Não é porque sou masoquista e não tenho traumas de quebra-cabeças, mas às vezes penso em coisas que não cabem. Barulho em completo silêncio, uma piada sem risos, ridículo durante um duelo. O governante que se afoga e não se afoga … leva, uma ordem internacional desordenada, leis sendo violadas, uma viagem que permanece nos trilhos e se perde antes mesmo de chegar. A vida é catártica demais para encontrar sentido em tudo.
Não encontrei nenhuma injustiça por ele estar algemado Joel Edgerton em “Sonho de Trens”, como também não encontrei, é impossível não lembrar ao assistir o filme, nas vidas perdidas na tragédia da ferrovia Adamuz. No filme indicado ao Oscar, Robert Grainier é um cara econômico e contemplativo que só quer ouvir a esposa falar e passa o resto da vida vagando pela floresta caso no silêncio das árvores encontre as palavras de que sente ainda mais falta quando a vida as tira dele. Construa trens, corte árvores, encontre dramas. Ele carrega um machado nas costas, como se o passado e a dor já não bastassem. “Não sei para onde vão os anos”– ele se pergunta um dia. Mas os anos passam e pesam, como um sentimento de culpa pelo que você perde quando não está mais, pelo que acontece durante uma longa ausência. Lá, o vazio enche mais o estômago faminto do que a comida.
Em algumas de suas viagens, ele conhece um personagem que dá vida. William H. Macyque carrega consigo para sempre uma espécie de ressaca “Sem vergonha”. Enquanto outros derrubam árvores, ele observa, observa. Ele sabe que há algo de blasfemo em destruir algo que valia tanto que tocou o céu. E fale. Um dia o lenhador lhe pergunta: “Essas árvores são tão velhas assim?” E em sua resposta lenta há uma voz de vida: “Existem mais velhos. Tudo neste mundo está entrelaçado. E quando puxamos um fio, não sabemos como isso afetará os outros. Neste planeta somos crianças que desenroscam rodas gigantes e acreditam que somos deuses. Mas os deuses não derrubam árvores, não matam crianças, não riem quando alguém chora, não choram falsamente e não mentem porque são ignorantes.