Por ocasião do centenário da morte de Antoni Gaudi, esta série é publicada para percorrer passo a passo as diferentes etapas da sua carreira como arquiteto. Para além do mito e da lembrança, estas obras procuram compreender como evoluiu a sua forma de pensar, construir e ver o mundo, e como cada período da sua vida deixou uma marca reconhecível na sua arquitetura e na cidade de Barcelona.
Há algo de encerramento e algo de confinamento na fase final da obra de Gaudí. Conclusão porque é o ponto onde tudo o que veio antes é condensado, ordenado e finalmente reunido. Conclusão, porque na prática um arquiteto vive só de trabalho. Enquanto Barcelona muda séculos, ritmos e conflitos, Gaudí estreita o seu mundo até ficar quase sozinho com Basílica Sagrada Família. Não é que ele deixe de ser um criador: ele decide concentrar tudo o que aprendeu – e tudo o que ele é – em um só prédio.
Clímax: quando a estrutura e o ornamento param de brigar.
Nos últimos anos de sua carreira, Gaudí atingiu o ápice de seu estilo naturalista. Não se trata mais de encontrar soluções, mas de síntese. A grande diferença das etapas anteriores é que aqui estrutura e decoração não competem mais por destaque: elas são necessárias. A forma já não “veste” a função, e a função já não impõe quaisquer restrições à forma. Tudo está integrado num sistema holístico: arquitetura, escultura, luz, simbolismo, arte aplicada. Todo o pensamento é como um organismo.
Essa culminação é observada não apenas na monumentalidade. Às vezes é melhor entendê-lo em pequenas coisas.
Escolas da Sagrada Família: gênio sem barulho
Gaudí construído em 1909 Escolas da Sagrada Famíliaum prédio projetado para educar os filhos dos trabalhadores que trabalhavam no templo. A escala é mínima, mas a inteligência é máxima. Planta retangular, três salas de aula, vestíbulo e capela. Tijolo à vista, técnica tradicional catalã e, acima de tudo, uma solução formal que muda tudo: as paredes e o telhado ondulados.
Essas flutuações não são um capricho. Sim, proporcionam leveza visual, mas também resistência estrutural. O edifício parece modesto, quase temporário, mas serve como uma lição poderosa na compreensão de Gaudí da construção nas suas fases finais: eficiência máxima com recursos mínimos, geometria ao serviço da vida real.
Nesses mesmos anos, são-lhe atribuídas intervenções especiais – nem sempre documentadas – na paróquia de San Juan Bautista de Gràcia, em Barcelona. O que importa, além da autoria exata, é que o estilo de Gaudin neste palco já é reconhecível por si só: cúpulas com trincheiras, símbolos medidos, inscrições, uma forma de fazer as coisas que não precisa de assinatura para se revelar.
Pequenos projetos, o mesmo pulso
Desde 1910, Gaudí quase não se permitiu trabalhar fora do templo. Alguns deles são de natureza quase anedótica, mas mostram que mesmo em assuntos memoráveis ou funcionais ele mantém sua linguagem. Em Vic, por exemplo, ele projetou luzes de rua em forma de obelisco para a Plaza Mayor com pedra basáltica, ferro forjado e uma cruz de quatro pontas no topo. Fez também um escudo para o seu grande patrono Eusebi Güell, cheio de símbolos e jogos heráldicos, como se até no brasão precisasse introduzir a lógica das suas curvas e arcos.
Ele projeta púlpitos, propõe alterações em projetos de outras pessoas, como em Manresa, e recebe perguntas que nunca se concretizam, incluindo a ideia de uma grande estação ferroviária monumental. Mas o centro de gravidade já está definido: tudo volta à Sagrada Família.
Sagrada Família: o templo como síntese total
Desde 1915, Gaudí dedicou-se quase exclusivamente Templo Expiatório da Sagrada Família. O que começou como cripta e abside em estilo neogótico se transforma em algo completamente diferente: um edifício orgânico que imita – no sentido mais literal – as formas da natureza. O interior é projetado em estilo florestal. Colunas em forma de árvore, inclinadas e em espiral, ramificam-se e distribuem peso com uma lógica que parece vegetal.
Aqui Gaudí aplica tudo o que aprendeu em projetos anteriores: os testes estruturais da cripta da Colonia Güell, a integração com a paisagem do Parque Güell, a obsessão pela luz resultante da sua intervenção em Maiorca. Mas na Sagrada Família já não existem “referências” isoladas: existe um sistema. Geometria correta, superfícies que se dobram como se fossem inevitáveis, vitrais que não decoram, mas criam atmosfera. E o simbolismo que percorre o templo de cima a baixo.
O projeto também é enorme: planta em cruz latina, várias naves, transepto, abside com capelas, três fachadas dedicadas à Natividade, Paixão e Glória, e um conjunto de torres que, quando concluídas, formarão a silhueta mais ambiciosa da arquitetura religiosa moderna.
Porém, durante a vida de Gaudí, apenas uma parte foi concluída: a cripta, a abside e parte da fachada da Natividade. Ele mal consegue ver a torre coroada de São Barnabé. O resto permanece uma promessa, um projeto herdado, uma construção que atravessa gerações.
O fim: projetos que ficam esboços e vida que fica no templo
Nos últimos anos também surgiram encomendas não realizadas: monumentos memoriais, uma igreja que nunca foi construída no Chile, projetos que permaneceram nos desenhos. Parece que Gaudí não tem mais espaço ou interesse para divergir. Sua devoção é absoluta e, em certo sentido, irreversível.
E então ocorre um acidente que causará sua morte. Esta história é normalmente contada de um ponto de vista moral – um pobre génio, um homem não reconhecido – mas o que é crucial é que Gaudí morre quando a sua obra já não é inteiramente sua. A etapa final não é apenas o culminar do estilo. É neste momento que a sua arquitectura se torna também uma obra colectiva, uma construção de longa duração, uma ideia que sobrevive ao seu autor.
É por isso que falar da fase final da obra de Gaudí não é falar apenas dos últimos anos de vida do arquitecto. Estamos a falar do momento em que, para o bem ou para o mal, Gaudi deixa de ser um nome e passa a ser uma estrutura. No sistema. Em um templo que ainda está crescendo.