janeiro 31, 2026
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Foi uma boa semana para ver que o retorno do catolicismo é apenas uma miragem. É assustador como é fácil fazer uma anedota passar por uma categoria, tornar-se um “impulso” e o espírito de uma época. E tudo isso apesar de não haver uma única evidência que sugira tal coisa. Não, não somos mais católicos. Pelo contrário, tudo parece indicar que somos cada vez menos. Deve recordar-se que, para saber se uma sociedade se está a tornar mais católica, teremos de avaliar se as consequências da aceitação do Evangelho se estão a tornar cada vez mais visíveis nessa sociedade, isto é, se esta se está a tornar mais compassiva, mais misericordiosa, mais justa, mais humilde, mais atenciosa com os fracos e mais misericordiosa.

Infelizmente, a reacção dos últimos dias mostra que não é esse o caso. Pode haver um identitarismo que vê a cruz como uma bandeira. Mas a cruz é o oposto da bandeira. As bandeiras servem para separar o que é essencialmente igual, enquanto a cruz serve para unir o que é aparentemente diferente. Esta é a mensagem católica: a universalidade do chamado e da presença do Deus vivo. Se a cruz deixar de nos servir para nos unir aos outros e se tornar uma ferramenta para nos distinguir deles, deixaremos de servi-la, de usá-la. Ou seja, usá-lo da forma mais indecente.

Mas há algo que é ainda mais assustador. Não só não há abordagem ao catolicismo por parte daqueles que estão tradicionalmente mais distantes, mas também porque alguns daqueles que pensávamos serem próximos estão a revelar-se cada vez mais distantes, mostrando-se menos compassivos, menos misericordiosos, menos justos, menos humildes, menos atenciosos com os fracos e menos capazes de perdoar. A luta política é legítima, mas alheia à fé, que é transversal. E estou orgulhoso de que, face à tentação clerical, a Conferência Episcopal tenha escolhido a coragem, a integridade e a defesa da sua doutrina baseada na dignidade humana, na justiça e na misericórdia. E que, diante dos ataques de seus inimigos, ela se mostra especialmente calma e tranquila.

Nossa fé não é um artefato político. O Cristianismo nasceu não para ordenar o mundo, mas para criar desordem nele. Nasceu não para nos firmar na tradição, mas para explodi-la no ar. Em primeiro lugar, ele nasceu não para transformar o outro em problema, mas em vizinho. É por isso que a questão não é se a Espanha voltará a ser católica. A questão é se nós, católicos, continuamos a assemelhar-nos à mensagem que dizemos aceitar, e se o que é defendido politicamente é compatível com um Evangelho que começa com os pobres e termina com a morte na cruz. Ficamos confortados com a ideia de que o problema está lá fora. É mais desagradável admitir que talvez o problema esteja dentro de nós. E isto só pode ser corrigido retribuindo ainda mais aos nossos vizinhos e aos necessitados, e aceitando o desprezo e o ódio que isso implica. Isto é, um retorno à cruz. Mas não como bandeira, mas como derrota.

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