fevereiro 3, 2026
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Uma aristocracia não se mede pelos nomes que carrega no armário, mas pelas responsabilidades que assume. Rafael Atienza, Marquês de Salvatierra e Tenente Hermano Prefeito da Cavalaria Real Maestraniana de Ronda, acaba de publicar o livro Herdar os Méritos (Pré-Textos, 2025).na medida do necessário ensaio sobre o papel da aristocracia. E isto acontece num momento em que preferem não se olhar no espelho do passado (a nobreza ajudou a criar a Espanha durante séculos), e isso obscurece estes debates. A obra pouco tem a ver com a história das genealogias e dos brasões, embora esconda os seus vestígios; Esta é uma análise da legitimidade e do actual declínio das elites. Além disso, o autor aprofunda habilmente um coquetel de conceitos hoje suprimidos por serem considerados retrógrados: honra, tradição… Tudo isso para entender que o pedigree, e não o status herdado, era um dever: o dever do serviço público.

– “Herança de mérito” implica um curioso paradoxo. Como alguém pode herdar o que é tradicionalmente adquirido pessoalmente e através da virtude individual?

É óbvio que o mérito não pode ser herdado. Mas o princípio de que o nascimento nobre permitia manter certas virtudes durou surpreendentemente muito tempo, daí o título, que é, obviamente, um oxímoro. O que é universal é a obrigação dinástica que menciono no subtítulo: toda elite procura uma forma de se perpetuar nos seus herdeiros, mas só a aristocracia de sangue conseguiu isso ao longo dos séculos.

– O ensaio fala de conceitos que hoje parecem ser insultados: honra, nobreza, tradição… Por que você acha que eles adquiriram hoje um significado quase depreciativo para as novas gerações?

Bem, mais do que depreciativo, cansativo. O discurso justificativo da nobreza tem quase um milénio e é inevitável que se torne ultrapassado e anacrónico. Um artigo recente publicado pelo jornal El País analisou a frequência, crescente ou decrescente, com que apareciam certas palavras significativas após quarenta anos de sua existência. Entre eles, honra, obrigação ou dever foram conceitos que nunca deixaram de declinar, beirando o perigo de extinção.

– Uma questão que parece simples, mas esconde muita essência: como podemos definir aristocracia?

Existem definições etimológicas, históricas e sociológicas, mas não consegui dar uma definição completa e satisfatória. É por isso que no título falo de aristocracia no plural. Talvez “classe dominante hereditária” seja uma síntese aceitável.

-Passemos à parte histórica em si: que funções tinha a aristocracia no seu início? Você cita vários como, por exemplo, a vocação do serviço público.

Essa vocação define a aristocracia. O seu objectivo não era uma cimeira social ou económica, mas o objectivo do Estado, e para este objectivo tiveram de sacrificar a família e o património. Uma família com bens que excluem outros filhos da propriedade da família. Propriedade com ligações que não permitiam a estes primogénitos dispor dela, mas apenas receber os seus rendimentos para cobrir as significativas despesas associadas à implementação da gestão, que era extremamente onerosa. Inúmeras famílias nobres europeias arruinaram as suas propriedades devido ao seu papel como classe dominante. Naturalmente, estou simplificando, são princípios. Há uma citação significativa de Tocqueville em 1831: “Na América descobri o que sempre duvidei: que a classe média pudesse governar o Estado”.

E ouso dizer que hoje existem carreiras políticas onerosas e estas não deveriam ser exceção. Os governantes devem sacrificar mais frequentemente os rendimentos que poderiam obter de actividades privadas para desempenharem funções públicas.

-A nobreza desempenhou um papel fundamental na formação da Espanha?

Bem, a classe dominante em toda a Europa antes da Guerra de 14 era predominantemente hereditária, por isso a nobreza tinha enorme influência em todas as áreas. Os cinco séculos de Europa, desde a Renascença até ao século XX, foram inegavelmente aristocráticos. É preciso perguntar se as aristocracias eram mais ou menos favoráveis ​​aos governados do que outras oligarquias do seu tempo.

– A nobreza tem alguma outra função no mundo moderno? Deveriam assumir alguma outra função que não a manutenção de seus títulos como forma de combater a evaporação da tradição?

Que pergunta fazer em 2026. A nobreza não existe em nosso ordenamento jurídico, que função corporativa ela terá? Ele até perdeu seus inimigos. O mantra habitual é exemplar, mas nunca pode ser coletivo. Não conheço virtudes coletivas, embora talvez existam vícios como o gregarismo ou a barbárie. Quanto à tradição a que alude, ela não está no seu melhor, exceto nos nacionalismos mais irreparáveis. Rotular uma pessoa como tradicional, tendenciosa ou tradicional hoje é um insulto. E ainda, o que aconteceria conosco sem convenções, preconceitos e tradições. Começar sempre do zero, que adanismo.

“A nobreza não existe em nosso sistema jurídico; que função corporativa ela terá? “Ele até perdeu seus inimigos.”

– No final do livro você destaca a recente crítica à meritocracia com um título bastante aristocrático: a meritocracia não obriga.

Sim, e terei que esclarecer esta resposta: o termo “meritocracia” sobreviveu devido ao acerto da sua escolha: é difícil criticar a ideia de mérito como elevador social. Isto foi um sucesso porque a maioria das condições que promovem o desenvolvimento social ou académico não são dignas de elogios. Inteligência, atratividade, boa saúde, imaginação, talento são pelo menos tão importantes quanto o esforço e a perseverança, e não são dignos de elogios, embora sejam invejáveis. O termo “talentocracia” seria mais apropriado, mas é demasiado politicamente incorreto.

A selecção meritocrática é mais favorável à igualdade de oportunidades, mas o seu funcionamento está longe das suas aspirações, e por isso sempre foi criticada como insuficiente. Até que um ilustre professor de Harvard disse que o mérito corrói a sociedade pelo ressentimento que gera, já que “não há nada mais desmoralizante para os perdedores do que pensar que têm o que merecem”. Assim, deixámos para trás o poder, a linhagem, a herança ou a influência como fontes de poder ou qualificação, e agora parece que devemos também deixar para trás capacidades e talentos pessoais que incorporam novas causas de ressentimento.

A ironia final é que, em última análise, ele sugere que uma aristocracia seria melhor, uma vez que aqueles que são privilegiados saberiam que o seu privilégio se deve ao seu nascimento e não ao mérito, e sentir-se-iam obrigados. Daí o título ao qual você se refere.


  • Editorial
    Pretextos
  • Páginas
    392
  • Preço
    30 euros

– Como a aristocracia deixou de exalar solenidade e se tornou o centro da imprensa tablóide?

Na imprensa sensacionalista, a cola é simplesmente a fama, que confunde os limites que separam artistas, príncipes, estrelas de cinema, aristocratas e cantores. Tudo o que aparece nesta imprensa, sem mais delongas, responde ao nome de “famoso”. O número de casamentos de modelos ou artistas com membros de famílias aristocráticas aumenta a cada ano, até porque muitas destas famílias também são “famosas” e cada vez menos diferentes de (outros) profissionais da indústria do entretenimento. Os descendentes das respetivas linhas têm de viver da moda, do design e da publicidade, a que têm fácil acesso devido ao seu nascimento e perceção de sofisticação, e competir com outras celebridades neste difícil mercado.

– A nobreza tem sua própria Lenda Negra especial?

Eu não acho. Desde o nascimento ela foi criticada por ser arcaica e irracional, mas também conquistou respeito e aprovação surpreendentes. Ainda hoje, tendo perdido o seu património, poder e relevância, é objecto de estudo de historiadores e sociólogos, e o número de livros e estudos multiplica-se. Sem falar nos filmes e séries de TV que exploram impiedosamente essa veia.

Referência