fevereiro 1, 2026
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Miriam Herrera é professora de direito penal na Universidade de Sevilha e diretora do Instituto Andaluz de Criminologia. Nos últimos três anos, liderou também um projeto de investigação sobre lazer digital, no qual participaram numerosos investigadores de várias universidades andaluzas. e que acaba de ser traduzido num livro, Crime in the Context of Deviant Leisure, alertando para o aumento do comportamento criminoso online e para a vulnerabilidade dos menores que acedem a conteúdos nas redes sociais, “veneno mental”.

– Captar a atenção e manter os jovens colados aos seus telemóveis tornou-se um grande negócio para a Internet e as plataformas de redes sociais. Quais são as suas consequências?

– Existe uma grande competição por atenção na Internet, ou seja, tentativas de chamar a atenção de alguém. Não tem preço. E como posso chamar essa atenção? Posar ao lado da Giralda com uma xícara de café? Não vou conseguir, mas se fizer um projeto realmente grande, vou receber muitas curtidas. Estamos falando de algo destrutivo, prejudicial, excepcional. E, claro, resolveram o crime. Se eu gravar um estupro, se eu gravar um colega sendo humilhado, as pessoas vão olhar para mim. Aí o cenário, o véu, a aparência do jogo fazem com que muitos menores não percebam a seriedade e gostem. Então, estamos diante de uma motivação que Unamuno, sem falar nos crimes, claro, caracterizou como erostratismo. Eróstrato foi o homem que queimou o Templo de Diana na antiguidade clássica. Então? Para que falem dele há séculos. Bem, é isso que está acontecendo na internet hoje em dia: pessoas causando danos, perseguindo, vandalizando, promovendo comportamentos que mais tarde levam ao suicídio, ou cometendo suicídio. E tudo para quê? Bem, para gostar. Fama, atenção.

A indústria do tabaco estava agindo da mesma forma que as grandes plataformas da Internet estão agindo agora?

– Sim, esta é exatamente a mesma abordagem e atração de clientes que as empresas envolvidas em tecnologias viciantes. Têm a mesma responsabilidade que as antigas empresas tabaqueiras e escapam impunes.

Eles também lidam com veneno?

-É veneno para a mente. Qualquer professor do ensino médio ou universitário pode explicar como a atenção dos alunos está dividida. Depois dos primeiros dez minutos, é preciso dar um verdadeiro show para que eles não te abandonem, pois estão acostumados com pequenos pedaços de informações variadas onde o cérebro não descansa. Os neurocientistas dizem que estas são pequenas explosões de dopamina e, uma vez terminada a explosão, eles querem outra coisa e outro exemplo. E eles precisam de outro documento, precisam de outro vídeo. Isso é muito difícil de lidar. Hoje em dia não há ninguém que consiga ler um livro. Os alunos têm muita dificuldade em ler um livro.

– Você proibiria o uso de celulares em todos os centros de treinamento e para todos os fins?

– Sim, isso já está sendo feito no sistema educacional. Quando começamos a pesquisar, há três anos, descobrimos que há professores que enviam trabalhos de casa via WhatsApp, ou seja, para que possam desenvolvê-los nas redes sociais. Imagine, para efeito de desempenho escolar, sem contar outros conflitos, que um menor faça lição de casa ou tarefas extracurriculares no WhatsApp e receba conteúdo, vídeo, WhatsApp, piada, como aqui. A atenção é interrompida. Tudo o que é chato é estigmatizado. O imperativo categórico é se divertir, não importa o que aconteça.

Referência