janeiro 11, 2026
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Assim que uma pessoa lê a imprensa, ouve a rádio ou simplesmente folheia as manchetes desportivas, a expressão aparece repetidamente, como se fosse um reflexo automático: “a cidade de Barcelona”. Madrid perde para o Barcelona. Abra uma loja em Barcelona. O macroevento chega a Barcelona. Foi repetido com tanta frequência que acabou se tornando um bordão comum, integrado à linguagem cotidiana sem maiores questionamentos.

O problema (se houver) é que nem todo mundo sabe de onde vem. E não é estranho. Hoje Barcelona é uma cidade global, diversificada, cheia de pessoas que não nasceram aqui, nem na Catalunha, nem mesmo em Espanha. Assumir que todos conhecem as origens de certas expressões históricas é, no mínimo, optimista. Por isso é aconselhável parar um minuto e explicar bem, sem divagações e sem romance desnecessário.

Porque a razão pela qual Barcelona É conhecida como “cidade do condado”, o que não é simbólico nem literário. Isso é literal.

Fronteira do Império Carolíngio

Para entender isso, é preciso voltar ao século IX. Naquela época, o norte do que hoje é o território catalão fazia parte de uma faixa fronteiriça criada pelo Império Carolíngio para conter a expansão muçulmana a partir de Al-Andalus. Esta área ficou conhecida como Marca hispânicauma espécie de terra-tampão localizada entre o Império Franco e Califado de Córdoba.

Esta Marcha não foi um território único, mas um conjunto de condados governados por condes originalmente nomeados pelos monarcas francos. Girona, Osona, Urgell, Barcelona… cada um tinha a sua conta, mas todos responderam, pelo menos inicialmente, ao poder carolíngio. E aí vem a chave: o centro político e administrativo desta rede de condados era Barcelona.

No início não era a cidade mais populosa nem a mais rica, mas era a mais estrategicamente importante. A partir daqui foi coordenada a defesa, administração e organização do território. E quem governou Barcelona não foi nem rei, nem duque, nem imperador. Ele era um conde.

Condes de Barcelona e o peso do sobrenome

Com o tempo, esses cargos distritais deixaram de ser temporários e passaram a ser hereditários. Ou seja, o conde não era mais um funcionário do império, mas o verdadeiro chefe do território. E aí vem uma das sagas familiares mais duradouras e intrincadas da história medieval catalã: Ramon Berenguer.

Durante gerações, o condado de Barcelona foi governado repetidamente por condes chamados Ramon Berenguer. Tanto que houve momentos em que os nomes foram repetidos com pequenas variações para evitar o colapso nominal. Isso não é exagero: houve até quatro casos consecutivos com esse nome que causaram dores de cabeça aos estudantes de história durante séculos.

O mais decisivo de tudo foi Ramón Berenguer IV. Não tanto pelo que fez em Barcelona, ​​mas por com quem se casou.


Ramón Berenguer IV casado Petronila de Aragãoherdeiro do Reino de Aragão. Esta união não foi uma história de amor requintado, mas sim um movimento político de primeira classe. Graças a este casamento, os condados catalães e o Reino de Aragão tornaram-se dinasticamente ligados, levando à formação de uma nova entidade política: Coroa de Aragão.

Barcelona, ​​​​que já era o centro dos condados, tornou-se uma das principais cidades da potência mediterrânea em expansão. Mas – e isto é importante – nunca deixou de ter as suas origens institucionais: a cidade foi governada por condes durante séculos. Daí o apelido.

Um nome que sobreviveu mil anos

O que é verdadeiramente curioso não é a origem do termo, mas a sua persistência. Quase mil anos se passaram desde que Barcelona deixou de ser, a rigor, uma cidade governada por condes. Foi a capital do principado, uma cidade-chave da coroa, um centro industrial, uma capital regional e uma metrópole global. E ainda assim o apelido permaneceu.

Talvez porque pareça solene. Talvez porque esteja associado à ideia de um passado medieval, que continua a funcionar como sinal de identidade. Ou talvez simplesmente porque a linguagem é preguiçosa e tende a repetir fórmulas sem fazer muitas perguntas sobre elas.

Porém, quando alguém volta a falar da “cidade de Barcelona”, é importante saber que não se trata de uma metáfora vazia ou de um disparate jornalístico. Isto é pura história. E bem especificamente.

Referência