A reação contra a plataforma Filmin após a estreia do documentário Icarus: A Week on Fire vai muito além da mera controvérsia cultural. Este é um sintoma alarmante de deriva, que ocorre quando a realidade é desagradável para alguém e é feita uma tentativa … silêncio em vez de discussão. Os ataques às obras audiovisuais não são apenas um golpe à liberdade de expressão, mas também uma tentativa de apagar da história pública aqueles que estiveram na linha da frente defendendo a ordem constitucional durante alguns dos dias mais difíceis que a Catalunha viveu.
O que vemos não é um debate legítimo sobre o conteúdo do documentário, mas sim uma estratégia de susto. Atos de pressão e vandalismo contra uma plataforma cultural de divulgação de obras indicam uma clara vontade de substituir o debate pela coerção. Apontar quem transmite uma história inconveniente e tentar forçá-lo a sair é uma forma de censura que não cabe numa sociedade democrática. A posição da plataforma Nosaltres Sols, que apontou para a sede do Filmin e a vandalizou, assemelha-se mais à Noite dos Vidros Quebrados do regime nazista do que a uma sociedade moderna e democrática. O direito de discordar ou criticar, que é parte integrante do pluralismo, não está aqui em questão. O problema surge quando o conteúdo desaparece deliberadamente devido à pressão organizada daqueles que acreditam ter o poder de decidir o que os cidadãos podem ver. Esta atitude reflecte uma profunda intolerância por qualquer história que não esteja de acordo com certas narrativas políticas ou ideológicas.
Durante a semana de agitação que se seguiu à decisão do julgamento, milhares de agentes da Unidade de Polícia (UIP) foram destacados sob condições extremas.
Enfrentaram violência organizada, emboscadas, lançamento de objetos contundentes e dispositivos incendiários, tudo numa atmosfera de intensa hostilidade social. Eles agiram para cumprir ordens judiciais, proteger infraestruturas críticas e garantir direitos básicos, inclusive para aqueles que os insultaram ou atacaram.
O documentário apresenta imagens e evidências de uma realidade que durante anos alguns tentaram minimizar: a violência nas ruas foi severa e prolongada e foi dirigida diretamente às forças e agências de segurança. O facto de esta parte da história ser perturbadora não justifica boicotes ou campanhas de assédio contra uma plataforma que transmite obras que demonstram factos verificáveis.
A cultura não pode tornar-se um espaço sujeito a veto ideológico. Proteger a capacidade de ver, analisar e discutir uma obra é proteger uma sociedade madura.
Tentar fazer desaparecer algo de que você não gosta é típico de uma dinâmica autoritária que teme o pluralismo de opiniões. No entanto, deve-se notar também que nenhum documentário é totalmente fiel à realidade. Na JUPOL não podemos deixar de mencionar a ausência que assola muitos agentes: o sentimento de abandono institucional depois daqueles dias.
O documentário, endossado pela sede da UIP, segue os limites e deixa de fora uma parte dolorosa das experiências de muitos policiais. Enquanto os contêineres queimavam nas ruas e os paralelepípedos voavam, os agentes cumpriam seu dever. Mas, ao regressarem aos seus destinos, muitos encontraram-se com burocracia, pouco apoio jurídico, assistência psicológica insuficiente e um silêncio institucional que contrastava com a rapidez com que outras histórias tinham sido sugeridas. Alguns foram publicamente apontados e sujeitos a intensa pressão mediática sem uma forte defesa por parte dos responsáveis.
Esta é outra dimensão que você também deve estar atento: são aqueles que enfrentaram não só a violência na rua, mas também a solidão depois dela. São esses agentes que arcam com as consequências físicas e emocionais de ver os acontecimentos simplificados ou reescritos. Estas são as famílias que viveram com angústia todas as noites dos tumultos e que mais tarde sentiram que não havia reconhecimento institucional suficiente.
Deixando de lado divergências específicas, este episódio deveria servir como o início de um debate mais honesto sobre três questões fundamentais: o direito do público de saber o que realmente aconteceu, a proteção da liberdade artística e o dever do Estado para com aqueles que garantem a ordem democrática em situações críticas.
Porque enquanto alguns ficam indignados com a existência do documentário, há agentes e famílias que continuam a conviver com as consequências reais daqueles dias. Vários policiais ficaram gravemente feridos, o que os levou a abandonar a carreira profissional. São histórias pessoais marcadas para sempre, uma dimensão humana que muitas vezes permanece fora dos olhos do público.
Ao defender a visualização deste documentário, não estamos a impor uma história única, mas sim a defender a liberdade de existência de diferentes histórias. O público também tem o direito de ouvir as vozes daqueles que vestiram o uniforme militar e agiram de acordo com a lei.
O que é verdadeiramente perigoso para a democracia não são os filmes, mas a ideia de que a força ou a intimidação podem decidir que verdade pode ser dita. A Espanha precisa de uma memória completa e indiscriminada. Ele precisa de instituições que apoiem claramente a polícia quando esta opera dentro da lei. E ele precisa de cidadãos que entendam que a violência nunca pode ser justificada, mas a censura também não.
Ficar em silêncio sobre o que aconteceu não fará com que tudo desapareça. Isto só enfraquece a nossa democracia.