fevereiro 12, 2026
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E se cada vez que olhamos para uma tela, estivéssemos na verdade ensaiando nosso próprio desaparecimento? Esta questão é apresentada não como um desafio intelectual, mas sim como uma fissura na experiência quotidiana. Ana Esteve Reig (1986) de Alicante apresenta duas exposições em Valência. que fazem dos videogames e da inteligência artificial material para as mais extremas reflexões existenciais. Um no Carmen Center, outro no Galeria Luis Adelantado, articulando a mesma história bifurcada que questiona o desaparecimento, a identidade e o valor das nossas experiências virtuais que se tornaram completamente cotidianas.

A presença simultânea de ambos os projectos em duas instituições de referência em Valência indica o crescente reconhecimento deste tipo de trabalho por parte do público e do mercado, bem como a expectativa de uma correspondente participação em ARCO o que prevê um certo fortalecimento do prognóstico de Esteve Reig.

A exposição Alucinações de Luis Adelantado apresenta a imagem algorítmica como um território instável onde o erro se torna produtivo e a ficção ganha a textura do plausível. O criador explora espaços híbridos como “cosplay” e videogames, áreas em que o simbólico e o afetivo se entrelaçam com o virtual até que as fronteiras se confundam. Consequentemente, a videoarte funciona como um aparato de pensamento que dissemina ideias por meio de ritmos visuais e montagens, evitando o literalismo.

Desejo-lhe boa sorte

Então, “Imagens Felizes” explora o desejo universal de sorte através de imagens geradas por inteligência artificial que evocam amuletos e promessas de boa sorte. Além disso, numa peça chamada Lilith, uma figura feminina criada por inteligência artificial atravessa constantemente portais digitais sugerindo trânsito e transformação. Ao mesmo tempo, a obra dialoga com a escultura 3D, que materializa esta transição entre a tela e o espaço físico, questionando onde realmente está a obra e o que significa habitar um corpo digital.

Imagem Secundária 1 - nas imagens de cima para baixo “Flicker Study”; “Lilith” e “Link, uma história de amor” - todas obras na galeria de Luis Adelantado.
Imagem Secundária 2 - nas imagens de cima para baixo “Flicker Study”; “Lilith” e “Link, uma história de amor” - todas obras na galeria de Luis Adelantado.
Mundo ideal?
Imagens de cima para baixo: Flicker Research; “Lilith” e “Link, uma história de amor” – todas obras na galeria de Luis Adelantado.
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Por outro lado, o díptico “Link, uma história de amor” explora o cosplay como um ato de devoção e um mecanismo de construção de identidade, mostrando como os corpos humanos se adaptam a personagens fictícios com uma precisão quase ritual. Da mesma forma, The Blink Study estabelece um paralelo entre a imersão em plataformas como o Second Life e práticas de autorreflexão, transformando o gesto mínimo de piscar num limiar entre o interior e o exterior, entre a carne e o avatar.

Enquanto isso no Centro Carmen “Ritual de Renascimento” investiga o processo de desaparecimento e reaparecimento típico dos videogames. A obra sugere que o ritual do renascimento faz parte da nossa condição moderna à medida que mudamos de imagem, perfil e história, desaparecemos e reaparecemos.

Mas em “Sonhos de jogador” A câmera viaja pelos espaços físicos onde o virtual é criado: um data center, um cyber game café, uma quadra de esportes eletrônicos e um templo budista que introduz uma dimensão espiritual inesperada. Além disso, na segunda parte, a “jogabilidade” se confunde com os depoimentos dos jogadores, e a inteligência artificial gera paisagens sintéticas a partir da memória coletiva da rede.

Ana Esteve Reig

“Alucinações.” Galeria de Luis Adelantado. Valência. C/ Bonaire, 6. Até 9 de abril. Três estrelas.

“Ritual de Renascimento.” Centro Carmem. Valência. S/Museinaya, 2. Até 5 de abril. Três estrelas.

Neste ciclo interminável de desaparecimento e regresso, a questão crucial já não é como ganhar o jogo, mas quem realmente define as suas regras, quem escreve o código e o que acontece quando descobrimos que talvez nunca tenhamos sido jogadores livres, mas sim peças móveis dentro de um sistema que nos observa, nos calcula e nos reprograma impiedosamente.

Referência