Antonio Gaudí que leva esta figura a um novo território: a um símbolo arquitetônico total, repleto de mitologia, religião e política cultural.

Dragões por toda a cidade: um símbolo comum

O fascínio pelos dragões não começou com Gaudí. Quando começou a construção, Barcelona já estava cheia deles. Basta caminhar pela Rambla para encontrar um dragão chinês Casa Bruno Quadrosantiga loja de guarda-chuvas, renovada em 1883 por Josep Vilaseca. Ou vá até a Piazza Sant Jaume, onde a escultura de Andreu Aleu de Sant Jordi matando o dragão está em exibição no Palazzo Generalitat desde 1872.

O modernismo encontrou nesta criatura um símbolo ideal. Segundo a pesquisa da historiadora Joan Bassegoda, os arquitetos da época foram atraídos por sua formação mitológica e pela capacidade de combinar o neogótico e o exotismo. Josep Puig e Cadafalch incluí-lo em Casa dos Punkscom um grande mosaico representando Sant Jordi e o lema “San Patro de Catalunya, torneu nos la libertat”. Também na Casa Amatller, os dragões estão integrados na escultura decorativa da fachada.

Luis Domenech e Montaner Ele foi ainda mais franco quando construiu o Castelo dos Três Dragões para a Feira Mundial de 1888, assumindo o título de uma peça popular e transformando o dragão no emblema da cidade. Mas nenhum deles chegou a Gaudí.

Gaudí e o dragão como língua própria

Nas obras de Gaudí, o dragão não é mais um ornamento. Torna-se a história, a estrutura e o conceito. Principalmente em projetos relacionados ao seu grande mecenas Eusebi Güell, onde o simbolismo está diretamente relacionado com o Renascimento catalão, a mitologia clássica e a religião.

EM Pavilhões de GuellO famoso dragão forjado que guarda a entrada não é uma criatura comum. Segundo o poema, este é Ladon, guardião do Jardim das Hespérides. L'Atlântida Jacinta Verdaguera, dedicada ao Marquês de Comillas. Hércules o derrota para roubar as maçãs de ouro, e Gaudí transfere esse mito para a cerca, que serve de fronteira simbólica entre o secular e o sagrado.

Nesta Parque GüellO dragão assume outra identidade: Píton, a serpente do oráculo de Delfos que se tornou a protetora das águas subterrâneas após sua morte nas mãos de Apolo. Esta não é uma escolha inocente. O dragão fica diretamente acima dos tanques de água que Gaudí projetou para o parque e dialoga com as colunas dóricas do Salão Hipostilo, estabelecendo uma ligação direta entre arquitetura, mitologia grega e função hidráulica.

Aqui o dragão não apenas protege: suporta o sistema.

Casa Batlló: o prédio que virou dragão

Mas isso está em Casa Batlló onde Gaudí leva sua obsessão ao extremo. Não se trata mais de colocar um dragão em um prédio. Prédio é dragão

O telhado tem o formato do dorso do animal, revestido em cerâmica esmaltada imitando escamas em tons variados. A fachada ondulada parece um corpo tenso, e a cruz que a coroa funciona como uma espada cravada nas costas da fera. Gaudí transforma a casa numa interpretação arquitetónica da lenda de Sant Jordi, uma das histórias fundadoras do imaginário catalão.

Sangue derramado, luta, vitória, salvar a princesa: tudo isso está aí, mas encarnado na pedra, no vidro e na cerâmica. Não há escultura figurativa óbvia. Isto não é necessário. Esta história pode ser compreendida caminhando, olhando para cima, examinando o exterior do edifício.

Muito mais que uma obsessão estética

Quando falamos da obsessão de Gaudí pelos dragões, não estamos falando de mania decorativa. É sobre como ele entendia a arquitetura como linguagem simbólica totalcapaz de combinar mitologia clássica, cristianismo, identidade catalã e soluções técnicas numa única forma construída.

Nas mãos de Gaudí, o dragão deixa de ser uma criatura fantástica e passa a ser uma ferramenta conceitual. Protege, diferencia, explica, conta. E acima de tudo, conecta a cidade com um imaginário que vai muito além do cartão postal.

Talvez seja por isso que, mais de um século depois, os dragões de Gaudí continuam a guardar Barcelona. Não como guardiões de pedra, mas como um lembrete de que, para ele, a arquitetura nunca se limitou a edifícios. Foi também – e sobretudo – uma forma de contar histórias.

Referência