“Quando você migra como mulher e latina, as funções já estão designadas: cuidar ou limpar.” Diana (nome fictício a pedido do interlocutor) chegou às Ilhas Canárias em 2022 vinda da Colômbia, fugindo dos conflitos internos do seu país. Durante todos esses quatro anos ele não parou de trabalhar. No entanto, a sua situação administrativa obriga-a a fazê-lo nas sombras e em condições indignas. “A tensão no trabalho no sindicato das empregadas domésticas é muito grande. O corpo entra em colapso emocional e físico total”, admite.
A legalização de emergência de estrangeiros, aprovada pelo governo espanhol, embora tardiamente, foi saudada como uma boa notícia por muitas mulheres que durante anos suportaram tratamento degradante por parte dos seus empregadores. “Humilhação, grande humilhação. Uma vez pedi um cinto para dar mais estabilidade às minhas costas e disseram que não, era isso”, diz Luisa*, uma colombiana de 53 anos que trabalhava em Gran Canaria cuidando de um idoso.
“Quando você não tem autorização de trabalho, eles te insultam. Não pagam o que você é”, explica em entrevista concedida a esta redação poucos dias antes de completar seis anos no país. Das 24 horas do dia, Louise, que era funcionária pública na Colômbia, tinha apenas três horas livres. “Trabalhei 21 horas, cheguei em casa, dormi uma hora e saí de novo, além do esforço físico de transportar uma pessoa completamente acamada”, lembra. Tudo isso pagando abaixo do salário mínimo. “É exploração, mas é preciso suportá-lo por necessidade”, conclui.
O tempo que Louise passou trabalhando nessas condições teve um impacto sobre ela. Suas costas, coluna e quadris “não funcionavam mais”. O mesmo aconteceu com Diana quando trabalhava como empregada doméstica num hotel em Gran Canaria. “Em uma jornada de oito horas com 30 minutos para alimentação, é preciso limpar 25 quartos, áreas comuns e restaurantes”, detalha.
“No sindicato das empregadas domésticas eu pesava 45 quilos, porque esse é um setor muito explorado, vulnerável e pouco respeitado. Há muitas reivindicações, mas não acontece absolutamente nada. Quando acontece uma fiscalização, os dirigentes já sabem”, reclama Diana. “Trabalhei como auxiliar de contabilidade no meu país e, embora aqui me sinta mais segura, nunca imaginei que trabalharia num local onde a minha saúde estaria em risco”, lamenta.
Quando uma empresa ou empregador toma uma decisão, “eles dizem que nos vemos mais tarde e pronto”. “Você não tem reconhecimento por esse trabalho, nem indenização, nem férias. Nada”, acrescenta Louise.
Documentos para “paz de espírito”
A regularização emergencial estará disponível para aqueles que chegaram à Espanha antes de 31 de dezembro de 2025 e permaneceram no país continuamente por pelo menos cinco meses antes do processamento do pedido. Os requerentes de proteção internacional que solicitaram asilo antes de 31 de dezembro do ano passado também poderão beneficiar desta medida e não terão de optar por não participar neste procedimento para obterem a regularização.
Para evitar maiores obstáculos neste processo, será aceito qualquer documento público ou privado, ou uma mistura de ambos, que comprove a continuidade da residência no país, e não apenas o registro. “Essa é uma oportunidade de ganhar confiança. Quando você faz um procedimento, sempre fica a dúvida: será aprovado ou não… Agora, com a regularização, parece que isso é algo mais seguro”, avalia Luísa.
O mesmo se aplica a Diana, cuja situação administrativa gerou anos de frustração e preocupação. “É a incerteza de ser deportado, de perder o emprego… Você não tem direito a nada”, insiste. “Se forem dadas ferramentas às pessoas, isso beneficiará o indivíduo e o país. Contribuirão para a segurança social, pagarão impostos… Todos serão beneficiados”, afirma Louise.
Segundo estimativas do Ministério das Migrações, as candidaturas deverão começar no início de Abril, estando o processo aberto até 30 de Junho. O prazo máximo de apreciação será de três meses, e só depois de recebidas as candidaturas para processamento, que devem ser resolvidas no prazo de 15 dias, é que as pessoas poderão começar a trabalhar.
Esta será a sétima regularização extraordinária aprovada em Espanha. Duas delas foram realizadas em 2000 e 2001, durante o governo de José María Aznar (PP), e permitiram a legalização de 503.327 pessoas. Outros quatro foram aprovados pelos governos socialistas de Felipe González e José Luis Rodríguez Zapatero em 1986, 1991-92, 1996 e 2005.
Embora seja impossível calcular o número real de estrangeiros que poderão aceder a esta medida, estima-se que existam pelo menos 45 mil nas Ilhas Canárias. Esta decisão nasceu nas ruas, de mãos dadas com o movimento “Regularização do Estado Já”, e ganhou força durante a pandemia. “Embora cada um tivesse a sua ERTE, as pessoas em situação administrativa irregular e exploradas não tinham nada”, recorda Redwan Baddu, representante do movimento nas Ilhas Canárias.
A recolha de assinaturas começou em Fevereiro de 2022 e, em menos de um ano, recebeu o apoio de 700 mil pessoas, muito mais do que as 500 mil necessárias para introduzir a Iniciativa Legislativa Popular (PLI). A tomada em consideração da iniciativa foi apoiada por todos os grupos parlamentares, exceto o Vox, mas a falta de acordo político fez com que permanecesse bloqueada durante vários meses. Por esta razão, Podemos e o governo concordaram em realizar a regularização extraordinária através de um regulamento e sem a necessidade da sua aprovação pelo Congresso.
Diana e Louise também lembram que puderam visitar familiares na Colômbia e agradecem o trabalho do movimento Regularização Agora. “Conseguirei obter uma autorização de trabalho por um ano, não ficarei amarrada e não poderei sair. Não posso sair de Espanha com o meu pedido de asilo”, explica Diana. Na Colômbia, Luisa tem uma das filhas, a mãe, irmãos e sobrinhos. “Estou ansiosa para passar um tempo com minha família”, diz ela, esperançosa.