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O caso do ex-tenente venezuelano Ronald Ojeda Moreno, um refugiado político sequestrado e morto em Santiago em 2024, ressurgiu no Chile após a captura de Nicolás Maduro e sua esposa Celia Flores em um ataque dos EUA em Caracas na manhã de sábado. O promotor Hector Barros Vázquez (Linares, 57 anos), coordenador da área metropolitana da ECOH encarregado da investigação deste crime realizado pelo trem Aragua, abriu a possibilidade de obter uma declaração do líder chavista, que permitiria avançar no exame da tese de que o assassinato do ex-militar foi ordenado na Venezuela.

Em entrevista ao EL PAÍS, Barros insiste que depoimentos reservados, provas e outras evidências indicam que Diosdado Cabello, ministro do Interior e da Justiça da Venezuela, negociou com a organização criminosa, até pagando dinheiro, pelo sequestro e morte de Ojeda, um oponente vocal de Maduro que está envolvido em um plano fracassado para derrubar o governo chavista em 2023. “Parece-me improvável que ele (Cabello) seja o único autor intelectual do assassinato de Ronald Ojeda”, diz ele. em seu escritório em Santiago.

A complexidade do caso, que encerrou a fase investigativa em dezembro de 2025, foi que os promotores chilenos enfrentaram um muro quase intransponível na obtenção de informações na Venezuela sobre suspeitos envolvidos no crime, especialmente aqueles que eram fugitivos da justiça, disse Barros. Segundo o procurador, esta falta de cooperação impediu uma maior “investigação do aspecto político” do caso. Por outro lado, quase todos os autores dos materiais já foram identificados e muitos foram indiciados.

O dissidente de 32 anos foi sequestrado por membros disfarçados da Polícia Investigativa Chilena (PDI) na madrugada de 21 de fevereiro de 2024. Ele estava em casa com a esposa e o filho quando foi retirado de seu apartamento no município de Independência, de cueca. Nunca pediram resgate por ele, mas usaram vários veículos para levá-lo a uma casa em uma área informal da comuna de Maipu, onde foi torturado e morto menos de 72 horas após seu sequestro, segundo relatórios forenses. Seu corpo foi encontrado apenas 10 dias após seu desaparecimento em uma mala coberta de cimento. “Ronald Ojeda sempre foi um problema para o governo venezuelano”, diz Barros.

Em 2017, o antigo tenente do exército foi preso na prisão militar de Ramo Verde, no estado de Miranda, a 29 quilómetros de Caracas, de onde fugiu para se instalar no Peru e depois, por se sentir perseguido, indicaram os seus familiares, instalou-se no Chile, recebendo o estatuto de refugiado político. “Continuou muito ativo nas redes sociais e esteve associado a outros grupos de oposição, a tal ponto que pela segunda vez, em dezembro de 2023, foi novamente à Venezuela com o objetivo de organizar uma segunda tentativa de golpe com o capitão Añelo Heredia”, lembra. Heredia foi preso e Ojeda, ferido, conseguiu escapar e deixar Cúcuta, na Colômbia, com destino ao Chile. Ele só estava vivo há dois meses.

Perguntar. Por que você suspeita que outras autoridades sejam os autores intelectuais do crime de Ojeda?

Responder. É muito difícil para uma pessoa de um governo, muito centralizado e personalizado na pessoa do Presidente, tomar a decisão de encomendar o trem Aragua para operar o trem e cometer este crime no Chile. Outras pessoas sempre interferem. Também precisamos reunir mais informações básicas para, em algum momento, solicitar a extradição ou formalizar outras figuras que possam estar envolvidas na autoria intelectual. Isto dependerá do futuro da Venezuela.

PARA. Além das evidências fornecidas no relatório Cyper, Que outros antecedentes apontam para Cabello?

R. Não conheço os antecessores que surgiram neste ambiente, mas tenho a impressão de que não são todos. Nosso passado mostra que a ordem (do crime) foi dada pelo governo venezuelano através de Diosdado Cabello.

PARA. Qual foi o interesse em matar esse inimigo?

R. O interesse é político. O governo venezuelano criou uma organização que sequestrou e matou ou mesmo repatriou alguns opositores em outros países. Esta informação foi obtida informalmente, foi obtida no decurso de uma investigação (judicial).

PARA. Você queria dar um sinal aos outros?

R. Ronald era muito ativo nas redes sociais, bem ciente da realidade política da Venezuela, que havia lançado duas tentativas de golpe junto com outros ex-militares que na época tinham certas alianças com os militares ativos.

PARA. O senhor disse que a dificuldade da investigação fiscal foi a falta de cooperação da Venezuela. O que você acha que mudará após a tomada de Maduro?

R. Nós não sabemos. Quando esses movimentos ocorrem ou a água é agitada dessa forma, as oportunidades sempre se abrem. Isto é importante porque poderíamos avançar no campo relacionado aos autores intelectuais, aqueles para quem o Trem de Aragua atua. Insistiremos de maneiras diferentes. Na situação em que Maduro está agora (detido) nos Estados Unidos, veremos uma oportunidade para obter uma declaração dele. Também insistiremos neste aspecto no Tribunal Penal Internacional.

PARA. O Chile forneceu informações básicas sobre o Caso 1 da Venezuela ao TPI. O que aconteceu com isso?

R. Pediremos a sua cooperação porque durante a investigação do Tribunal Penal Internacional poderá haver antecessores que nos possam ajudar. A outra linha é a Colômbia, um dos países mais cooperantes e aliado nesta investigação. Três julgamentos de extradição estão pendentes no caso de Ojeda. A autorização para extradição será concedida pelo Supremo Tribunal Federal, aguardando assinatura e autorização do Presidente da República (Gustavo Petro). Este é o último procedimento a ser fornecido.

PARA. Que interesse o FBI tinha no caso Ojeda?

R. O interesse que esta investigação suscita é que nos permitiu penetrar no cerne da aliança entre o governo e uma organização criminosa: o Trem Aragua. Isto abre outros mundos, como os crimes que organizações criminosas cometem em coordenação com o governo venezuelano. E então surge o Cartel do Sol, envolvido no tráfico de drogas. Este pôster também aparece em nossa investigação de alguns membros envolvidos (para o FBI). A partilha de informação nesta fase é muito importante porque, se pretendemos combater o crime organizado, não o podemos fazer dentro de todas as fronteiras.

PARA. Eles fornecerão informações aos Estados Unidos?

R. Sim, temos uma série de procedimentos que consideramos necessários realizar o mais breve possível. Conversamos sobre isso com o procurador nacional. Precisamos passar para outro nível.

Referência