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A proclamação de Delcy Rodriguez como “presidente-chefe” da Venezuela, após a captura e transferência de Nicolás Maduro para Nova Iorque pelas tropas dos EUA, marca o início de uma experiência sem precedentes: pela primeira vez, uma ditadura marxista-leninista com quase três décadas de raízes está a ser forçada do exterior a reformar-se a partir do interior. A declaração emitida por Rodriguez após a sua primeira reunião do Conselho de Ministros não é uma simples declaração de intenções: é o primeiro passo de uma operação desenhada e controlada por Donald Trump e o seu Secretário de Estado Marco Rubio. A remoção de Maduro não torna automaticamente a Venezuela um país democrático. Pensar que uma ditadura comunista pode renascer por si só seria ingénuo. Os EUA argumentam que a única forma de destruir o modelo cubano implementado na Venezuela sem iniciar uma guerra civil, paradoxalmente, é através daqueles que o construíram. Mas esta lógica acarreta riscos enormes. Rodriguez não é nova neste regime: ela tem sido uma das suas figuras-chave desde a era Chávez. Ministra dos Negócios Estrangeiros, do Tesouro, vice-presidente e face visível do aparelho de censura, o seu perfil não reflecte bem a divisão. Embora o chavismo esteja agora a tentar voltar-se discursivamente para Trump, demonstrou uma notável capacidade de mimetismo. Chávez resistiu ao golpe e ao referendo; Maduro fraudou as eleições e permaneceu no poder apesar da rejeição popular. Nada impede o chavismo de repetir o esquema: fingir reformas, libertar alguns prisioneiros… e manter o controle nas sombras. A legitimidade política não pode ser diluída por fórmulas de transição aprovadas por uma potência estrangeira. A Venezuela tem um presidente eleito, Edmundo Gonzalez, cuja vitória foi anulada por fraude, coerção e violência institucional. Negar agora esta legitimidade, ou substituí-la por um governo de compromisso sob controlo internacional, equivaleria a cometer um segundo ultraje democrático, desta vez em nome da ordem. Neste contexto, Maria Corina Machado não é apenas uma líder política: ela é um símbolo moral da resistência democrática. Eliminar aqueles que tinham esperança e pagaram o preço mais alto seria uma concessão imperdoável e daria oxigénio aos arquitectos do narco-estado, perpetuando a impunidade. A imagem de uma potência estrangeira governando um país independente, mesmo que de forma “temporária”, ativa reflexos históricos que são demasiado familiares à América Latina: vice-reinados, estados fantoches, administrações coloniais com outro nome. A experiência recente mostra que estas fórmulas raramente conduzem à democracia completa; Pelo contrário, consolidam elites que resistem à mudança e perpetuam dependências. Por esta razão, os Estados Unidos e outros intervenientes internacionais devem assumir o papel de garantes e não de directores do processo. O seu dever é proteger a vontade do povo venezuelano e não suplantá-la. Reduzir a liberdade de um país para controlar os seus recursos, como Trump tem imprudentemente implícito, significa repensar um antigo modelo de domínio que já não tem lugar. A comunidade internacional reagiu com cautela. A União Europeia reconheceu que a captura de Maduro poderia abrir caminho para uma transição real, mas também evitou apoiar totalmente a estratégia dos EUA. Esta nuance é fundamental: não se trata de ignorar a brutalidade do chavismo, mas sim de não permitir que o seu fim legitime uma nova forma de imposição. O período de transição na Venezuela deve ser construído com base na justiça, na verdade e na soberania popular. Todo o resto é maquiagem. Ou, pior, continuidade.

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