fevereiro 8, 2026
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Os faróis brilham, emitindo luz onde a escuridão prevalece naturalmente. Ao prolongar a sua oscilação, os vaga-lumes despertam a consciência do marinheiro. Assim, a luz do farol supera o barulho das ondas, e com o seu barulho espera que quem o ouça evite o desastre, pois onde quer que esteja o farol há perigo para quem cerca o domínio de Netuno.

Os acendedores de lâmpadas devem realizar seu trabalho com rigor e disciplina. Despertar a consciência dos marinheiros é um assunto sério, caso contrário o resultado pode ser catastrófico. Infelizmente, existem bluff-lighters e bluff-lighters. Há quem faça o trabalho com dedicação e aço enquanto Aquiles vai para a batalha, porque sabe que iluminar a noite escura é tarefa do guerreiro. Mas também há acendedores de “slogan”, como o acendedor do Pequeno Príncipe, que se limitam a acender e apagar a luz todos os dias, sem realmente se perguntarem por que o fazem. Eles fazem isso simplesmente porque isso deve ser feitomecanicamente e regularmente. Esses acendedores evitam o desastre, mas desconhecem a magia por trás da luz do farol, pois ela, além de alertar para o perigo, busca abrir uma fresta e estimular o surgimento de novidades nos viajantes. Pior ainda, encontrar um farol no meio da noite é algo, digamos, fora do comum.

A novidade do farol é que ao ver sua luz o viajante aprende alguma coisa. Eles sabem que precisam estar alertas, realizar as manobras corretas e ter cuidado e cuidado ao manusear o navio. O sussurro do farol transmite-lhes uma prece: “Acorda, marinheiro! Nem tudo é mar e prazer de sereia!”

Bem, então. A vida não é só superfície e ambrosia de sereia. Existem também rochas, ilhotas e rochas. Sem faróis, é provável que acabemos presos, desorientados e com dores. Daí a importância de criar acendedores de lâmpadas (e, mais importante, de sermos acendedores de lâmpadas para você e para aqueles que o rodeiam). Ao semear vaga-lumes, despertamos esperança e criamos conforto. Abrimos os olhos da consciência para ver o que antes não podíamos apreciar.

Velejar, assim como a vida, pode ser uma experiência cansativa e frustrante. A vida é cheia de pedras e sem gostos. Apesar das maravilhas que o oceano nos oferece, a sua natureza também tem um tom dionisíaco e inebriante. A distância pode por vezes tornar-se insuportável: a perda de um ente querido, um acidente, o fim de uma relação, a doença, a perda do emprego ou a solidão são experiências com forte carga emocional (ou mesmo existencial), e por isso exigem resiliência, determinação e coragem.

Nas suas obras filológicas juvenis, Nietzsche oferece uma nova leitura dos gregos. Na sua opinião, o seu génio como civilização deveu-se, entre outras coisas, ao facto de, contemplando a falta de sentido da existência e o horror do abismo, não se esquivarem dele e não se afastarem dele. Os deuses olímpicos que conhecemos, apolíneos idealizados em mármore branco e envernizados de harmonia, proporção e beleza, nada mais eram do que uma criação com a qual os helenos se protegiam do caos e das trevas que viviam nas festas dionisíacas, onde, bêbados e extáticos, se desintegravam na sua individualidade para se fundirem com a natureza ou com o Primordial.

Acordando da orgia e voltando a si, os gregos sentiram náusea existencial. A origem dionisíaca deixou-os perturbados e desorientados por ser um remédio de difícil digestão. A dissolução da identidade não é gratuita. Daí o papel curativo dos deuses do Olimpo, uma vez que serviram como intermediários e ponte entre o homem e a natureza. Uma espécie de espelho no qual se viam refletidos e transformados para dar sentido às suas vidas.

Os helenos eram acendedores de lâmpadas à sua maneira. Tendo perscrutado as rochas da existência, eles não correram para o pôr do sol, mas iluminaram a escuridão com o divino. A tragédia grega, enquanto obra estética, serviu de síntese destas duas forças: ao contrastar o apolíneo (o reflexo da moderação e da beleza) com o dionisíaco (o abismo, a embriaguez e o êxtase), o público do drama testemunhou a sua própria catarse, uma vez que estas forças vivem dentro de cada indivíduo. Só nesta dança agonística entre a luz e as trevas, entre as ondas furiosas da tempestade e a calma serena com que o farol luta e espalha o seu manto luminoso, podemos superar e transformar a dor em sentido.

Ser acendedor de lamparinas significa acreditar que a noite não dura para sempre. Que não existe tempestade sem fim na vida. Você pode transformar a ousadia das marés em ondas suaves e doces para lavar os pés descalços. Mas para isso teremos que enfrentar a nossa noite, a noite da alma que passa pelo nosso tempo. Uma época que exige guerreiros, alquimistas, prontos para transformar o horror em risos infantis. Esta criança, como nos ensina o Zaratustra de Nietzsche, simboliza uma nova consciência, um novo começo, a palavra sagrada da vida “sim”!

Portanto, hoje, mais do que nunca, volta a nós a responsabilidade de fazer a pergunta: “Quais pedras estou iluminando?”

Referência