Tradicionalmente, os videogames têm sido percebidos como uma atividade individual associada ao lazer doméstico e ao consumo isolado de conteúdos digitais. Porém, hoje esta imagem foi completamente superada. Os videogames se tornaram um espaço social onde milhões de pessoas … Os usuários não apenas brincam, mas também interagem, criam comunidades, desenvolvem identidades digitais e convivem, a ponto de competir diretamente com as redes sociais tradicionais como principal meio de relacionamento, principalmente entre os mais jovens.
Este fenómeno, conhecido como “jogo social”, tornou-se também um importante motor económico de uma indústria que já não é definida apenas pelo entretenimento, mas pela sua capacidade de criar e promover negócios, emprego, investimento e oportunidades para empresas e marcas numa vasta gama de sectores.
Mudanças estruturais
A evolução desta gigantesca indústria é estrutural. Os videojogos deixaram de ser um produto fechado e tornaram-se plataformas vivas apoiadas por comunidades ativas e relações contínuas entre jogadores. Os jogos multijogador e competitivos são predominantes e hoje funcionam como ambientes sociais contínuos onde a experiência se estende muito além do jogo.
“O videogame deixou de ser apenas um produto e se tornou um espaço social ativo, uma plataforma para construir relações sociais e pessoais”, explica Olga Blanco, presidente do Cluster de Videogames de Madri e vice-presidente da IBM Consulting Spain.
Este aspecto social não é mais um elemento opcional de design, mas uma parte central da proposta de valor da indústria. Comunidades, sistemas cooperativos e competitivos, conteúdo gerado pelos jogadores e interação constante mudaram a forma como os videogames são compreendidos.
Grande mudança
Single player é coisa do passado, os videogames agora competem com as redes
Madrid estabeleceu-se como um dos principais centros de videojogos do sul da Europa, impulsionado por uma combinação de talento, investimento e apoio institucional. O ecossistema de videojogos de Madrid fatura mais de 1.200 milhões de euros, emprega mais de 6.000 profissionais e cresce de forma constante mesmo num contexto económico difícil e cheio de desafios.
alavancagem de negócios
“Os jogos sociais e os desportos eletrónicos tornaram-se uma alavanca estrutural para o crescimento económico e a criação de emprego”, afirma Olga Blanco. Nos últimos doze meses, foram criados sete novos estúdios na região, contratando mais de 100 novos funcionários, e 79% das empresas mantiveram ou aumentaram seu quadro de funcionários.
Soma-se a este desenvolvimento a capacidade de Madrid para atrair grandes eventos internacionais e competições profissionais, que aumentam a projeção internacional do ecossistema local e criam impacto económico para além do próprio setor dos videojogos.
Um dos maiores debates que ocorrem hoje na indústria é se os videogames estão assumindo o controle das mídias sociais tradicionais como o principal espaço para interação digital. A resposta aponta para mudanças profundas nos hábitos de relacionamento, especialmente entre as gerações mais jovens. “Os próprios videogames funcionam cada vez mais como autênticas plataformas sociais”, explica o vice-presidente da IBM Consulting na Espanha.
Emoções da equipe
Ao contrário das redes sociais clássicas, que se baseiam no consumo passivo de conteúdos, um videojogo oferece uma experiência partilhada, objetivos comuns e um envolvimento emocional muito maior. Essa mudança impactará diretamente o negócio. As comunidades tornaram-se um dos principais ativos da indústria, pois permitem o desenvolvimento de modelos baseados em serviços ao vivo, eventos, competições e novas fórmulas de monetização que são sustentáveis ao longo do tempo.
Poucas empresas exemplificam melhor esta transformação do que a Riot Games. Desde a sua criação, a empresa construiu seu modelo em torno da comunidade de jogos. “A Riot Games nasceu como uma empresa centrada no jogador e com um diálogo constante que marcou a evolução de League of Legends desde o primeiro momento”, explica Ricardo Herrero, Head of Market Community para Espanha e Itália.
Trabalho
As empresas precisam de perfis híbridos que possam criar experiências comunitárias.
À medida que o título crescia, o videogame se expandia para além da tela. Música, animação, banda desenhada, esports e eventos presenciais foram integrados num ecossistema cultural próprio, onde a comunidade se tornou um pilar estratégico. “A vertente social deixou de ser um elemento acessório e passou a ser um motor de interação, de identidade e de significado a longo prazo”, acrescenta um representante desta empresa líder na criação e consolidação de “jogos sociais”.
A Riot Games enfatiza que os videogames e as redes sociais não são necessariamente concorrentes, mas servem funções diferentes e operam em planos paralelos. “O jogo é onde a experiência social ocorre; as redes servem para fortalecê-la e prolongá-la”, diz Amanda Domuraki, gerente sênior de estratégia de mídia social do League of Legends.
Substituir
O salto que esta dimensão social representa é significativo porque não só redefine a experiência do jogador, mas também o modelo de negócio. “Quando as comunidades prosperam, os jogadores naturalmente investem seu tempo e dinheiro”, dizem eles da Riot Games.
Elementos como personalização, conteúdo ou experiência global são fundamentais para esta emergência, pois funcionam como ferramentas de autoexpressão e pertencimento.
Para as marcas, este ambiente, com uma forte componente social e de experiência partilhada, apresenta uma oportunidade única, mas também um desafio. “Jogar envolve compreender e respeitar comunidades com códigos claramente definidos”, alerta a empresa. Uma colaboração bem-sucedida é aquela que se integra perfeitamente e, em última análise, agrega valor real ao jogador.
A transformação social dos jogos tem um impacto direto na aprendizagem e no emprego. As empresas procuram cada vez mais perfis híbridos com uma base técnica ou criativa sólida, mas com capacidade de criar experiências focadas na comunidade. “O ensino de videogames deixou de se concentrar apenas no desenvolvimento técnico e passou a incluir o design de experiências sociais e comunitárias”, explica Patricia Comesaña, coordenadora do Departamento de Criação e Animação de Videogames da Universidade da Corunha.
Uma mudança de paradigma porque, como observa Comesaña, os alunos já trabalham com a dinâmica de colaboração, competição e envolvimento de longo prazo. “Um videogame não é mais um produto fechado, mas um espaço vivo de interação social”, afirma o especialista.
Contudo, nos últimos meses, o setor tem sido afetado por algumas turbulências em todo o mundo devido a processos de reorganização da força de trabalho. As oportunidades de emprego neste setor são positivas, especialmente para aqueles que estiveram envolvidos em projetos práticos e colaborativos. Os salários variam dependendo do tipo de estúdio e do seu tamanho; os videogames estão abrindo oportunidades tanto para grandes empresas quanto para novos estúdios independentes.
A consolidação do “jogo social” como uma grande alavanca no sector faz parte de uma transformação mais ampla da indústria. O relatório “A Jugar” da Globant identifica cinco tendências principais que moldarão o futuro do setor: a ascensão dos jogos portáteis e na nuvem, a adoção em massa da inteligência artificial, a crescente participação de criadores de conteúdo, o foco na retenção e o aumento da pressão regulatória. Segundo o relatório, o crescimento já não se trata de atrair novos intervenientes (afinal, estamos a falar da primeira indústria global do lazer), mas sim de aprofundar relações com as comunidades existentes, construindo confiança e experiência a longo prazo.
Simbiose
Para além do lazer, os videojogos estão a consolidar-se como infraestrutura social, tecnológica e económica, e as suas aplicações começam a espalhar-se em áreas como a educação, a formação empresarial ou a inovação empresarial. Madrid, em particular, pretende transferir o conhecimento e a dinâmica dos jogos para outros setores produtivos. Os videojogos já não são apenas uma indústria cultural em expansão: são um novo espaço social onde empresas, marcas e talentos querem estar. O futuro, longe da visão clássica de um único jogador, é construído em equipa.