janeiro 24, 2026
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Algumas viagens são planejadas com mapas e planilhas de rotas. Há outras que, mesmo com tudo isto, começam muito antes, num local menos perceptível: na nossa memória. Esta é uma daquelas viagens. Quando no dia 24 de janeiro cruzamos o Atlântico em direção ao Brasil, Uruguai. e Argentina, não o faremos apenas para ligar capitais ou utilizar recursos aéreos de última geração. Faremos isso, antes de tudo, para dialogar com a história, que tem cem anos e que no Exército Aeroespacial ainda está viva, nos desafiando.

Para mim esta viagem é uma forma de retorno. Não para um passado que nunca volta, mas para um profundo sentido de por que voamos. Em 1926, um grupo de aviadores a bordo do Plus Ultra embarcou em mais do que apenas uma aventura romântica ou uma magnífica façanha, eles realizaram uma missão cuidadosamente concebida, metodicamente executada e fortalecida pela convicção coletiva. Estes aviadores não pretendiam tornar-se heróis, mas mostrar do que a Espanha era capaz. Capaz na técnica e no espírito, capaz de abraçar a solidão da fuga e olhar para o horizonte com a calma determinação de um homem que sabe que é algo maior que ele mesmo.

No século XXI, repetir simbolicamente este percurso pelos meios atuais não é um exercício de nostalgia, mas sim uma afirmação de continuidade. Ontem teve hidroavião de metal, cálculo de rota e noite no mar; são seis hoje Eurocopter EC120 Kolibridois A400Ms, planejamento milimétrico e uma cultura de segurança madura. Mas há algumas coisas que permanecem intactas: o trabalho em equipe, a responsabilidade tácita e o chamado ao serviço como principal força motriz.

Para mim esta viagem é também uma lição de humildade. Porque, viajando pelas mesmas taças, você entende até que ponto somos herdeiros dos pioneiros. Tudo o que fazemos hoje não surge do nada. Por trás de cada procedimento, de cada decisão operacional, de cada gesto institucional estão décadas de experiência, sucesso e sacrifício. Voar nesta rota é perceber que estamos andando ou voando sobre ombros de gigantes que abriram caminho quando não havia espaço para erros.

Existe também uma dimensão humana que é difícil de explicar com números ou afirmações. A fuga para a América é um reencontro com os países que em 1926 receberam o Plus Ultra como algo próprio, como um feito comum. Regressar agora significa renovar ligações, olhar mais de perto a história partilhada e declarar sem alarde que ainda estamos aqui, com o mesmo compromisso de cooperação e, acima de tudo, de respeito.

Como soldado e comunicador, sinto a responsabilidade de contar a verdade sobre esta viagem. Sem pomposidade desnecessária, mas também sem esconder a sua carga simbólica. Porque explicar porque fazemos o que fazemos faz parte do nosso serviço. Mas porque a história, se bem explicada, não é um peso morto, mas uma bússola.

Esta viagem não é apenas um memorial, é uma forma de lembrar que voar, naquela época e agora, sempre foi um ato de disciplina, confiança e fé nos outros. E que, cem anos depois do Plus Ultra, continuamos a acreditar nas mesmas coisas: no espírito de equipa, na coragem, no dever e na capacidade de Espanha olhar “além”.

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