novembro 29, 2025
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Tenho uma relação de amor/ódio com os calendários do advento. Amor, porque quem não gostaria de receber surpresas todos os dias. Odeio porque o marketing conseguiu transformar a contagem regressiva simbólica – uma barra de chocolate por dia, um motivo para prolongar a espera pelo Natal – num negócio exagerado. E em muitos casos, fraude.

Não estou exagerando: todo outono as lojas ficam lotadas de caixas prometendo “24 deliciosas surpresas”, “24 experiências únicas”, “24 minutos de prazer”. A maioria deles custa mais do que custa: os que são baratos costumam ser medíocres, e os que são caros muitas vezes também o são. Mas a embalagem brilha e o ritual funciona: abrir uma janelinha por dia dá uma sensação de cuidado e de tempo para si. Talvez seja por isso que continuamos caindo.

Café e chá: ritual faz sentido

Não é de todo ruim. Alguns produtores fazem calendários significativos e honestos. Por exemplo, o calendário de cafés especiais da torrefadora El Noa Noa, com sede em Barcelona, ​​que apresenta 24 latas de café de diferentes torrefadoras, cada uma com sua própria ficha de degustação, origem e perfil de aroma. Cada frasco contém 20 gramas, ou seja, duas xícaras por dia. No total, quase um mês de café de qualidade. Custa 75 euros, o que é 1,56 euros por chávena, menos que o custo de um café normal em qualquer bar. Na minha casa dizem que é um bom negócio.

No mundo do chá, entre os tantos saquinhos aromáticos, também existe a luz. O calendário de chá da Cafetearte, loja madrilena especializada em infusões, vem em caixa ilustrada com 24 xícaras de chá de folhas soltas, o suficiente para duas xícaras por dia. Custa 19,99 euros, um preço muito competitivo para 24 chávenas de chá de qualidade: a felicidade custa menos de um euro por dia. Esta também é uma ótima oportunidade para experimentar novas variedades e ter ideias para compras futuras.

O da Kusmi Tea é vendido como uma joia parisiense, mas dentro há 20 saquinhos de chá individuais e mais quatro chuminadas tipo coador, dois mini potes e gelatina para justificar os quase 50 euros que custa. Kusmi é a marca certa, no nível do Cupper ou do Yogi, mas ainda é um chá pronto em saquinho. Melhor que os Hornimans, sim, mas mesmo com a faixa de ouro não dá para entender o preço.

Queijos: do absurdo ao bom senso

Continuando com a diversão, dei uma olhada nos calendários do advento do queijo. E sim, eles existem. De luxo do Picnic ao “chof” do Costco, passando pelo ponto intermediário (e razoável) de Quesomentero. Há cinco anos que o calendário do Piquenique transforma a antecipação de Dezembro numa desculpa para comer queijo. Cada caixa (ilustrada Málaga moderna– Inclui 24 porções de queijos artesanais, fatiados à mão e embalados, com guia de degustação e caixa de madeira.

Foram selecionados 1,7 quilogramas de queijo de pequenos produtores e processadores europeus. Custa 162 euros, o que equivale a pagar 95 euros por um quilo de queijo: não sei se se justifica, embora seja provável que seja muito saboroso (deveria haver mais). No extremo oposto está o calendário de Ilchester, mais facilmente encontrado na Costco ou na Amazon: nove queijos industriais que se repetem ao longo de 24 dias. Adeus magia surpresa, olá! déjà vu láctico.

No meio, e bem mais razoável, está o Quesomentero (59 euros), que oferece 24 queijos diferentes com uma ficha ou uma pequena receita. As fatias variam em peso dependendo do queijo, há leite cru (rotulado) e pasteurizado, e chegam geladas e prontas para contagem regressiva. Não tem o charme do Picnic, mas tem algo muito valioso: acessibilidade.

Vamos voltar ao chocolate

Se existe um território natural para o calendário do advento, é o chocolate. São, claro, os mais comuns: os do supermercado, com o seu chocolate do dia feito de açúcar, um pouco de cacau e muita nostalgia; e “gourmet”, que muitas vezes são mais refinados no preço do que no conteúdo.

Na categoria “combate mas amigável” está o calendário Ibai Llanos: chocolate normal (mínimo 30% cacau, açúcar como primeiro ingrediente, leite em pó, manteiga de cacau e sabores diversos), além de experiências online e brindes que agregam gamificação. Custa 15 euros por 214 gramas e finge ser nada mais: uma barra de chocolate do dia a dia embrulhada em espetáculo.

Há também o calendário perpétuo da Nutella, que joga muito no mapa emocional: miniformatos, embalagens surpresa, creme por toda parte. Este não é um calendário para revelar as nuances do cacau, mas satisfaz quem o compra: oferece Nutella, promete Nutella, entrega Nutella (sim, a 44 euros o meio quilo, dá para muita Nutella).

No topo do chocolate comercial está a Lindt, que tem calendários para todos os gostos: clássicos, premium, personalizados e em todos os tamanhos. Esta é uma marca típica que nunca falha no seu campeonato: chocolate adequado, textura macia, sem surpresas (para o bem ou para o mal). Um modelo personalizável que permite preencher pequenas janelas com os seus produtos preferidos é uma ideia gira, embora signifique essencialmente pagar um prémio significativo pelo mesmo velho chocolate industrial, só que bem organizado e muito bem apresentado.

Feito o suposto salto de qualidade, chegamos à Godiva, uma marca belga com reputação internacional. O calendário deles é mais caro, mais elegante e menos variado do que você imagina. Muito tinto e pouco cacau (o açúcar ainda está em primeiro lugar, mas você paga como o cacau). O luxo (visual) está presente; O sabor depende do dia.

Completando a escada está o calendário Rocambolesc, que joga em uma liga diferente: chocolates exclusivos com design impecável e um preço que também impressiona. Sim, um calendário com cheiro a cacau, mas também a um cartão de crédito com o preço de 296,6 euros o quilo. O chocolate é bom, poderia ter mais, mas estamos falando de pequenas surpresas no preço das barras. Este é o calendário perfeito para quem ama mais Eu posso do que uma mordida.

Calendários são uma má ideia

Nem tudo que pode ser colocado em uma caixa numerada precisa virar um calendário do advento. Um dos exemplos mais difíceis de justificar é o calendário Ruavieja, que sugere abrir uma garrafinha de bebida alcoólica todos os dias. Promover o snap diário como um ritual pré-natalino é uma espécie de piada interna que saiu do controle.

Mas o prêmio pelo absurdo vai para o Red Bull, que a Amazon comercializa ironicamente como “uma seleção de bebidas energéticas para desfrutar na contagem regressiva para o Natal”. Vinte e quatro latas de cafeína, açúcar e taurina: Advento a 180 bpm. Se o espírito natalino permanecer até Três Reis, eles já resolveram esse problema.

Verdadeiro luxo

Obviamente, o trabalho de selecionar, embalar e embalar 24 peças pequenas é um pouco mais caro. Afinal, o calendário não só nos dá chocolates ou pedaços de queijo, mas também nos dá uma porção adicional de mistério e alegria. Essa pequena emoção de não saber o que vai acontecer hoje faz parte do encanto.

Se precisarmos de um mini-feriado diário, existe sempre a opção de o fazermos nós próprios. Um calendário caseiro com 24 guloseimas: conservas, mel, compotas, chocolate, especiarias, doces ou infusões, escolhidas com amor e pensamento de quem vai degustá-las (que, claro, podem ser nós próprios, embora neste caso o factor surpresa desapareça).

Embrulhe-os em papel de seda branco, numere-os de um a 24 e coloque-os em uma caixa ou cesto; Não há necessidade de desperdiçar ou laminar o planeta: basta escolher com cuidado. Talvez esta seja a melhor solução para 2026: criar um calendário do advento rico, variado e acessível que nos lembre que o verdadeiro luxo não está numa caixa, mas sim na antecipação.

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