novembro 29, 2025
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Santiago Posteguillo (Valência, 1967) começou em 2022 com “Roma sou eu” uma saga emocionante em seis livros sobre um dos personagens mais extraordinários da história, Júlio César. Desde então, ele está imerso em um projeto inédito em Literatura espanhola, que deu mais dois frutos: “Roma Amaldiçoada” (2023) e mais recente “Três Mundos” (Ediciones B, 2025), que conta a história da Guerra Gálica, bem como a luta pelas políticas fratricidas de Roma e a expulsão do faraó Ptolomeu XII, que foi expulso do Egito junto com sua filha, a jovem Cleópatra.

— “Três Mundos” é dedicado à conquista da Gália, um episódio chave na vida de César. O que mais lhe interessou nesta campanha militar?

– Sim, é verdade, foi um episódio de vida. Nos romances anteriores contei sobre a juventude de Júlio César e sua ascensão política em Roma, e agora conto sobre sua ascensão militar e um dos momentos-chave do Ocidente. A Gália incluía não apenas parte da França, mas também os territórios da Alemanha, Luxemburgo, Holanda, Suíça, Bélgica e sul da Grã-Bretanha. Tudo ao sul do Reno era a Gália Céltica. Ele queria romanizar todo este território. César, no período de 58 a 52 a.C., faz uma transformação que mudaria o futuro do mundo. Ele sabia muito bem que esta anexação era algo muito difícil que mudaria a segurança de Roma, que sempre teve inimigos tão importantes como os gauleses no norte. Era um território muito fragmentado e essa foi a dificuldade de conquistá-lo.

— O romance mostra um César cada vez mais sombrio e amargo. Como você conseguiu encontrar o equilíbrio entre a admiração pelo estrategista e a crítica à figura histórica?

— Este é um personagem sombrio, mas não é uma crítica direta a ele. Todos nós ficamos amargos na vida porque passamos por crises pessoais. Perdemos um pouco da ingenuidade da nossa infância e juventude, e isso acontece com César. Tentei encontrar um equilíbrio entre a vida pública e privada do personagem. De minha parte, procuro falar sobre a vida privada de César, ou seja, sua relação com mãe, esposa e filha. Em seus textos, ele não escrevia sobre sua vida privada, mas sobre suas campanhas públicas. Para nos voltarmos para sua vida privada, devemos recorrer a Suetônio, Plutarco e Nicolau de Damasco. Também seus inimigos, como Cícero, falam sobre a vida pessoal de César. Cícero nem sempre concordou com César, mas ficou grato por seu irmão, Quinto Cícero, ter recebido sua ajuda na Guerra da Gália. Quintus estava cercado de inimigos e César veio salvá-lo; por ser cidadão romano, não levou em conta que era irmão de seu inimigo.

Já foi dito que César tinha modos de ditador, mas você qualifica essa visão. Como você acha que a figura dele foi simplificada ao longo da história?

— Foi simplificado porque vivemos numa época de enorme simplificação. Quando o Twitter foi lançado, tudo foi reduzido para 120 caracteres. As vidas de personagens tão complexos não podem ser descritas em slogans. Vou contar a vida dele em 6.000 páginas. Um ditador romano não é o mesmo que um ditador do século XXI que mata e aprisiona os seus perseguidores. César não mata nem aprisiona os seus perseguidores após a guerra civil. Aqueles que matam César são pessoas a quem ele perdoou. Houve luz e sombra em suas ações políticas, mas sem a legenda negra que marcou César, vemos que houve mais luzes. Você não pode marcar um personagem de acordo com os parâmetros do século XXI. Este é um erro muito comum. A extensão dos romances históricos permite-me dar algumas descrições dos personagens em seu contexto, para que fique claro como eles se moviam e pensavam. César não foi genocida nas Guerras Gálicas porque não matou a população. Os turcos fizeram isso com os armênios ou os nazistas com os judeus. Os gauleses foram muito duros com os romanos e não fizeram prisioneiros. Após a conquista da Gália, ele não cometeu massacres e tentou integrá-los ao mundo romano. De fato, havia senadores gauleses no Senado Romano.

— A presença de Cleópatra, ainda jovem, é muito marcante. O que significa a inclusão da futura rainha durante este período inicial da sua vida e que paralelos existiam entre as políticas do Egipto e de Roma?

— Tanto Roma como o Egipto estão agora numa crise política. Em Roma, César, Crasso e Pompeu lutam pelo poder contra seus inimigos – uma facção de senadores que se autodenominavam optimates, ou seja, os melhores: Cícero e Catão. Ptolomeu XII é exilado por sua filha Berenice IV, e no exílio ela é acompanhada por sua filha Cleópatra, então muito jovem. Esta é uma parte da vida de Cleópatra que nunca aparece nos romances ou filmes, como é contada desde o seu encontro com César em 48 a.C..

— Qual foi o maior problema em recriar a realidade da guerra sem cair no excesso e na censura?

“Eu não queria me alongar muito sobre o quão terrível a guerra foi, mas também não falei sobre a guerra como se fosse um mundo épico. Estou interessado no choque de estratégias entre oponentes. César sempre teve uma estratégia muito inteligente, assim como seus inimigos, como o rei alemão Ariovisto. Às vezes eu descrevo o mar de cadáveres deixados para trás por esses confrontos. Não apenas os requerentes sofreram, mas também a população civil. A guerra nunca é boa.

“César construiu uma ponte sobre o Reno em dez dias e isso teve um efeito muito psicológico nos alemães.”

Santiago Posteguillo

Escritor

—César dominou a guerra psicológica. Que métodos ou episódios de manipulação estratégica mais o surpreenderam durante a documentação?

“Fiquei muito surpreso que César, quando os alemães cruzaram o Reno para atacá-lo no sul da Gália, tenha mostrado a eles que ele também sabia como cruzar o nordeste. Em vez de usar barcaças, ele construiu uma ponte de madeira sobre o Reno em dez dias. Este trabalho de engenharia surpreendeu os alemães porque teve um efeito muito psicológico. Eles pensaram que se ele construísse uma ponte em dez dias, o que faria em uma batalha em campo aberto. César contou com o apoio de Vitrúvio, de quem recebemos seu trabalho “Dez Livros sobre Arquitetura”. A estrutura de madeira é mais leve que a de pedra, mas ainda assim surpreendente.

— Ele é o autor de romances históricos em espanhol mais lido. Como você percebe a responsabilidade de escrever para um público tão amplo e exigente?

– Claro, a palavra “responsabilidade” é boa. Vivencio isso como uma responsabilidade, por um lado, porque sei que o que escrevo será lido por milhões de pessoas. Trabalho técnicas de documentação e storytelling, mas também vivo por incentivo porque o que você faz interessa muita gente. A chave é que estamos interessados ​​na era romana, mas é como você conta as coisas que importa. Você tem que falar sobre eventos interessantes nos quais procura entretenimento. Quero que os leitores conheçam a história, mas conto tudo do ponto de vista audiovisual e cinematográfico. Os romances são traduzidos para dinamarquês, inglês, checo, polaco, árabe, russo, ucraniano, etc. Curiosamente, são traduzidos para dois inimigos que estão agora em plena guerra.

— E por fim, o que você pode nos contar – sem spoilers – sobre o quarto romance da saga?

— No quarto romance vemos toda a rebelião de Vercingetórix. César acredita ter a Gália sob controle, mas ainda há aqueles anos difíceis de 51 e 50, caracterizados por conflitos no Senado, que levaram à guerra civil.